Rodrigo Goldacker
Dec 18, 2017 · 4 min read

Aline, eu até cheguei a considerar a escrita de um texto como o seu, mas meu semestre (e meu ano) foram tão, mas tão pesados que o texto ia ser deprimido e longo demais e eu fiquei com pena dos meus leitores. Pouca gente ia aguentar ler esse desabafo. Então vou resumir aqui e compartilhar contigo um pouco do que eu passei.

Eu fui um péssimo aluno por toda minha vida. Durante o Fundamental e o Ensino Médio, muitos professores me desprezaram abertamente, projetando futuros sofridos e trágicos para mim. Não porque eu não fosse capaz ou inteligente, mas porque minha postura com a vida agredia seus egos mesmo. O conflito atingiu seu ápice em dois momentos: no primeiro quando eu, aos 15 anos, desisti de seguir o EM na escola de subúrbio em que estava e resolvi prestar um vestibulinho para refazer o médio do zero em um colégio técnico. E o segundo quando, após passar entre os vinte primeiros em uma lista de mais de oito mil nesse colégio técnico, eu decidi largar o Ensino Médio (por ter sido reprovado no final do segundo ano) aos dezessete anos, concluir o curso técnico em webdesign que fazia na mesma época e ir fazer um cursinho, para já me preparar para o vestibular e pegar meu diploma do Médio pelo ENEM.

Enquanto eu estava fazendo isso, todos me desmereceram. Muitos não sabiam que sequer era possível se formar daquele jeito. Eu segui meu caminho, entrei na faculdade como segundo colocado no meu curso. Muitos dos meus antigos colegas de classe (que faziam o terceiro EM enquanto eu fazia o cursinho), foram fazer cursinho enquanto eu já estava cursando o primeiro ano do Ensino Superior.

Meu sofrimento durante o Ensino Médio e Fundamental foi resultado de dois comportamentos meus: primeiro, meu hiperfoco nas minhas áreas de interesse (eu amava ler o que buscava de forma autodidata, as humanidades dos meus estudos em escrita, linguística, psicologia, história) enquanto não ousava desperdiçar meu tempo e esforço com o que não me interessava (biológicas e exatas no geral); e segundo, minha recusa a desperdiçar minha juventude: eu vivi, saí, pulei, bebi, sorri, dancei, gritei, amei, corri no parque, tropecei nas madrugadas e fiz tudo que quis fazer enquanto era jovem, bobo e cheio de energia. Nunca me arrependi de agir assim e me beneficiei extremamente por isso, embora muita gente tenha tentado me prejudicar por conta desta minha escolha.

Na faculdade, selecionei as matérias que me interessavam e, por elas, desenvolvi uma obsessão profunda, de passar dias e dias rendido a ler e pensar sobre. Para as que não me eram de interesse, entreguei o mínimo. Meu boletim é uma montanha russa entre o medíocre e o excepcional. Que bom! Melhor ser ótimo em algo e mais ou menos no resto do que medíocre em tudo. Além disso, pouco me importavam as notas, na verdade: eu tirei a nota mínima, quase raspando na reprovação, nas duas matérias mais importantes para mim, psicologia e redação. Psicologia porque não me dei bem com a professora, redação porque não entreguei alguns trabalhos. Mesmo assim, fiz minha monografia baseado em psicologia e hoje trabalho na área de redação.

Aliás, a monografia: acabei de terminar ela. Foi a primeira vez na minha vida que o ambiente acadêmico me exigiu algo, mas ao mesmo tempo me deu a liberdade de fazer o que queria fazer. Eu nunca me esforcei tanto quanto me esforcei com esse projeto. Ele carcomeu toda minha vida: prejudicou meus relacionamentos com família, amigos e namorada. Ele prejudicou minha performance no emprego. Ele prejudicou minha saúde mental. Eu dei meu sangue do início ao fim. Eu fiz três vezes mais do que aquilo que era esperado de mim. Eu perdi um dente por causa disso que tive que arrancar na mesma semana em que entreguei a versão final para a banca ler.

Eu tirei dez com louvor. E na história para conquistar esta nota, a academia e a vida estudantil como um todo pareceram mais obstáculos a enfrentar do que mentores que me auxiliaram. Eu chorei de alegria. Por ter feito o que amava, por ter sido reconhecido finalmente, por todo meu esforço. Pela primeira vez, o ambiente acadêmico me abraçou, pelo resultado dos meus esforços inclusive ao desobedecê-lo, depois deste mesmo ambiente ter muitas vezes cuspido na minha cara.

Valeu a pena?

Talvez. Porque, com sortes e barrancos, eu fazia o que amava. Mas foi difícil. Foi exaustivo. E agora eu vou precisar de algum tempo para descansar. No mais, vou seguir minha carreira acadêmica até onde der. Se algum dia for exigido de mim outra vez que atue com algo que não quero, terei problemas outra vez porque sigo me recusando a agir de acordo com os caprichos de professores e sistemas que não representam as minhas vontades e os meus planos de desenvolvimento intelectual. Se tudo der certo, pretendo ser um professor como os raros da minha vida até aqui que me inspiraram e valorizaram, melhor do que a grande maioria dos formadores de robôs e que me desmereceram por não ser, também, robotizado. Tenho até certa pena deles. E saio muito lúcido a respeito dos pontos positivos e negativos do sistema de ensino ao qual fui submetido no geral. No fim das contas, quando a faculdade acaba, não é a burocracia (que eu abomino), nem os prazos (que desprezo) que seguirão presos para sempre à sua alma: são seus aprendizados, sua vida, seus projetos, seus sonhos. É isso que interessa. Se a academia algum dia se tornar exclusivamente um ambiente de burocracia e prazos, será a hora de irmos procurar aprendizado, vida, projetos e sonhos em outros lugares.

Eu me abri aqui porque gostei muito do teu relato, no conteúdo verdadeiro e honesto e na sua ótima escrita, e concordo com ele todo, aliás. Te desejo toda sorte do mundo nos seus próximos semestres. Te parabenizo pelos seus esforços. E torço para que a academia seja mais para você do que sacrifício e que efetivamente traga teus sonhos para mais próximo de ti. O Itamarati é teu.

Abraço!

    Rodrigo Goldacker

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    Termos e silêncios alternados.