Que palavra você é?

Retirado do Pinterest, disponível aqui.

Sou obcecado por palavras porque elas, normalmente, facilitam minha vida. Palavras são mais fáceis de soltar do que atos, mais baratas também. Palavras libertam, quando se quer que assim façam, palavras escravizam, se assim permitirmos. Palavras criam e destroem. Palavras mentem e palavras revelam.

Mas a mais dura verdade que fui obrigado a aceitar é que palavras vivem, mas também morrem. Muitos anos atrás, quando eu comecei a mergulhar dentro de mim, o que eu buscava era encontrar uma palavra. Algum sentido, um nome de lei, que me definisse plenamente, que desse uma convicção certa sobre minha essência e existência, que solidificasse alguma característica no fundo da minha alma que eu pudesse usar de pedra de base para fundar a construção da minha identidade. Eu queria saber se, no fundinho, eu sou “bom” ou se sou “mau”, mesmo que sob meus próprios parâmetros de referência, se sou feliz ou se sou triste, se sou assim ou assado. Queria uma palavra do que sou que fosse eterna: algum termo que definisse aquilo que tem em comum a pessoa que fui com cinco anos com a pessoa que fui com dezenove, com a que sou com vinte e dois e com a que serei se chegar aos trinta e cinco, aos cinquenta e três, aos noventa e nove.

Foi uma busca incessante. Toda vez que me identificava excessivamente com algum termo que encontrava e que julgava que este, agora sim, me definia plenamente, pouco depois a palavra se desfalecia nas minhas mãos como poeira: quando achei que era solitário, pisquei o olho e estava rodeado de gente. E o vice-versa aconteceu quando tentei me assumir sociável e, logo na sequência, acabei isolado e mergulhando em solidão outra vez. Inteligência, estupidez, bondade e maldade, timidez e extroversão, beleza e feiura, convicção e incerteza: toda vez que quis dizer que era uma dessas coisas, acabei tendo que admitir, muitas vezes a duras penas, que era a outra também.

Quando penso nesses anos de minha jornada em busca de um “Santo Graal” verbal, uma bússola conceitual que desse norte para minha vida, a primeira imagem que vem para o que eu fui é a de um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Não digo que foi um caminho inútil, longe disso, foi extremamente rico em desenvolvimento e aprendizado.

Mas foi um caminho frustrante.

A verdade muito dura que encontrei e rejeitei por muito tempo é que eu não “sou” nada. Não existe uma base eterna que constitua minha alma e que me prive do peso da liberdade que responsabiliza meu ato de escolher, todo santo dia, o que é que eu vou ser. Eu não sou nada, nunca, porque eu só estou tudo, sempre. Quem decide se vou ser chamado de cuzão ou de legal não é um característica eterna e invariável que não me diga respeito mudar (como seria fácil se fosse! como essas palavras-mapas que não mudam eram tentadoras com suas promessas de me libertar dos questionamentos e dos esforços por mudar….) porque sou eu, e somente eu, que defino ou deixo de definir essas coisas, de acordo com a maneira pela qual decido ser e me comportar. Seria fácil me acostumar com uma estagnação ilusória das definições e dizer que ela não é culpa minha, mas ela é, sempre é, e pode ser mudada a qualquer hora se assim eu decidir fazer.

É curioso pensar que só quando consegui lidar com isso, aceitando que não existe uma palavra única que me diga respeito, que pude enfim fincar termos que, de fato, eu sou o tempo todo: criador de mim, não descobridor de mim; livre para estar, fazer e ser o que bem quiser; e mutável, para trocar de ideia a qualquer momento, assumir meus erros ou desagrados e mudar de direção.

Parecem, as três, boas palavras para se ser.