A Realidade

A Realidade em plenitude tinha um corpo bem estranho.

Não era, certamente, tal como é o de um humano. O corpo de Realidade não obedecia à nossa simples anatomia ou disposição. Seus membros eram galáxias, seus ossos, vias lácteas, suas células eram estrelas que incandesciam até morrerem; o corpo de Realidade inchava e inchava, se topava explosivmente contra si mesmo, se destruía e reconstruía em infinitas combinações inúteis e sem sentido de membros ignóbeis de todas as maravilhas que produziam; os dedos e pés, os braços e pernas, o próprio torso da Realidade, nenhum deles possuía consciência. Rasgavam-se em supernovas a eclodir e, como se espinhas, a Realidade se enchia de buracos negros perante sua acetinada pele de matéria escura.

Entretanto, talvez o mais interessante de Realidade fosse seu cérebro: no fundo escondido de um canto qualquer, alguns átomos de Realidade se comunicavam, tosca e parcamente, dividos em alguns corpinhos de carne simiesca. Cientes estavam de que eram reais, mas não que eram Realidade, nem de que pudessem vir a ser, talvez, o próprio cérebro e cerne dela. Tal neurônios solitários que não tem ciência de seu próprio papel, aqueles bichinhos de rubro sangue não eram cônscios de serem os próprios neurônios da plenitude.

Já o mais triste de Realidade, certamente, não era seu bizarro e gigantesco corpo grotesco; nem era, também, a bizarra disparidade proporcional entre sua pequeníssima porção de massa cinzenta com a enormidade de tudo mais que havia ao redor.

O mais triste de Realidade era seu desespero. Enjoada de si, ela urrava aos céus por algo ou alguém além dela mesma. Como poderia definir a si, sem qualquer outro oposto ao qual comparar-se? Gritava, esperançosa, sequências de “Quem sou eu?” entrecortadas com “Há mais alguém aí?”, esperando que o seu contraste, o irreal que tanto buscava, enfim lhe respondesse. Realidade fantasiava com esse estranho oculto, com seu oposto amante que viria para completá-la. Era a essas fantasias de algo mais além de si que Realidade chamava de fé, e era nessa fé que se pautava todo o sentido que atribuía para si mesma.

Mas não havia nada, ninguém a responder; o irreal, por mais óbvio que pareça, simplesmente inexistia. Nenhum alguém para a Realidade que, resoluta, devia apenas se afogar na sua própria solidão, na sua singular, única, absoluta existência.

E no centro de seu minísculo cérebro, sinais elétricos de sinapses dispersas ainda se esforçavam, continuamente, irracionalmente, na busca por qualquer coisa mais, qualquer sentido, qualquer companhia.

Mas ninguém lhe respondia. Presa em si mesma, a Realidade estava eternamente sozinha.