Belas, dedicadas e das quadras

Foi um encontro inesperado. Eu me preparava pra sair de Brasília, tudo muito bem encaminhado. Na minha cabeça não me restava outra oportunidade a não ser sair, já que por aqui na cidade as portas haviam se fechado. Havia perdido uma “batalha” de anos. O sonho de fazer um trabalho decente na cidade que me deu de presente o basquete, havia ido embora. Após um 2015 onde passei 8 meses tentando entender que havia encerrado minha chance, que era hora de partir e recomeçar e que esse sonho de fazer algo pelo basquete da cidade era uma ilusão, me deparo com uma situação. Perto de partir e recomeçar, descubro que ainda não era a hora de ir. Recebo a noticia de que para onde eu iria, não me receberia mais. A vontade era tão grande de sair daqui, que meus pertences nem se encontravam mais na cidade. Já estavam fora dali pra eu me acostumar com a decisão de recomeçar. Pra mim não havia sentido de continuar numa cidade que deixou claro que aqui não haviam mais condições de crescer. As palavras “recomeço” e “Brasilia” não combinavam e sequer se encaixavam na minha mente.

Com o tempo de vida me tornei alguém cético, pragmático e que acredita nas coisas palpáveis. Na repetição, prática e evolução. É meu campo de estudo e tento deliberadamente refutar qualquer indício que soe com a ideia de “destino”, “tinha que ser” e outros mais. Mesmo assim, em um fim de semana onde percebia que teria de ficar por mais tempo em Brasília, precisei decidir. Peço demissão? Continuo? Recomeço por aqui mesmo? Como? O medo de ser “ mais do mesmo” me dominava. Criar raízes, me encher de emprego até não conseguir raciocinar e achar que está tudo bem.

E na minha frente havia uma opção. O time feminino de basquete da instituição na qual trabalho há 10 anos. Eu havia me afastado do basquete feminino faziam dois anos com a forte promessa a minha pessoa de que não voltaria tão cedo. A última experiência havia sido desgastante e me desmotivou muito com o mundo do esporte amador feminino, que, se no masculino as coisas são difíceis, no feminino as condiçōes são muito piores, e sob minha análise as próprias atletas são responsáveis também por esse caos em que se encontra a modalidade. Pois bem, sem muito saída, pensei que pra ficar em Brasilia, precisava continuar trabalhando com basquete. Se você quer ficar bom em algo, ensine. Ensinar, dar treino, me força a melhorar, estudar e manter meu desenvolvimento. E essa foi a chave para fazer minha escolha. Havia uma equipe me esperando para trabalhar, e mesmo relutante com o local de trabalho em questão me perguntei: Por que não?

Em minha autoavaliacao profissional, me considero uma pessoa humilde, mas é claro, estamos sempre correndo o risco de errar e meter ‘ ‘os pés pelas mãos”. E acredito que eu cheguei a este time feminino tendo a convicção que eu era muito mais do que aquele grupo que estava à minha frente. Um grupo que treinava três vezes na semana, na hora do almoço, uma hora e quinze cada treino. E eu vindo de experiências de treino todos os dias por pelo menos meus últimos 8 anos.

Foi uma “porrada” grande que levei na primeira semana de treinamento. E a “porrada” só aconteceu no bom sentido. Deparei-me com uma cultura ruim de treinamento. As meninas quando chegavam para treinar, conversavam, demoravam pra entrar em quadra, treinavam na zona de conforto extrema, fazendo apenas o que sempre fizeram. E aquilo só reforçava minha ideia de que ali não era meu lugar. Mas a cada treino que eu começava, intervia e adicionava informação, pequenas “porradas” eu ia levando da equipe. Elas eram interessadas, respondiam bem aos estímulos, e cada uma ao seu jeito resolveu me dizer, seja pelo olhar, pelo modo de se dedicar: “ Eu to dentro! Vamos evoluir juntos!”

