Pombas Gordas

Pombas molhadas de garoa eram alimentadas.

De terno listrado na tarde de domingo, sentado no banco da vazia praça, o sozinho e idoso senhor olhava as nuvens cinzentas ao seu topo, sentia as gotas pularem contra sua calva e manchada cabeça branca e escutava as aves pisando em poças enquanto lutavam por suas generosas migalhas.

Um rapaz feio passou, com guarda-chuva em mãos e fones nos ouvidos. Era tão sozinho quanto o idoso, mas também mais ranzinza e apressado. Não fosse sua atenção ser tomada pela triste figura sentada sozinha, seguiria em quase corrida por sua vida tão nublada.

– O que faz aí, velho? – o jovem perguntou, retirando um só fone para escutar uma só resposta.

O velho abaixou os olhos vesgos do céu, encarando o outro em sorriso frágil, esperançoso e agradecido. Deu um pigarro, tossiu um pouco. Respondeu lento e formal, tentando esconder sua alegria:

– Apenas alimento pombos. Gostaria de me fazer companhia, moleque? O guarda-chuva vai bem, parece que o tempo está piorando.

O jovem sorriu sarcástico, debochando ao absurdo. Analisou o vento forte e a escuridão quase noturna daquele início de tarde. Colocou seu fone de volta e com negativas da cabeça fechada deu dois passos indo embora, mas escorregou em uma poça e caiu. Contra o cimento, ralou os joelhos e cotovelos.

O velho homem apontou-lhe um dedo e fez graça, rindo aos tossidos da queda, mas levantou-se e foi acudi-lo. Estendeu-lhe a mão, ajudou-o a pôr-se em pé e voltou para seu banco de madeira. Pela culpa ou pela pena, teimoso e irritado, o rapaz sentou-se também, protegendo ambos das gotas que desciam pouco a pouco mais pesadas.

Por alguns minutos mantiveram-se quietos. As luzes de alguns relâmpagos já povoavam o céu enquanto a praça seguia vazia exceto pelos dois e seus pombos gordos. Da garoa nasceu uma chuva que, com o vento, ameaçava tomar de ambos o guarda-chuva. O velho jogava migalhas de seu pão. O jovem escutava música de seu fone.

– Uma boa tarde para conversar, não? – quebraram o momento as palavras ridículas do velho. O jovem apenas riu e deu de ombros. Suspirou fundo, virou os olhos, desligou a música.

Começaram assim o seu diálogo.