O legado dos Warriors

Lições que a jovem equipe do Golden State Warriors deixa para as próximas competições e para a modalidade nos tempos atuais.

(Getty Images)

No fim da temporada da NBA de 2014 eu tive muita vontade de escrever um texto sobre o impacto positivo da história de superação da equipe do San Antonio Spurs. Após uma derrota sofrida em 2013 no jogo 7 depois de estar muito próximo de vencer o jogo 6 e se tornarem campeões. Um ano depois(e um ano mais velhos) deram a volta por cima não apenas com o título, mas também com um basquete bonito de se ver, coletivo, que empolgava e descentralizava a ideia do grande astro, o líder que fazia de tudo e salvava a todos.

Até me preparei pra escrever e discorrer sobre minha ideias de como acredito que uma competição desse nível pode influenciar não só atletas e técnicos, como outras equipes profissionais a (re) pensarem seu projeto e filosofia de jogo. Mas logo após o título eu me deparei com o vídeo abaixo e sinceramente, qualquer coisa que eu escrevesse naquele momento me dava a sensação de total redundância com tão bela edição de imagens e depoimentos que constam no vídeo.

Mas agora, após assistir a temporada de 2014–2015 e acompanhar a vitória do Golden State Warriors sobre o Cleveland Cavaliers, percebi que era o momento de manifestar-me e tecer alguns comentários que considero serem importantes de pensarmos sobre o basquete. Pois pra mim o esporte vai muito além da disputa de títulos, da vitória e derrota. Grandes competições tornam-se uma expressão de conceitos, comportamentos que influenciam gerações e admiradores espalhados pelo mundo.

Steve Kerr estreou na carreira de técnico nesta temporada. (Sam Forencich / NBAE)

E vendo a temporada do Golden State esse ano, algo me chamou muito a atenção. O time tinha um poderio ofensivo muito grande com um ritmo mais que acelerado. Um tipo de jogo que já foi testado por outras equipes e que acaba (quando se tem um conjunto com qualidade técnica) deixando o time em evidência por sempre pontuar muito e aparecer entre os primeiros no ranking de melhor ataque. Assim foi com o Golden State. A equipe terminou a fase regular com o segundo melhor ataque na competição. Os chutes certeiros (e de tentativas) de 3 pontos de Curry e Thompson chamaram a atenção e com isso, uma das grandes qualidades do time passou desapercebida: Eles tiveram a melhor defesa da competição entre todos os times.

Posso afirmar de que esse quesito fez muita diferença para eles. Manter-se competitivo com um jogo de tantos chutes e aceleração como eles fazem só foi possível pelo suporte dado por uma defesa que os garantia que poderiam se arriscar mais no ataque. A mesma intensidade e correria usada para atacar era também utilizada para defender e sufocar seus adversários. Defender como eles defenderam, abusando de trocas em bloqueios e em diversas variações defensivas com decisões e rotações tão rápidas quanto seus ataques, fez com que os Warriors saíssem um pouco da curva dos times que possuem um grande volume ofensivo. Normalmente os times que abusam da velocidade de transição para o ataque, valorizam o ataque rápido para gerar um número grande de tentativas e assim, estatisticamente ter mais chances de conseguir uma pontuação alta. Esses times invariavelmente pecavam no seu sistema defensivo. Tinham um bom rendimento no decorrer da fase regular, mas quando o assunto eram os playoffs (onde as equipes estudavam minuciosamente o adversário), muitas equipes incríveis, talentosas e dependentes de seus ataques, caíram. Marcaram época, mas não chegaram ao desfecho tão esperado que era o título.

Curry e suas habilidades que com certeza vão muito além do arremesso de 3 pontos. (Garrett Ellwood/NBAE/Getty Images)

E aí está a grande diferença e legado que o Golden State Warriors podem ter criado para o futuro. A apologia à diversidade! Apesar dos holofotes voltados para Curry e Thompson e de vermos os dois meninos disparando pela quadra em contra-ataques, chutes de três e jogadas de infiltrações geniais, o grande diferencial do time foi a capacidade de atuarem de forma intensa e se adaptando ao adversário, tanto ofensivamente quanto defensivamente. A versatilidade da equipe em ter diversas formações possíveis, jogadores que jogavam em variadas posições, certamente fez e está fazendo muito técnico e dirigente (que estudam basquete) pensar sobre como montar suas equipes para as próximas temporadas. Foram apenas duas derrotas em casa na fase regular e a equipe não perdeu três partidas consecutivas nenhumas vez. Uma campanha que dava créditos à equipe para figurar como candidata ao título por ter feito a melhor campanha no geral. E por duas vezes nos playoffs, o time passou por uma situação interessante: Após vencer o jogo 1 contra Memphis e Cleveland, perderam o jogo 2 em casa e o 3 fora. Duas derrotas em casa, uma em cada série (Assim como em toda a temporada regular) e duas chances de perderem três seguidas e ficarem 1–3 na série muito próximos da eliminação. Ninguém pode dizer que essa equipe não foi testada nos playoffs. Era visível nos rostos dos jovens atletas nesses jogos em que quase nada deu certo e os ajustes dos adversários funcionaram, o franzir de testas, nervosismo e a tristeza por não estarem mantendo a intensidade e o volume de outros jogos. Com calma e serenidade o técnico, Steve Kerr, tentava minimizar as perguntas dos jornais que aproveitavam o momento para questionar se o time não estava pronto nem maduro o suficiente para lutar pelo título: “O time é jovem e eles estão aprendendo. Espero que esse aprendizado ocorra a tempo de melhorarmos nos próximos jogos”. E o espetacular disso tudo é que tanto em Memphis quanto em Cleveland, no jogo 4, a equipe aprendeu, amadureceu e se reinventou.

(NBA.com)

Em Memphis, jogando contra uma equipe com dois dos melhores pivôs da NBA, a equipe arriscou tudo ao colocar um dos pivôs do time (Andrew Bogut) marcando um lateral (Tony Allen), fazendo com que o pivô reforçasse o garrafão e apostasse nos erros do lateral, deixando- o livre para o chute e assim gerasse uma confusão tática nas decisões da equipe de Memphis(Isso foi apenas um dos ajustes realizado).

Já em Cleveland, após mais de 90 partidas jogadas na temporada por André Iguodala sem sair em nenhuma como titular, ele entra para marcar Lebron James desde o início da partida e também para abrir espaço no ataque, já que além de correr muito bem nos contra-ataques e pontuar nas cestas fáceis, André seria um jogador a mais que poderia atuar aberto, pronto para chute e aproveitando que por muitas vezes sobrava para Timofey Mozgov marcá-lo. Assim, a defesa do Cleveland precisava decidir se saía em seus chutes de média e longa distância ou não, o que poderia abrir espaço para outras mais opções de ataque para o time dos Warriors.

André Iguodala muda o sistema defensivo e ofensivo da equipe dos Warriors. (Getty Images)

Portanto, o legado dos Warriors impacta diretamente a ideia midiática e tentativa que confesso causar-me cansaço e desconforto que é a de individualizar um esporte coletivo. Ou seja, tentar transformar um esporte que possui tantas e infinitas variáveis em um esporte de uma pessoa só. Não é raro ver isso. Os jornais esportivos brasileiros adoram vender há anos a ideia de um ídolo que conduz e é a unica verdade e esperança da equipe para alcançar o título(Neymarmania, por exemplo). Mas na contramão da individualização das equipes, ver os Warriors jogarem desta maneira, assim como vimos os Spurs e temos a chance ver o próprio Barcelona no futebol, por exemplo, nos faz pensar que existem craques, mas que direcionar o trabalho à equipe, à montagem de um plantel qualificado, cercado de bons hábitos ofensivos e defensivos, praticados diariamente com afinco, gera um resultado expressivo, mostrando que a soma das partes pode ser maior que o todo.

Esse conceito de esporte está ficando para trás. Ainda bem.

A ideia do esporte coletivo para um ou dois jogadores apenas conduzirem a equipe está ficando pra trás. Isso se deve a globalização dos estudos em esporte, ciência, tecnologia, aprendizagem motora e outros mais assuntos que interferem nessa questão. Tivemos uma boa lição na Copa do Mundo de futebol do ano passado. Os grandalhões alemães que eram considerados desengonçados em tempos atrás tornaram-se habilidosos com o passar dos anos(será que foi mágica?).

No Golden State Warriors, pelo menos dez jogadores nos playoffs tiveram bom tempo e oportunidade de jogo com participação diversificada em diversas posições. Os alas-pivôs além de jogarem próximo a cesta, levavam a bola para o ataque e armavam as jogadas, os pivôs além de jogarem próximo ao garrafão, chutavam bem de fora e os armadores e laterais pequenos possuíam além do arremesso, um bom jogo de pé pivô para fintar seus adversários quando jogavam próximo à cesta.

Essa ideia de diversificação me remete a um conceito de que o mundo em que vivemos um dia já foi dos generalistas, aqueles que faziam de tudo um pouco com certa qualidade. Depois foi a vez dos especialistas, aqueles que faziam algo específico com muita precisão e capacidade. Hoje em dia, o mundo é dos multi especialistas, aqueles que são capazes de fazer diversas coisas muito bem. Essa não é uma tendência somente do basquete, muito menos exclusividade do esporte. É uma tendência no trabalho e na vida nos dias de hoje. E para chegar nesse nível de multi especialidade é necessário muito trabalho e mudança na mentalidade.

Por isso fico feliz em poder falar desse título. Um título da equipe com melhor campanha na competição, equipe que teve o MVP, mas que foi uma equipe falível, que aprendeu nos momentos difíceis e mostrou-se preparada para superar as dificuldades, não apenas com um ou dois jogadores, mas com um elenco. Foi bonito ver nos playoffs como diversos jogadores tiveram seus momentos de destaque. Quando um jogador não estava bem ou muito marcado, variações táticas permitiam que outros jogadores atuassem de maneira decisiva e de mão em mão, de passe em passe, defesa em defesa e de ajuste em ajuste, o time foi se consolidando até alcançar sua almejada conquista, que foi planejada, desenhada, trabalhada, desenvolvida e conquistada desde sua pré temporada, há quase um ano atrás, e foi se consolidando passando por toda a competição até o último segundo de partida do jogo 6 em que decidiu o título.

Esse pra mim é o legado do Golden State Warriors. Valorizar o imenso potencial de toda uma equipe e trabalhar duro para a evolução de todos.

Getty Images
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