Um mergulho em mim

Decidi no início deste ano que levaria um ano, como dizem por ai, sabático. Um momento pra repensar tudo, pra entender em que caminho estou e para onde estou indo. Para assumir um ano assim, uma decisão era importante ser tomada. Trabalhar pouco. Ao invés de fazer o sabático como ele é com ausência de trabalho, trabalhar pouco já me causaria a chance de sentir-me livre pra pensar em outras questões. Mas não apenas isso. Era importante trabalhar pouco e não se sentir mal por isso. Esse era o grande desafio. E assim tem sido o meu 2016. Um ano com tempo sobrando para mim, mesmo que por vezes eu não tivesse a menor ideia do que fazer. Como objetivo principal, gerar um olhar pra dentro, nem que fosse de maneira forçosa para que desta vez eu não desse desculpas de que minha vida estava uma correria. Desde 1999, quando iniciei minha vida profissional, que a sensação era de que cada ano que vinha, mais correria se criava. E junto disso vinha um orgulho de estar “amadurecendo”com essa correria toda. Atualmente isso me soa até de maneira engraçada. Digo isso porque essa correria me formou, sem dúvidas, mas paralelamente também me deformou. Me trouxe vícios, com hábitos dos quais não me orgulho e que aos poucos, quase que como num processo de desintoxicação, venho tentando me livrar desse lixo comportamental adquirido.

Neste projeto de olhar mais para dentro, uma decisão estava tomada. Ano olímpico, tempo de sobra, economias devidamente guardadas, resolvi que iria para São Paulo em julho ver treinos de basquete, conversar com pessoas da área, fazer network e em seguida, ir para o Rio de Janeiro acompanhar as Olimpíadas. E aqui estou! Já há duas semanas na cidade, já passado aquela inicial fase de empolgação, ambientado à cidade, o que me resta agora é exatamente o que eu gostaria: olhar pra dentro. Viver um imenso mergulho em mim.

E se o objetivo era mexer comigo, certamente objetivo concretizado. Passando muito tempo sozinho, com meus questionamentos, com minhas dúvidas, com meus pensamentos balançando entre serem positivos ou negativos, fui forçado a começar a conviver mais comigo mesmo. E isso tem um valor absurdo pra mim. Ao conviver, ao estar 24 horas por 7 dias se olhando e observando, posso agora perceber melhor as diversas fragilidades da minha pessoa, as contradições entre o professor que transforma e move pessoas, e o cara lá dentro escondido atrás de um alter ego que lhe acomodou a ponto de não olhar pra si.

Tem sido incrível esses dias. E o principal de tudo nesse encontro comigo mesmo, é que a todo momento eu necessito fazer escolhas. Me condenar pelos comportamentos julgados pela minha pessoa como impróprios e não maduros, ou acolher esta pessoa que agora se mostra não tão completa o quanto gostaria e aproveitar esse grande momento de aproximação para dar sequencia no próprio desenvolvimento? Tenho tentado escolher a segunda opção. Tenho me esforçado para me ajudar a seguir em frente. A entender que não há justiça nem merecimento e assim, esvaziar a cabeça de projeções e seguir mais leve.

Uma das muitas viagens sozinho que fiz esse ano.

Aliás, leve é o que tenho buscado ser. Tenho praticado a incrível atitude de deixar seguir. Caso não aconteça como acredito que deva ser, reprogramo o caminho e sigo em frente. Tentando ter maior posse das variáveis que eu posso controlar, e em busca de me sentir começando novamente. As vezes dá uma empolgação absurda de pensar que essa mudança será marcante pro resto da minha vida em como enxergar tudo a minha volta. E as vezes vem um medo profundo do que já foi e, com calma e serenidade, tento dar adeus pra todo esse peso de projeções, expectativas e comparações que vivi. Sei que estou no caminho e que minha cabeça tranquilamente escolheria seguir em frente. Mas os apegos mais internos, coisas que eu mesmo considero bizarras, gritam desesperadamente agora, percebendo que não terão mais controle futuro sobre mim. É simplesmente fascinante dizer pra si mesmo “não quero mais isso” e se deixar seguir adiante.

Quero aproveitar profundamente este momento. Sei que estou passando pelo “olho do furacão” da mudança de comportamento. Certamente mais empolgado com o que vem pela frente do que com medo do que pode acontecer. Sinal evidente de que o pior passou já faz um bom tempo.


Originally published at apenaserreele.blogspot.com.br on July 22, 2016.

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