E como toda criação de cultura, as coisas foram andando, pequenas mudanças de comportamento, aceitação da informação nova e tentativa de fazer melhor a cada repetição. Com o tempo fui percebendo que nessa equipe havia algo que eu sempre lutei pra ter em minhas equipes e que nas vezes que consegui, por vezes vi acontecer em pessoas que não ganhavam um centavo para fazer aquilo. E a palavra do que elas me ofereciam era profissionalismo. Com poucas semanas de treinos vieram os desafios de jogos e de começar a buscar a evolução como equipe. E a vontade delas em consumir informação nova, em melhorar, começou a me fazer ter de buscar mais informação, mais variáveis, para adaptar aquele tipo de jogo a elas. Com o tempo, com os treinos, com os jogos e conversas em grupo e em particular, comecei a perceber que ali, naquela equipe, quem precisava aprender algo era eu. Eu que estava trazendo um rancor, uma “sede de vingança” que não pertencia a elas. Aquela era uma história minha, que passara, mas que minha mente, meu corpo e minha história de vida, tinham dificuldade de se desligar. Elas apenas queriam jogar o melhor basquete possível, da melhor maneira, e estavam dispostas a darem o melhor de si. Ao ver que era eu que errava mais nos treinos e jogos, aquilo me libertou de uma maneira absurda. Elas acabavam de me mostrar que eu é que precisava me desprender do amadorismo que foi jogado na minha frente por diretores e gestores que não possuem conhecimento e vivem de puxar o tapete um do outro, cerca de um ano atrás e que eu achava que não merecia aquele tratamento. O peso foi jogado fora das minhas costas. Elas haviam me provado que eu podia sim, recomeçar em Brasília, e talvez eu tivesse tirado sorte grande. Estava diante de um dos grupos mais envolvidos e comprometidos com a evolução que há hoje na cidade. Percebendo isso, como vejo muito mais claramente hoje em dia, tive a chance de recomeçar.

Com elas tive a oportunidade de trabalhar o jogo de uma maneira mais profunda como acredito. Não apenas baseado em resultado, mas baseado em um estilo de vida. Uma cultura que nos leva a melhorar como atletas e pessoas. Elas, jovens, universitárias, com seus sonhos, com suas pressões familiares, desejos profissionais e dúvidas que teimam em insistir a nos fazer acreditar que o que se decide nessa idade é para sempre, estavam lá, três vezes na semana, por uma hora e quinze, dispostas a evoluírem. A cultura de treino com o tempo mudou. Elas não perdem tempo batendo papo, começam a treinar mais cedo, se cobram sem deixar clima pesado e o mais bonito, estão diariamente se arriscando a jogar como nunca jogaram. Elas me fizeram enxergar que não precisam de gritos para saber como fazer melhor na quadra. Elas precisam é de atenção, de carinho, de uma conversa olho no olho, de um sorriso e de serem direcionadas a um caminho que ainda não sabemos qual é. Aquele caminho onde a zona de conforto não entra, onde só chega quem se arriscar a ser melhor, a fazer o que nunca fez e a criar hábitos vencedores para evoluir como equipe. Elas perderam o medo de perder, de parecerem bobas, elas resolveram dar um pouco mais de si, cada uma a sua maneira. E de conversa em conversa, discussões, cobranças e conversa jogada fora, também vou percebendo que ali, naquela equipe, eu é que estava perdido, eu é que não sabia o que fazer. E hoje me pergunto, o que seria de mim há três meses atrás se não tivesse me aceito nesse desafio de treiná-las?
 
 O desafio a nossa frente é enorme. Sabemos juntos que estamos muito distante de onde queremos chegar. E nem sabemos ao certo se um dia chegaremos lá. Mas só de saber que tenho elas ao meu lado para tentar, já fico empolgado de tentar imaginar como vai ser. Elas não são o padrão das mulheres “certinhas” que até um tempo atrás precisavam seguir como exemplo. Elas não são “belas, recatadas e do lar”. Elas são belas, dedicadas e das quadras. Elas são o que elas quiserem ser. Elas são hoje em dia a razão de fazer o trabalho que eu amo fazer. E eu devo a elas o fato de me proporcionarem a percepção de que era com elas a grande chance que eu tinha de começar novamente. Que sorte a minha tê-las ao meu lado! Que venham os desafios e que tenhamos a capacidade de continuar aprendendo juntos.

Obrigado, meninas! Tem muita coisa pela frente ainda… Bjo Grande


Originally published at apenaserreele.blogspot.com.br on May 27, 2016.

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