Rodrigo Goldacker
Jul 6 · 2 min read

Existe um duplo jogo aí: por um lado, há um pânico no entender do incontrolável, da impossibilidade do humano verdadeiramente orquestrar os destinos. Então é mais simples fingimos que não é uma questão de descontrole, mas de impossibilidade: se não existe a possibilidade de felicidade, não existe a ansiedade diante do futuro (que pode ou não contê-la).
Além disso, sim, existe um segundo aspecto, além do confrontamento com a incerteza, no que diz respeito ao confrontamento com a responsabilidade: se só há o trágico, não é necessário se mexer de qualquer forma para tentar construir qualquer coisa (e aqui também, diante do esforço, de lidar com os riscos e incertezas daquilo que se tenta construir).

Eu acredito que este absolutismo do pessimista, muitas vezes, é sim um caminho mais cômodo. Mas acredito ainda que ele carrega um desespero muito profundo, com o qual tenho uma empatia grande. Sinto pela precariedade daqueles que, por falta de recursos (intelectuais, materiais, emocionais), simplesmente se rendem a essa osmose da tragédia, inertes, tentando encontrar controle e conforto na promessa do apocalipse declarado.

Parece, para mim, uma maneira amarguíssima de se viver e tenho certeza que ninguém capaz de conceber outra possibilidade para si decidiria por se enfiar nesse local. Se tantos o fazem, é pela maldição de nosso tempo no que diz respeito à possibilidade de conceber propósitos e de, numa época de tantos números sólidos e convicções, se confrontar com o incerto a partir de uma arma poderosíssima, mas que nosso cinismo moderno despreza, e que considero fundamental: a esperança. A esperança madura (distante de sua variação cega dos memes de avó) carrega em si tanto uma compreensão profunda do descontrole e do incerto quanto uma escolha de, ainda assim, aceitar que talvez o melhor aconteça. É ela que permite que se enfrente a incerteza com mais carinho e doçura, ciente de que, se o próximo momento é incontrolável, é possível que ele seja também belo, não só horrível. E, com esta ciência, faz mais sentido agir, ao menos para tentar aproximar mais as alegrias de nós.

Como sempre, grato por ter você aqui. Que sigamos.

    Rodrigo Goldacker

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    Termos e silêncios alternados.