Partir

Chegou a hora. Por mais que minha mente, inquieta, tente assumir o discurso de que está tudo bem, de que aprendeu muito com tudo o que aconteceu e que, este incessante aprendizado, tenha ajudado a me desenvolver como pessoa, o tempo de partida sempre chega. É tempo de partida, de mudança. Desta vez, como nunca fizera antes, ouvi conselhos em excesso e me pautei por eles, demonstrei maturidade, fiquei onde em outros tempos eu imediatamente teria pedido para sair. Mas mesmo assim, mesmo tentando ser uma pessoa mais sensata e coerente com as situações adversas, aquela vontade de mudar, de começar de novo, chegou.

Foto: Clarissa Mendes Rodrigues

Não há mais o que fazer onde estou. E quando penso friamente nisso, de maneira isolada, sem conjecturar outras situações, informações, ou cruzar histórias de outras pessoas, fica claro pra mim que não há nada mais para fazer aqui. A mensagem de que aqui não há espaço para eu crescer como almejo, já foi passada faz tempo. Logo.. o que resta é tomar coragem de seguir em frente nesta vida. Vida que se em algum momento teve sentido pra mim, foi quando corri atrás das coisas que acredito. Isso tem um preço valoroso demais de ser vivido. Hoje me sinto inundado da vontade de começar novamente. O lugar? Não importa mais! Um lugar que me queiram trabalhando e produzindo. Isso é mais importante do que as condições que teria pra realizar esse trabalho. Passei dezoito meses tentando achar um lugar perfeito pra recomeçar, e hoje, percebo que o melhor lugar que pode haver é qualquer lugar fora daqui.

Não consigo mais olhar as pessoas do ambiente no qual atualmente ainda sobrevivo: paradas no tempo, como sempre foram, olhando para seu próprio umbigo, fazendo pactos medíocres pra “vencerem” na vida e discursando pro mundo fictício do parecer ser de que são altamente organizados. Isso não tem um pingo de relação comigo. Quando me dizem que é preciso ter paciência para crescer com estas pessoas, concordo até um certo ponto. E este ponto é até quando chegam no seu preço. Eu tenho preço. Aprendi com minha família a me valorizar. É o grande ensinamento que deixaram cravado em mim. Nunca fui estimulado a aceitar ou ter de fazer pactos medíocres para sobreviver. E talvez por isso, a facilidade que eu tenha pra enxergar as possibilidades de começar novamente. Mesmo dessa vez, envolvido por uma paixão e vontade de construir uma história “em casa”, ter demorado demais a perceber que já era tempo de me desvincular e buscar recomeçar.

Pode parecer extremamente piegas e clichê dizer que quero ir buscar minha felicidade. Eu mesmo criticaria alguém que escrevesse assim, pois parece vazio. Acredito que felicidade é um estado de construção constante, de perspectiva e visão sobre tudo o que acontece. Mas atualmente, depois desses dezoito meses de busca interna do que fazer, essa frase nunca fez tanto sentido. Quero ser feliz, quero ter propósito. Quero trabalhar onde me querem trabalhando com o que amo e que acreditam na minha capacidade. Onde vão me dar condições básicas pra fazer a diferença no trabalho que acredito saber fazer muito bem. Onde possa ter a chance de continuar me desenvolvendo profissionalmente e pessoalmente, e que possa sentir o impacto do desafio, bem ali na minha frente, tirando de mim o melhor que eu possa oferecer a cada dia. Um lugar onde possa ter a chance de me arriscar e criar (mais uma vez) uma cultura em que possa dar bons frutos ao meu trabalho e ao trabalho das pessoas que estarão envolvidas diretamente. E essa hora chegou. Não tenho dúvidas disso. Estou certo de que é hora de ir embora daqui.

A sensação é de que são inúmeras vozes que dizem: “por que você não fez isso antes?”; “por que acreditou que aqui seria o seu lugar?” , misturados com outras que dizem algo como: “vai, cara, se solta dessa merda toda!”; “é só deixar seguir”. Hoje, ao ouvir essas vozes, com minhas leituras sobre aceleração de pensamento, meditação e busca de conhecimento pessoal, percebo que isso tudo são fragmentos de mim, soltos em minha mente em momentos diferentes da minha vida, que aparecem de volta para me alertar e ao mesmo tempo “assombrar”. Algo que provavelmente me deixasse mais confuso, inseguro, sem saber ao certo qual decisão tomar, mas que tenho decidido não mais escutar.

O que já fez sentido, não faz mais. Foto: Clarissa Mendes Rodrigues

Por hora, opto por seguir tranquilo e certo de que não há certeza sobre nada. E assim me calo, procuro ouvir a minha respiração, deixo a “gritaria” de pensamentos passarem e me decido pelo agora. Nada é mais importante do que a decisão do agora. E é atrás dessa decisão que eu vou. Admitindo que o que vai ser disso tudo possa ser um grande “não sei”, mas, ao assumir essa possibilidade, também me dou a chance de buscar o que quero indo atrás das variáveis que posso controlar em busca do “eu sei”. E me dou a inteira responsabilidade de ser realmente quem eu quero ser. Com minhas alegrias, loucuras, difíceis decisões e tormentos.

Ao olhar pra trás, ao tentar traçar um caminho do que fui, quem sou e o que quero alcançar, percebo, firmemente, que só agora é que este agora poderia acontecer. Não teria nexo ter acontecido antes. Só poderia acontecer agora. Isso faz todo o sentido pra mim. E é pra mim que este sentido precisa realmente fazer. Ir em frente, certo do que quer, pronto pra recomeçar sempre que precisar.

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