Matar teus mitos é independência mental
Rodrigo Goldacker
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Alguns necessários adendos sobre terminologia, indicações de bibliografia e agradecimentos

Decidi fazer este pequeno apêndice principalmente para esclarecer alguns pontos sobre os termos que escolhi utilizar neste ensaio. É necessário lembrar que, já que minhas visões são diferentes daquelas comuns para a maioria dos discursos que tratam desse tema, algumas palavras apareceram aqui também com significados um pouco diferentes daqueles que normalmente recebem — e eu gostaria de explicar os casos mais destacados para tentar, na medida do possível (embora saiba que continuarei correndo este risco), impedir que descontextualizem algum trecho ou deturpem o sentido geral das coisas.

Primeiro, preciso dizer que quando falo aqui sobre “estadismo”, eu considero para além do diálogo, que já expliquei por quais razões considero imaturo, de direita e esquerda: acredito que ambas as vertentes são muito mais parecidas do que assumem e que são igualmente dependentes de estruturas estatais fortes, mesmo que em sentidos, aplicações e para fins distintos. A necessidade, normalmente entendida como mais conservadora, de um forte poder militar e uma política de segurança pública é, ainda, uma forma de estadismo essencial para que funcionem quase todas as propostas de capitalismo, até mesmo a maioria das ditas como neoliberais. Embora não se discuta muito o assunto, o capitalismo atualmente aplicado é dependente de estruturas estatais (estruturas, inclusive, que em boa parte ele mesmo criou por serem um bom negócio, como citei na parte 1, quando era necessário um proletário minimamente saudável e competente), essencialmente no direito, na política e na polícia, que protejam as posses. O que vejo existir aqui é um conflito entre dois tipos de capitalistas: os que atacam a necessidade de existirem múltiplos estados (globalistas) e os que defendem esta ideia (estadistas).

Ainda sobre capitalistas, o que assumo aqui como “capitalistas tardios” são, destacadamente, os burgueses do segundo setor. Entretanto, os banqueiros do terceiro setor contam também como capitalistas tardios, pois ainda dependem da posse de bens abstratos como o capital (e de discursos e de estados que a protejam), mesmo estando mais próximos da transição para o intangível do que os capitalistas do segundo setor. Muitas vezes existe um conflito interno entre estas duas classes de capitalistas, pois interessa ao terceiro setor a dissolução em algum nível de certos sistemas importantes ao segundo; mas ambos se unem ao observarem o crescente quarto setor globalista como uma ameaça comum (mais perigosa ao segundo setor do que ao terceiro, mas perigosa ao terceiro setor também, como a quebra da bolsa de 08 e a desvalorização das moedas demonstrou) aos seus interesses.

Outro termo que usei e que é especialmente vago e utilizado de muitas formas, algumas mais lúcidas e outras mais questionáveis (sendo base para muitos mitos, ideologias reacionárias e correntes conspiratórias, inclusive), é globalismo. Aqui, pretendo por globalista definir o funcionamento do quarto setor, que tenciona a dissolução das grandes narrativas do segundo e terceiro setor, a destruição das posses destas duas e o advento de um novo tipo de poder pautado em suas capacidades algorítmicas e em sua proposta de domínio da cultura (a estratégia de todos ou ninguém que citei). Qualquer definição além desta não me cabe, especialmente aquelas que utilizam o globalismo como justificativa para preconceito e ódio. Mesmo assim, é um fenômeno real e precisa ser discutido lucidamente para além das ideologias por ele afetadas (que sempre o demonstrarão da forma mais apocalíptica possível) ou por ele beneficiadas (que tentarão, na medida do possível, esconder sua existência). Acredito que o estudo sério e neutro sobre o que o globalismo efetivamente é seja uma das necessidades mais importantes de nossa época porque, quando não é feito (como acontece com os estudos sobre a crítica da dialética relativista), se abre espaço para que adversários ideólogos apontem os fatos a seu respeito e os utilizem na construção de seus próprios mitos. E isso é muito perigoso. Mas tive ainda o desejo nesta série de igualar o globalismo aos seus adversários: ele não é melhor nem pior do que eles, somente diferente. Exalta-lo como a solução última de todos os problemas, um anjo salvador que não merece ser questionado, é tão perigoso quanto demoniza-lo simplesmente.

Além disso, para os interessados em capitalismo tardio e entendimento da cultura do proletariado, o Shilton Roque indicou na primeira parte desta série a leitura dos estudos sobre o Estado de Poulantz e o texto O martelo da história, de Valério Vacary, que eu recomendo especialmente para entendimento da dinâmica entre capitais imateriais absurdos e a produção concreta e real. Para os interessados em mais sobre o entendimento da psicanálise que pautou muito principalmente desse último texto a respeito da necessidade de entender o mal e a inconsciência, não bloqueá-las, o Felipe Moreno indicou esse vídeo, muito bom, sobre o assunto. O canal inteiro parece ter conteúdo interessante pelos seis/sete vídeos que vi, então fica a recomendação dele também. Caso tope com novas referências interessantes (ou caso sugiram outras para mim) além daquelas que já citei nos textos em si, editarei novamente este apêndice.

Por fim, gostaria de agradecer aos meus amigos Victor Azenha, Daniel Sandeville, João Hidalgo, Bruno de Pauw, Alessandro Gromik e Igor Gonçalves por me aguentarem os aporrinhando com isso desde janeiro, por seus comentários, sugestões e conversas que muito contribuíram para a versão final deste texto, além de minha companheira Jaqueline Ecclissi por ter me suportado durante o meu intenso período de pesquisa.

E, mais uma vez, agradeço a você, por ter me confiado tanto de seu tempo lendo tudo isso. Por mais bobo que possa parecer, é sincero.

É isso, até a próxima!

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