Três Garotas 07

Capítulo 07

“photo of three women lifting there hands \” by Simon Maage on Unsplash
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P-07.

Eram três e cinquenta da manhã e tudo aparentava estar bem tranquilo, embora não existisse paz de verdade ali.

Mortificado pelos acontecimentos recentes, ele sentia a própria mente gritar em mil formas diferentes de preocupação. Pam estava deitada em sua cama e dormindo calmamente, sem ter qualquer noção de todo o caos que ela mesma tinha gerado. Daquele momento em diante os eventos precisavam se acalmar de alguma forma, já que era quase impossível que se tornassem ainda piores.

Aquela noite tinha ido muito além do que devia ter sido. Ele ainda não fora capaz de entender completamente a sequencia de eventos e não tinha absoluta certeza se realmente queria tentar entender. Era demais para assimilar. Demais para seu jeito medroso e para sua vida até então tão tranquila.

Ele recapitulava os eventos na sua cabeça. Como tudo parecia ter acontecido tão rápido! E, paradoxalmente, surpreendia-o também como, durante tudo aquilo, sentira-se quase como desconectado do próprio passar do tempo. Lembrava-se do momento em que, engolindo em seco, ele se apresentara para ajudar Pamela. Recordou dos olhares julgadores, das pessoas se afastando, da mulher ao lado de Pam pedindo que carregasse sua “amiga” para fora da festa. Lembrou-se de pegar Pam e, vacilante, levá-la para fora em passos lentos e com uma expressão fechada, tentando ignorar todos ao seu redor. E se lembrou de esperar apoiado no muro enquanto a ambulância não chegava. Nenhuma “amiga” de Pamela apareceu. Buscando no histórico de ligações recentes, ele tentou telefonar para o número que ela chamara no ônibus, mas não foi atendido. Ninguém mais parecia se importar.

Certos detalhes pareciam ser maldosos demais para serem reais. Ele se irritava ao lembrar de como a música voltou a tocar no mesmo volume apenas um instante depois deles terem abandonado o prédio. Irritava-se ao lembrar da expressão fechada e presunçosa dos homens na ambulância, da mesma expressão de desprezo no rosto do médico que os atendeu. De como, ao liberarem Pamela para ir para casa, os médicos a abandonaram aos cuidados dele, como se fosse uma responsabilidade, quase uma dor de cabeça, que ele não devesse ter tomado. Parecia que ajudá-la era visto como um grande e óbvio erro para todos, menos para ele. Como se trazer o “problema” até ali fosse algo que incomodava as pessoas e como se, agora, fosse obrigado a levar consigo o “problema” embora também, parando de causar incômodos à terceiros.

Ele se lembrava de como o próprio taxista os encarava com um olhar repreensivo. Como sua própria vizinha o julgara quando ele entrou em seu apartamento com Pamela ainda sonolenta e vacilante apoiada em seu ombro.

Ele a deitou em sua cama e sentou-se numa cadeira próxima. Passaram-se horas com ele apenas observando-a dormir e pensando na situação. Horas com ele apenas repensando e recapitulando tudo, procurando algum sentido naquilo por entrelinhas que tivesse perdido. O que ele deveria fazer quando ela acordasse? O que ela teria para falar? Até agora não tinham discutido de fato o que acontecera. Não tiveram nem mesmo uma chance de tentar fazê-lo.

Foi com ironia amarga que percebeu que não teria muito tempo para refletir e remoer suas ansiedades: Pam finalmente estava acordando. Ela bocejou por alguns segundos, passou as mãos no rosto e, com os olhos ainda semicerrados, analisou o lugar onde estava. Demorou em encontrá-lo, imóvel e escondido num canto, sentado e ainda a observando. Sorriu ligeiramente e disse, com a voz ainda rouca e quebradiça:

— Eu não me lembro de nada direito, só de algumas coisas… O que aconteceu?

Ele permaneceu em silêncio, sem qualquer vontade de explicar qualquer coisa. O silêncio da madrugada pareceu tomar conta do quarto enquanto ela, agora sentada na cama e o encarando inquisitiva, esperava uma resposta que nunca veio.

— Você sumiu lá na festa… — Pam disse, quebrando o silêncio com uma voz distante de quem parecia ter dificuldade em se lembrar das coisas. Ele não sabia se de fato acreditava nessa “amnésia” ou não. Tinha grandes suspeitas de que Pam fazia aquilo apenas para tentar fugir da situação desconfortável.

