Meritocracia no Brasil. Existe? Onde vive? Do que se alimenta?

Rodrigo Focaccio
Aug 24, 2017 · 3 min read
Adivinhe de que lado estão os defensores da meritocracia?

A história é contada pelos vencedores. O velho adágio pode perfeitamente ser aplicado no Brasil.

Ouvindo as histórias de quem “venceu na vida”, pode-se pensar que sair da base para o cume da montanha social é possível para qualquer um. Basta querer.

A possibilidade de que alguém é capaz de alcançar um patamar mais alto da escalada social apenas pelo próprio esforço é o que muitos se acostumaram a chamar de meritocracia, palavra embebida no ideal do “sonho americano”, um conceito já meio fora de moda até nos EUA, mas que em sua essência ofereceria as mesmas chances a todos.

O problema da ideia de meritocracia é tentar vendê-la como realidade ignorando-se contextos e circunstâncias. Como ter as mesmas chances sem as mesmas condições?

É mais fácil falar em meritocracia dentro de uma empresa onde as pessoas trabalham em condições iguais do que em um país inteiro. Principalmente se esse país for desigual como o Brasil.

Meritocracia só existe quando há igualdade de condições. Ou alguém defenderia o mérito do vencedor de uma corrida que ganha uma prova porque largou vários metros à frente dos demais?

Um estudo realizado em 2016 por dois economistas do Federal Reserve Bank of Boston, Richard Reeves e Elizabeth Sawhill, nos Estados Unidos, país menos desigual que o Brasil, mas onde o fosso entre classes sociais vem aumentando, mostrou que na maior parte dos casos a meritocracia é conversa de auditório. Aqueles que saem de baixo e fluem livremente para o alto da são as exceções que confirmam a regra.

A pesquisa também mostra em detalhes como a desigualdade social e racial são, na maioria dos casos, muros intransponíveis para quem está na parte de baixo e facilitadores para quem está na parte de cima. Nos EUA, a chance de uma criança negra permanecer na mesma classe social é de 51% enquanto a de uma criança branca é de apenas 23%.

Esse mesmo estudo também mostra que uma baixa escolaridade atrapalha bem menos o sucesso financeiro quando a pessoa tem menos estudo, mas é mais rica. O que é absolutamente oposto à tese meritocrática.

Os economistas analisaram 16 países e o Brasil fica na rabeira. É o lugar com a menor mobilidade social entre todos, atrás inclusive da África do Sul. A principal razão, segundo eles, é a falta de mobilidade educacional. Em outra palavras, pobre ter menos escolaridade e o rico mais, é menos que uma tendência. É praticamente uma regra.

“Porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado” Mateus 25, 29

Quando falamos da escola, aplicar o conceito da meritocracia para os estudantes mais uma vez parece uma ideia frouxa. Uma análise pormenorizada de dados do Ministério da Educação comparando alunos de escolas públicas e particulares no Brasil evidencia que a estrutura familiar e o poder econômico são fatores decisivos para os desempenhos dos alunos. Estar acima na pirâmide social não é tudo, mas ajuda muito no processo de aprendizagem.

O médico e escritor Dráuzio Varella publicou em uma de suas colunas um estudo feito nos EUA, na Universidade de Columbia, que comprova como a má nutrição de crianças atrapalha anatomicamente o desenvolvimento dos seus cérebros. Ou seja, os indivíduos mais pobres, que tendem a ter um déficit nutricional maior, ficam prejudicados no desenvolvimento cognitivo e no aprendizado. Na corrida pelo sucesso, os pobres largam bem mais atrás.

Mais uma vez, o enorme buraco da desigualdade brasileira engole oportunidades e também qualquer centelha de meritocracia.

Em países como a Dinamarca, a educação não é um problema que dificulta a mobilidade social, tampouco parece ser a razão disso. Como lá todos os cidadãos possuem acesso gratuito e cursam praticamente as mesmas escolas, o que se faz para promover a mobilidade social é cobrar altos impostos dos mais ricos e taxas mais baixas dos mais pobres.

Mesmo assim, até a Dinamarca comprova que o fato de ter pais ricos é um diferencial quando se fala em oportunidades.

Uma coisa parece certa: exaltar a meritocracia quando não há um mínimo de igualdade é apenas ponto de fuga de um problema grave ou um esforço para que tudo continua exatamente como está.

________________________________________________________

Como você gosta de ler, conheça também meu canal no YouTube.

)

Rodrigo Focaccio

Written by

https://www.youtube.com/cultebookliteratura

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade