Asas Cinzas

Daqui.

Eu encontrei todos os diabos nas esquinas de cada uma das ruas sujas que percorri

e todos eles me olharam admirados por meu poder total de ignorá-los;
por culpa da escuridão do fundo mais profundo da sombra de minha alma,
cometeram seu maior erro e comigo se identificaram,
assim decidindo que me seguiriam,
esperançosos de que comigo alguma coisa aprenderiam;
mal sabiam que eu rumava ao abismo que cindia o mundo
e que me seguindo cairiam de volta ao maior breu do esquecimento
porque abaixo da túnica que trajava,
estavam as asas cinzas que só eu possuía
para voar ao zênite depois de explorar o breu,
mas todos eles, tão ingênuos, 
isso não levaram em conta.

Desconsideraram nossas diferenças e pularam atrás de mim,
confiantes de que qualquer solução que eu encontrasse para escapar de lá
poderiam depois copiar.

Segui por muito tempo
adentrando-me na escuridão,
aprendi muito também com os demônios,
foi juntos que descobrimos
tudo que as trevas podiam dar.

Chegamos no fundo, no total breu mergulhamos,
no mais desconfortável frio nos maculamos,
mas o vazio existencial assombrou demais aos pobres diabos,
que viram com tal frio a mentira sedutora que haviam comprado,
e então alguns deles congelaram no vácuo,
por quererem demais se profanar,
e seus corpos caíram, petrificados
inertes em horror, eternamente solitários lá jogados.

Outros, menos aterrorizados,
decidiram se mover, ignorando os abandonados,
por escapar dali obcecados,
e só eu que era frio, mas também cheio de calor,
só eu, que era sombra tanto quanto luz,
só eu, com asas não só brancas ou pretas,
só eu, com asas cinzas, impuras de iluminação,
podia subir voo e do horror gélido fugir.

Foi assim que, quando satisfeito com as lições dali,
soube que chegava meu tempo de explorar outro lugar,
despi e guardei minha túnica, meus braços abri
e resolvendo a situação com minha própria e única natureza, 
subi sozinho para os céus
deixando para trás todos os pobres diabos,
sozinhos, desconsolados,
para resolverem, 
diante de suas próprias impurezas
que outra solução que não asas cinzas
encontrariam para sair dali.

Já eu, de tão diversa natureza,
não fazia a menor ideia
(e nem mesmo me interessa)
se encontrariam alguma solução.

Fui daí de volta à terra,

Caminhando com tudo que aprendi no breu, chamei a atenção de todos os anjos perdidos no topo de seus arranha-céus

e todos eles me olharam admirados por ter voltado da escuridão,
ainda são, livre, vivo, sem estar corrompido;
por culpa de verem dentro de mim a luz imutável, expurgada, infindável,
cometeram seu maior erro e comigo se identificaram,
assim decidindo que me seguiriam,
esperançosos de que comigo alguma coisa aprenderiam;
mal sabiam que eu rumava ao topo que luzia o mundo
e que me seguindo subiriam de volta à maior luz do conhecimento,
porque abaixo da túnica que trajava,
estavam as asas cinzas que só eu possuía
para descer de volta ao breu depois de explorar o zênite,
mas todos eles, tão ingênuos,
isso não levaram em conta.

Desconsideraram nossas diferenças e subiram atrás de mim,
confiantes de que qualquer solução que eu encontrasse para escapar de lá
poderiam depois copiar.

Segui por muito tempo
subindo e subindo na imensidão,
aprendi muito também com os anjos,
foi juntos que descobrimos
tudo que as luzes podiam dar.

Chegamos no ápice, na luz nos banhamos,
no confortável calor nos purificamos,
mas a luz solar encantou demais aos anjos perdidos,
que viram no fogo seu verdadeiro abrigo,
e então alguns deles se jogaram contra as chamas da estrela,
por quererem demais se purificar,
e queimaram seus corpos, sem deixar rastro
além das cinzas que vagaram pelo espaço.

Outros, menos enfeitiçados,
ficaram lá parados, só olhando admirados,
de saírem dali incapacitados,
e só eu, que tinha ido ao breu,
só eu, que era sombra tanto quanto luz,
só eu, com asas não só brancas ou pretas,
só eu, com asas cinzas, impuras de escuridão,
podia baixar voo e do encanto solar fugir;

Foi assim que, quando satisfeito com as lições dali,
soube que chegava meu tempo de explorar outro lugar,
baixei voo, fechando meus braços
e resolvendo a situação com minha própria e única natureza, 
desci sozinho para a terra
deixando para trás todos os anjos perdidos,
sozinhos, maravilhados,
para resolverem, 
diante de suas próprias purezas
que outra solução que não asas cinzas
encontrariam para sair dali;

Já eu, de tão diversa natureza,
não fazia a menor ideia
(e nem mesmo me interessa)
se encontrariam alguma solução.

De volta à terra, tinha dois olhos agora, um feito de breu, outro feito de luz,

e arrancando minhas asas cinzas das costas,
rendido ao meu próprio jeito,
pude viver feliz, não no alto ou no baixo,
mas no meu meio,
buscando a solução do meu próprio lugar,
meu chão.

E alguns dos anjos, alguns dos demônios, exploraram suas próprias maneiras

sobreviveram, experimentaram, descobriram,
escaparam de baixo ou de cima
e daí vieram ter comigo, outra vez,
agradecendo
por ensiná-los, sem querer, 
a solucionarem seus caminhos,
por si mesmos, sozinhos,
e com suas próprias naturezas,
me deixando agora sem ter a menor ideia
(se me interessar, por minha própria natureza de questionar, terei eu mesmo, solitário, que tal problema solucionar)
de como, sem asas cinzas,
encontraram alguma solução.