— Não, quem sumiu foi você — ele respondeu, o tom nervoso. Levantou-se da cadeira e criticou Pamela com um olhar. Completou a frase subindo o tom de voz: — E também sou eu que quero perguntar, o que aconteceu?

Aparentando culpa, ela abaixou a cabeça e passou a olhar o chão. Não respondeu de qualquer forma e se manteve cabisbaixa. Parecia esperar que ele continuasse o discurso de represália, mas ele não sabia se era isso que queria fazer.

Mas o que devia fazer então? Apenas desculpá-la e fingir que nada acontecera? Parecia tão absurdo quanto, ainda mais levando em conta tudo que ele tinha passado. Ela começara a noite prometendo “diversão” para ele, mas até então só trouxera problemas e transtornos. O que poderia sair dali além de mais complicações? Certamente não a mandaria embora durante a madrugada, mas poderia fazê-lo de manhã. Talvez até lá fizesse melhor em ficar longe dela, talvez caminhar na madrugada para não ser obrigado a passar mais tempo ali. Se Pamela era um problema de fato, talvez ele pudesse fugir dela de algum jeito.

Perdoá-la, continuar discutindo ou deixá-la sozinha até de manhã, quando finalmente poderá mandá-la embora?

D-07.

Ele não podia confiar naquela história absurda.

Ela escondera o pai debaixo da cama, a mesma cama onde haviam feito sexo? A explicação dela não era boa o suficiente. Ela mentira, usara-o e aparentava ser bem mais estranha e problemática do que queria aparentar ser. Ele apenas não era capaz de seguir com aquilo daquela forma. Todo aquele absurdo beirava o ridículo.

Ele se levantou e apoiou a mão na mesa com um olhar severo no rosto. Ela ainda o encarava, quase que em um olhar pedinte de aceitação. Com um suspiro decepcionado, ele a negou:

— Sinto muito, mas eu não consigo lidar com isso. Espero que você consiga resolver a sua vida, mas eu não quero te ver novamente. Vou embora. Desculpa. A gente não devia nem ter marcado esse encontro.

A expressão dela travou em uma seriedade controlada e seus olhos lacrimejaram por um instante. Ele não sabia dizer se ela estava interpretando. Virou-se em direção da saída e não olhou mais para trás. Seus passos iam lentos e decididos, arrastando consigo as folhas secas no chão. Ele tinha a certeza de que tinha feito a escolha mais segura. Diana era misteriosa demais para ele.

Cinco meses se passaram sem que qualquer notícia sobre o assunto ou sobre Diana aparecesse. Ele seguiu sua vida sem maiores eventos. A rotina morbidamente comum de antes de encontrá-la tinha sido reposta. Não se envolveu com qualquer outra mulher no tempo que passara e praticamente nada em sua vida seria capaz de dar uma dica dos bizarros eventos que vivera com aquela garota, exceto que, desde aquele dia em que a negara, ele passara a frequentar o parque onde haviam conversado pela última vez.

O ambiente lhe dava certa sensação de poder e segurança. Recordar-se do que tinha feito ali sempre o fazia passar horas sentado na mesma mesa de pedra, refletindo sobre os caminhos que a vida lhe trouxera. O que aconteceria se ele nunca tivesse falado com ela? O que aconteceria se ele tivesse questionado os eventos misteriosos no casarão? O que aconteceria se ele não tivesse rejeitado Diana? Eram questões sem resposta.

E aquele era só outro dia comum. Lá estava ele sentado, olhando as copas das árvores e ouvindo música em seus fones de ouvido. Como qualquer outra tarde morosa de sua vida desinteressante, pouco poderia ser relatado daquela data específica, não fosse a figura de Diana ter aparecido, ligeiramente insegura e desconcertada, vinda da entrada do parque.

Ela sentou em frente dele, com um sorriso ligeiro e frágil no rosto. Esperou enquanto ele tirava os fones de ouvido e manteve-se em silêncio o encarando por alguns instantes mais.

— Já tinha te visto andando por aqui algumas vezes antes. Eu tinha me controlado em todas as outras, mas hoje tive que falar com você.

Parecia que ela decidira persegui-lo. Ele engoliu seco, insatisfeito por alguns momentos ao notar que seria difícil apenas fugir de seu passado. Depois soltou uma risada sarcástica, lembrando que tinha grande parcela de culpa por aquele encontro desconfortável já que frequentava assiduamente o parque que ela apresentara.

Diana não mudara muito. Seus cabelos agora estavam na altura dos ombros. Usava um casaco felpudo e calças jeans acinzentadas. Não parecia ter se arrumado para ir até ali.

