@fim de agosto

a chuva ainda cai, sem escrúpulos
ou certezas;
enquanto paro e observo-a
a realidade manifesta-se no andar apressado e indiferente
na performance maniqueísta de que é feita a multidão;
desço escadaria abaixo,
a rua é feita de poças, bueiros trancados
e pousando de lugar-em-lugar,
um passarinho,
que sempre me passa
 — voar é sua arte,
pousa na beira da ponte;

embriago-me na repetição do dia-a-dia, 
na chuva que cai e há de cair, na multidão que passa e há de passar,
no pássaro que voa e deixa de voar: despido-me de modernidades.
meio a essa epifânica lucidez, vivo angustiosamente — passei a estranhar os dias,
um testemunho de todas as horas — até meu fim-temporal;
tudo permanece como está — a realidade, imagem, o desejo
sem verdades afrente — a vida não é múltipla-escolha
vivente findável, sem grandes segredos: sou estranho a mim mesmo;
((a realidade é caos e acaso))
enquanto reparo na chuva que cai, 
nos olhos que não me veem, 
no passado que convém — o presente é minha única certeza;

Mas reflito: não preciso ter certeza! 
o que sei é que a certeza não é certa — como um ponto em meio a linhas;
percebo-a — a realidade — indiferente mas presente; 
(como um tempo que se esconde)
eu estou vivo – e isso me assusta um pouco.