manhã de fevereiro

a gente estava no alto da serra, nos muros que cercam a cidade, discutindo nossa estratégia.

lá embaixo estava cubatão. nossa visão misteriosamente não precisava de binóculos pra ver através de toda aquela distância. era visível a estrada abandonada, tão precária que a mata até começou a reivindicar de volta.

cubatão parecia impossivelmente contrastante com sua fumaça escura saindo do meio de construções cercadas por bosques e até florestas.

então era hora de agir. descemos correndo pela serra, fluindo por entre as árvores e a umidade e os raios de sol. de repente já estávamos lá.

os três meninos estavam sentados, mas inquietos. formávamos um círculos com eles. algumas pessoas sentadas no chão de terra batida, outras em cadeiras de plástico. leo começou a falar, contar sua história, dar sua aula. os três meninos não prestavam atenção e ainda reclamavam do que ouviam.

eu entendia eles, e entendia o leo também. sentia em mim a ansiedade da bibi, sentada ao meu lado, e a raiva do freitag, que estava em pé observando. e eu sentia o incômodo dos meninos e o enorme desconforte que beirava o constrangimento do leo.

me levantei e fui sentar do lado dele. coloquei a mão direita no ombro esquerdo dele, comecei a chorar. pronto, agora ele poderia falar. cobri meu rosto com a outra mão pra não distrair os meninos com minhas lágrimas. mesmo olhando pro chão de terra eu conseguia ver eles. sentia a raiva do freitag se dissipando, a ansiedade da bibi se transformando em lágrimas — algumas dela, algumas minhas — e o leo finalmente conseguiu falar e ser ouvido.

os meninos foram se calando. se entreolharam um pouco, mas logo estavam prestando atenção. agora pareciam menores do que antes. não mais jovens, só menores.

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