Pressioná-la, perguntando se o tempo trouxera algo novo para ser dito? Ou então ser rude e ir embora novamente? Ou apenas manter-se em silêncio e esperando?

M-07.

O apartamento dela parecia ser agradável e ele gostaria de perguntar mais sobre o livro.

Mas, antes de tudo, tinha certa teimosia a respeito do encontro em que ela faltara. Questionou, com um tom irônico na voz:

— A gente pode sair para dar uma volta, talvez passar em algum lugar… Ao menos para compensar o encontro em que você me deixou esperando sozinho.

Ela riu ligeiramente da proposta e da indireta, mas concordou. Pediu para que ele aguardasse um pouco enquanto se trocava e o deixou sozinho na sala. Finalmente ele parava para prestar atenção no apartamento: era ligeiramente pequeno, tinha apenas uma sala e um quarto. A cozinha era acoplada em um pequeno canto da sala, com um balcão separando-a do resto. Uma grande sacada dava vista para a rua lá embaixo. Apesar de pequeno parecia ser um lugar bastante arrumado. Uma grande estante repleta de livros tomava uma parede inteira e uma pequena mesa que ficava ao seu lado estava cheia de papéis, mas, tirando isso, nada podia deixar claro quem exatamente morava ali.

Ela voltou depois de cinco minutos vestindo jeans, uma camiseta vermelha e sapatos rasteiros. Saíram do apartamento e desceram os três lances de escada. Quando chegaram à porta, ela questionou com um sorriso:

— Então… Pra onde vamos?

Ele realmente não sabia ao certo. Só queria poder passar mais algum tempo com ela. Tentando dar-lhe voz, perguntou a Megan se ela tinha alguma ideia.

— Podemos ir almoçar, se você quiser. Conheço um lugar aqui perto.

Ele acenou que sim com a cabeça, feliz pela ideia dela. Saíram andando pela calçada e conversando sobre banalidades. Ela perguntou em dado momento o que ele tinha achado do livro e ele respondeu que gostara, apesar de não entendê-lo muito bem. Ela achou grande graça no fato de ele tentar “desvendar” a história e ele admitiu que tentara pesquisar mais a respeito, mas que não encontrara nada em lugar nenhum.

— Mas é claro que você não encontraria — ela debochou, com um sorriso aberto — Esse livro nunca foi publicado, essa é a única cópia.

A resposta o deixou ainda mais nervoso e curioso a respeito de como o material chegara até Megan, mas ele não transpareceu nada. Chegaram ao restaurante que ela escolheu, um pequeno lugar com pouco movimento em uma esquina da avenida. Demoraram-se ali conversando e rindo, ela pela primeira vez se deixando contar algo por vontade própria e não apenas quando questionada. Diferentemente do dia em que se conheceram, desta vez a atenção de Megan também parecia voltada unicamente para ele.

Eram duas e dez da tarde quando eles decidiram voltar ao apartamento. Levantaram-se da mesa em que estavam e fizeram o caminho de volta juntos. Ele ficava em silêncio, escutando Megan falar sobre pequenas coisas de sua semana: ela contou sobre os probleminhas da faculdade que cursava, onde se formaria em breve.

Chegaram ao apartamento e ela indicou-lhe novamente o sofá. Obediente, ele sentou e esperou. Ela presenteou-lhe com um beijo ligeiro e tímido nos lábios antes de virar-se apressada para voltar ao quarto e pegar o livro misterioso. Ele teve uma grande sensação de que aquele beijo rápido era algum tipo de agradecimento por terem saído juntos.

— Então… O que você quer saber? — Megan perguntou ao voltar. Sentou-se ao seu lado com o livro aberto no colo, encarando-o curiosa.

Ele riu por um momento. O que gostaria de saber? Não era uma coisa só que despertava sua curiosidade, suas dúvidas eram várias.

Podia perguntar sobre a história do livro e seu significado. Ver a interpretação dela sobre a história talvez fosse ser algo interessante e esclarecedor, não apenas por saber sobre a história em si, mas para descobrir mais sobre a própria Megan. Também podia perguntar mais sobre a origem daquele livro, sobre o autor e como aquilo chegara até ela. Fazer isso seria pressioná-la? Ainda podia questioná-la sobre o beijo, desvirtuando o assunto por mais alguns instantes. Talvez aquele beijo fosse justamente uma tentativa de mudar os rumos da conversa. Ela encarava-o ligeiramente corada, mas com uma animação contida aparente.

Perguntar sobre a história, sobre o autor e a origem do livro ou sobre o beijo que ela parecia ignorar que acontecera?

Continua…