Criatura Criadora

Fui fascinado toda a vida por narrativas.

Sempre fui delas um fanático obcecado, adorador leal e produtivo servo; amante, narrativas busco e vejo em tudo, sempre. E escravo, as escrevo.

Minha vida foi repleta porque elas existem; fossem das minhas próprias, que vivi, das alheias, que consumi , e, finalmente, daquelas que criei.

As histórias alheias, os livros, os quadrinhos, os filmes e seriados, as músicas, se enveredaram, invadiram e misturaram para fazerem parte também de minha própria história; são peças e partes da minha narrativa, conselheiras, motivadoras e ajudantes, combustíveis que me levaram para frente.

As que criei são minha vida da mesma forma. Em códigos ficcionais, em ilusões e metáforas, eu sempre usei delas para discorrer sobre minha própria existência, meus próprios assuntos, desejos e fascínios, belezas e feiuras, medos e coragens, certezas e incertezas, conflitos e resoluções. Até minha mais absurda ficção é de certa forma autobiográfica; até minha mais mentirosa narrativa tem suas próprias verdades.

Mas, finalmente, percebo a mais importante narrativa que consumo e crio: Minha vida.

E afinal ela é história tal o resto. A percepção de narrativa, a verbalização, a própria escrita dessas palavras, são todas pequenas partes de meu mais ambicioso projeto narrativo, minha própria e pessoal existência, tão cheia de suas oscilações e mistérios, com seus capítulos repletos de introduções curiosas, desenvolvimentos peculiares e pouco críveis desfechos maravilhosos. Afinal, sou meu mais desenvolvido, complexo, repleto e contraditório, interessante personagem; sou o meu melhor experimento de história, tomado dos mais legítimos conflitos e dos mais autênticos esforços. Sou a minha melhor ficção.

Sou escravo de mim, de minha identidade, de minha necessidade de compartilhar e verbalizar. Poderia jamais escrever ou registrar tudo isso, jamais ter posto sequer uma palavra para fora, mas eu simplesmente preciso, é necessidade minha para ser capaz de viver e me ajuda de infinitas maneiras. A arte, a expressão, compartilhar minha existência, talvez seja meu maior amor, minha melhor forma de entender, de honrar e homenagear a realidade, ao tentar compreendê-la, representá-la, seja com linhas e cores de um desenho ou, aqui, com parágrafos e frases.

Todo o detalhe e capítulo foi necessário, cada personagem e passagem, cada arte, entretenimento e conteúdo alheio que consumi, para que pudesse criar minha própria existência. Cada página alheia que li foi combustível para encher as minhas próprias páginas. Cada palavra alheia que ouvi foi motivadora para que soltasse minhas próprias palavras. Cada humano alheio que viveu foi razão para que eu me percebesse humano e também vivesse. Cada dia, cada hora, cada minuto, me jogam para frente. Cada sílaba, cada palavra, cada sentença e frase, cada parágrafo, cada página, cada capítulo, cada texto, cada livro, me jogam para frente.

Sou realidade criadora de realidade.

Sou ficção aficionada por ficções.

Sou humano fascinado por humanos.

Sou ilusão iludida por ilusões.

Sou história escritora de histórias,

Sou criador criatura de minhas criações.