Hybris

Retirado do Pinterest, aqui.

Daqui de cima,
Olhamos para
Vocês todos,
Pobres mortais,
Meros iguais,
Idênticos rebentos,
Espelhos refletindo
Toda esta nossa
Mediocridade,
Gado símio,
Amedrontado,
Em manada,
Não perdem fôlego,
Dando passo
Trôpego
Atrás de passo
Sôfrego;

Daqui de cima,
Orquestramos
Seus atos tolos,
Ignóbeis, bobos,
Ingênuos garotos,
Daqui vemos
Seus marcados caminhos,
Seus olhinhos famintos
Pela segurança
De um mitológico
Bom Pai
Que mentimos ser
Dando migalhas
De apelo
Enquanto
Desesperados
Tacam-nos ouro…

“Cuida-nos, cria-nos!
Retire-nos nossa 
Responsabilidade por nós,
Mata nossos atos com destino,
Um plano mestre,
Um domínio,
Um Deus, um Estado,
Um êxtase, um martírio
Puna nossos erros,
Recompense nossos méritos,
Mas nunca vice-versa,
Por favor,
Afasta de nós esse caos,
Convença-nos de
Sentido, verdade,
De alguma objetiva
E ordenada realidade!”

Tanto poder,
Delegado,
Tanto medo,
Concentrado,
Nesta marcha
Das crianças
Órfãs
Na linha de frente postas
Por padrastos 
Manipuladores
Falsos anjos protetores
Ricos esbanjadores,
Sábios enganadores,
Que vendem venenos
Em potes plásticos
Com rótulos belos
De eterna infância;

O paraíso é de última geração
Sandbox, full HD,
Sem quedas de framerate,
Exposto nos capacetes
De realidade aumentada
Presos às cegas cabeças
Que babam alienadas,
No fundo do inferno sentadas,
De maliciosas, dissimuladas,
Mentirosas mãos ensanguentadas
Recebendo nas bochechas
Dengosas carícias
Que quando renderizadas
Através dos mágicos
Filtros do silício,
Aparentam ser
Carinhos de anjos…

Daqui de cima,
Olhamos seus vícios
Em todos os lixos
Que te demos para comer,
Pobres filhos
Desnutridos de espírito,
Pobres adultos,
Míopes de livre arbítrio,
Que porque querem não querer
Correm presos
Nos corredores estreitos
Dos pequenos labirintos
Que só construímos
Para atender
À demanda
Por escape
Do infinito.

Quando cessar o apelo 
De com cabos de rede se enforcar
Quando este fetiche por limite entediar
Quando a infância adulta desinteressar,
Só assim, só então,
Cairemos daqui de cima
E os filhos, enfim amadurecidos,
Iguais aos malditos pais,
Das próprias vidas tomarão as rédeas
E resolverão toda a tragédia
Que aos vilões até então
Por preguiça e medo
Resolveram delegar;
Quando quiserem viver, viverão,
Quando quiserem vencer, vencerão,
E quando quiserem se libertar, 
Libertar-se-ão;