Foto: sportsglory.com

“Temos que querer mais do que o sucesso em nossos trabalhos”

Se tem um cara no qual admiro é esse cara aí de cima, Greg Popovich. Técnico principal do San Antonio Spurs há quase vinte anos e sem dúvidas, alguém que não abre mão de expressar o que ele acredita e quem ele é.

No meio esportivo, e principalmente no alto nível, ser técnico é saber negociar, lidar com diversas pessoas e esferas, entender diversos lados e aprender com todas estas situações. Mas ao mesmo tempo, o perigo em negociar suas relações é que pode te fazer perder umas das principais coisas que te levaram até lá: ser quem você é!

Primeira entrevista dele com o jornalista que acabara de superar a leucemia

Quanto mais se sobe de nível, mais você precisa lidar com jogadores importantes, celebridades e dirigentes (muitas vezes egocêntricos). E do que vejo de Popovich, ele consegue manter-se “puro”, colocando seu ponto de vista e defendendo seus ideais. Pop refuta sempre que pode a glamourização do esporte, como acontece no nível o qual ele trabalha. Sempre que dá suas entrevistas obrigatórias durante os jogos(há um contrato na Liga no qual prevê estas entrevistas), ele faz questão de não mostrar empolgação ou vaidade com esse momento. E muito mais pelo quão superficial são suas perguntas do que pela sua importância. Mesmo assim, Pop está sempre atento para dizer coisas importantes quando considera necessário.

Além disso, seu trabalho modificou a forma que muitas outras equipes enxergam a montagem de elenco. Focado em desenvolver atletas e não apenas de olho no talento esportivo, Pop enfatiza também as competências pessoais dos atletas. Dessa maneira, montou um trabalho ao longo desses quase vinte anos com cinco títulos e com folhas salariais abaixo de equipes que focavam contratar as principais estrelas do esporte, e que mesmo assim, nem sempre venciam a competição. Mas seu trabalho sempre foi muito além de lutar por títulos.

Em seu trabalho como Head Coach, Pop, com fama de ranzinza e cara fechada, formou muito além de atletas. Formou pessoas de caráter e sempre que pôde, deixou claro que esse deveria ser o foco dos trabalhos.

Recentemente, em um evento com jovens, Pop teve uma participação na qual me fez querer traduzir (mal e porcamente) uma matéria para colocar aqui e dividir com vocês, pois nos dias de hoje, onde vemos pessoas sucumbirem suas personalidades, alegando que neste ou naquele meio, ou este tipo de trabalho, precisam agir diferente, é muito bom ver alguém que consegue atuar nas duas extremidades: Atingir o alto nível na busca de títulos, e se preocupar decisivamente na formação das próximas gerações, sem colocar a finalidade principal em ser campeão. São pessoas assim e trabalhos destas forma, que quando vejo, acredito que há sim espaço pra fazermos diferente e que é possível seguirmos trabalhando acreditando numa mudança de cultura.

Segue a tradução do artigo:

Quando você vive em um turbilhão constante, onde tudo gira em torno de basquete, parece normal que seja difícil sair deste contexto. Muitos protagonistas vivem isso, desde jogadores, treinadores, gestores das outras organizações, e acreditamos que esse sintoma de vida corrida é acentuado quando eles têm mais reconhecimento. Como mencionado, parecem sim normais terem essa vida, mas há momentos em que podemos desfrutar destes personagens em outros âmbitos, algo que nos mostra que por trás dessas figuras, há um outro rosto.

Com Gregg Popovich acontece isso, embora muito possa ser visto frequentemente. Desde sua inteligência, sua maneira particular de ver as coisas, sua visão de mundo e sabendo que é uma mente que vive a se cultivar, o treinador dos Spurs foi participar de uma palestra de mais de duas horas com 250 estudantes do segundo grau Sam Houston, no lado leste de San Antonio. Não fizeram uma palestra sobre basquete, mas um diálogo aberto sobre a forma de viver e funcionar no mundo de hoje. Eram questões de interesse comum, numa realidade em que vivemos claramente cheio de conflitos e crises. Pop não estava sozinho, mas acompanhado do Dr. Cornel West, professor em Harvard, mas o treinador texano fez colocações não só interessantes como surpreendentes. Pop explicou que a decisão de comparecer a esta reunião foi muito pessoal, não porque foi convencido a participar, mas porque ele acredita que estas são coisas necessárias a fazer, especialmente quando falamos sobre e com os jovens.

Dr. Cornel West e Greg Popovich conversaram com a garotada no dia 20 de novembro (Foto: San Antonio Spurs)

“Eu queria mostrar aos alunos de Sam Houston que há pessoas em sua comunidade que se preocupam e nós entendemos que existem coisas que precisam melhorar. Estamos prontos para ouvir e participar com vocês, a fazer com que isso aconteça”, disse ele perguntando pelo The Nation. A maioria das perguntas dos alunos foram voltadas sobre a capacidade de avançar na sociedade, com otimismo e esperança na situação de um país que está assistindo bastante mudanças, com a recente eleição do presidente Donald Trump. No entanto, um aluno perguntou a Pop se os Spurs iriam ganhar o campeonato da NBA, uma questão a qual o treinador do San Antonio respondeu de forma admirável e brilhante.

“Ganhar o campeonato? Eu não sei, mas não é uma prioridade na minha vida. Eu ficaria muito mais feliz se soubesse que meus jogadores iriam melhorar a sociedade, que tinham boas famílias e cuidavam das pessoas ao seu redor. Eu ficaria mais satisfeito com isso do que com um título. Eu adoraria ganhar outro campeonato, e nós vamos trabalhar duro para tentar fazer isso. Mas temos que querer mais do que o sucesso em nossos trabalhos. É por isso que estamos aqui. Estamos aqui para que vocês entendam que vocês podem superar obstáculos se estiverem preparados e se vocês educarem a si mesmos. Se vocês se tornarem respeitosos, pessoas disciplinadas neste mundo, vocês podem lutar contra qualquer coisa. Se vocês se juntarem e acreditarem em si mesmos e uns nos outros, isso é o que importa. Isso é o que nós queremos transmitir a todos vocês: que acreditamos em vocês ou não estaríamos aqui. “

Like what you read? Give Rodrigo Leonardo a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.