O ciclo inesgotável de aprendizados

Estou há exatos 110 dias morando fora de Brasília, cidade onde vivi minha vida toda. Mudei-me para uma cidade de 25 mil habitantes. Cidade organizada, estruturada, mas uma cidade de 25 mil habitantes. Vim a trabalho, mas a imersão não me dá a chance de viver apenas o profissional aqui. Quem veio pra cá fui eu, Rodrigo, com minhas ideias, trabalho, cultura, pensamentos, costumes e vivências. E sendo assim, tenho tido a imensa oportunidade de me ver, por vezes, fora de uma zona de conforto, fora de costume, fora do habitat, vivendo novas experiências, a cada milésimo de segundo que passa da minha vida por aqui.

De início, uma empolgação de conhecer algo novo, pessoas novas e costumes novos. Tudo é motivo para empolgação. Tenho sido absurdamente bem tratado por aqui. As pessoas são muito carinhosas, atenciosas e isso é e foi algo que me fez sentir muito bem logo de início. Você conheceu alguém novo hoje? Prepare-se, pois ele fará parte da sua rotina, você certamente o verá em breve, já que numa cidade de 25 mil habitantes as chances de as pessoas se encontrarem bastante aumentam, e muito. E vale lembrar, estou vindo de uma cidade que as pessoas brincam de chamar de “ovo”, por ser, em tese, pequena.

Passada essa fase, e depois de um tempo, você começa a se aprofundar no dia a dia e, claro, começa a sentir falta de algumas coisas. Então, muitas das coisas que geravam empolgação, entram agora no campo da observação, questionamento, você quer entender como aquilo funciona, por que é daquele jeito e por que as pessoas se comportam assim. E esse estado é muito interessante, pois você começa a entender na prática o quanto o mundo que cria em sua mente, muitas vezes, é tão pequeno. Há diversas maneiras de ser, se comportar e pensar a vida, o mundo e as situações. E isso é sempre muito bom ser confirmado por você mesmo, pois senão você pode incorrer no risco de acreditar piamente nas verdades que criou pra si mesmo e pra história que conta da sua vida.

Atualmente, especialmente nos últimos dias, já bem estabilizado com rotinas, estilo de vida e convivendo com um bom grupo de pessoas de diversas áreas, entro na fase da reflexão: Questionamentos internos de quem é você e porque. Passo a sentir falta de conhecer pessoas que me conhecem há mais tempo. Estar aqui a trabalho, de alguma forma, é lidar um pouco com as expectativas que as pessoas têm sobre você. Se um dia eu for muito empolgado, enérgico, animado, na minha visão, pode ter sido mais um dia, mas para quem me conhece há tão pouco tempo, isso define bastante quem estou sendo ali. Se um dia eu estiver chateado, paciência curta e for muito duro, o peso também é o mesmo. Ou seja, não há uma relativização histórica de quem você é. Você é aquilo e pronto! E isso tem um lado muito legal. Você é impulsionado a recomeçar, a tentar acertar, mas o perigo está em, por vezes, correr o risco de ser julgado por ações isoladas que não representam a variedade de possibilidades existentes em você. Então, pra mim, associado a minha absurda cobrança pessoal de “dar certo profissionalmente”, pode gerar um tipo de peso, pressão ou cobrança com o que preciso saber lidar, ter cuidado e relaxar um pouco mais. E isso não é fácil algumas vezes. Logo, por vezes, há uma saudade absurda dos familiares, que te conhecem desde sempre, e dos amigos. E sendo eu tão ligado aos meus amigos, sinto falta de cada um, de cada conversa, cada troca de experiência de cotidiano, que pareciam mais uma simples história, mas que na verdade são doses de pequenas lições diárias de vida. Hoje, sinto falta de saberem quem eu sou, qual meu propósito, e porque faço o que faço em busca do quê. Tudo uma questão de perspectiva e ponto de vista. Algo difícil, que dói, que dá saudade, mas que ao mesmo tempo me faz esperançoso por saber que não há mudança, evolução, melhora, sem dor, sem dificuldade. E sei que o que estou vivendo nos momentos em que sinto dificuldades, não está sendo apenas um acréscimo, uma aventura/experiência/bagagem profissional. Está sendo uma oportunidade de vida.


E assim se foram quase 4 meses, quase um terço do que vim fazer aqui. Aprendendo diariamente, tendo a oportunidade de me olhar de uma maneira nua e crua como nunca havia conseguido fazer. E aí me pego rotineiramente pensando e me questionando o porquê de nunca ter saído de Brasília há mais tempo. Claro que há respostas cabíveis para esta questão que envolvem não apenas o clichê da zona de conforto, mas também uma tentativa profissional a médio e longo prazo, que recentemente percebi que não iria mais pra frente.

Mesmo assim, se você está lendo isso aqui, vou arriscar-me a te dar um conselho. Saia daí! Saia de onde você está. Não me venha com esse discurso que você sabe a importância de viajar e conhecer outras culturas e etc. Saia daí assim que puder. Saia fisicamente daí. Aventure-se a conhecer outras pessoas, culturas e a experimentar algo que você poderia considerar diferente de você. Quando faço o discurso de que estou aprendendo e vendo possibilidades boas nisso, acredite, não é tão bonitinho quanto parece. Às vezes parece desesperador, é agoniante muitas vezes e milhares de pensamentos acompanham minha ida pra cama ao fim do dia. Eu nem mudei tanto assim de local. Estou em um mesmo país, não mudei de língua, e a cultura, apesar de diferente, não é tão radical e oposta assim. E mesmo assim o impacto já foi bem grande em mim.

Não sou especialista nisso, fiz poucas imersões assim na vida, mas posso te afirmar, essa pequena experiência aqui me confirmou que, a partir de agora, estou apenas no começo de não me aceitar conformado com a vidinha que eu vá levar em qualquer lugar. É necessário chegar e partir, várias vezes, pra vários lugares. E eu sinto que estou só começando.

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