Três Garotas 08

Capítulo 08

Rodrigo Goldacker
Jun 6 · 8 min read
“woman facing high-rise buildings under the cloudy sky” by Swaraj Tiwari on Unsplash

Capítulo anterior aqui.


P-08.

Ele não poderia suportar aquele comportamento.

Pam parecia sempre tão evasiva e mesmo agora tentava encobrir tudo que acontecera de forma boba. Ela ainda encarava o chão quando ele começou a falar, num tom que deixava bem clara a sua confusão e nervosismo.

— Eu quero saber o que aconteceu hoje, Pam. Você não vai conseguir escapar de me contar.

Ela levantou a cabeça e olhou para ele com certa raiva também. Levantou-se da cama e se aproximou lentamente, com os olhos mirando os dele de forma bastante hostil. Pam se postou em frente dele e garantiu, com a voz séria e em tom baixo, como se desafiando qualquer um a contrariá-la:

— Eu não quero falar sobre isso. — A imposição parecia imatura em muitas formas. Ela permaneceu na sua frente, olhando-o profundamente. Ele, por sua vez, não estava disposto a participar daquele tipo de jogo. Tentou mais uma vez, agora apelando para algo menos agressivo:

— Você tinha prometido que a gente ia se divertir, mas olha o que aconteceu de verdade. Pam, você desmaiou no meio da festa! O que você estava fazendo lá? O que você usou? Ninguém mais apareceu pra te ajudar! Onde suas amigas estavam?

Pamela engoliu em seco e virou o rosto, como se ao desviar o olhar desviasse também de todas as perguntas. Ela suspirou fundo, sentou-se na cama novamente e, mais uma vez encarando o chão, respondeu:

— Desculpa se fui um incômodo… E obrigada pela ajuda. Mas não vou falar de nada mais além disso. Pronto! Acho que já posso ir embora agora, estou melhor.

Suas ações não combinavam com suas palavras. Ela permanecia sentada, olhando para o chão, mesmo quando falava sobre ir embora. Ele não conseguiu deixar de esboçar um sorriso perante aquilo e se sentou ao lado dela na cama, ainda sério. Encarou Pam e esperou que ela fizesse algo.

Alguns minutos se passaram. Ela levantou o rosto e olhou para ele mais uma vez, aparentemente perdida no que fazer em seguida. Ele se manteve impassível, com o rosto sério. Se ela quisesse ir embora, que fosse. Se decidisse por ficar, mesmo que só conversassem mais tarde, ele não deixaria o assunto morrer sem resposta.

— Por que você me ajudou? — Ela perguntou finalmente. A pergunta tomou certos ares de ingratidão para ele e resolveu responder de forma similar.

— Não sei. Não devia ter ajudado?

Ela deixou escapar um pequeno sorriso amargo. Ajeitou-se na cama, ficando frente a frente com ele. Suspirou mais uma vez, piscou e começou a falar, sem nenhuma outra razão aparente.

— Eu desmaiei porque bebi demais, oras. Por que mais desmaiaria? Não é como se fosse a primeira vez que eu vou lá, já tinha passado mal antes, mas… É, nunca tinha desmaiado assim. Foi tudo muito estranho. De qualquer jeito, obrigada mesmo assim por me ajudar, sério. Minhas amigas, elas…

A voz dela morreu por um instante, parecendo refletir sobre o que diria. Ele permaneceu em silêncio, não querendo interromper.

— Acho que elas não são realmente tão minhas amigas assim — Pamela completou, parecendo abalada pela própria constatação. — É isso, acho. Satisfeito?

A voz dela passava certa raiva por ter sido pressionada ao ponto de dizer aquilo. Ele de fato não tinha achado a explicação satisfatória o suficiente, mas parecia estranho pensar em contrariá-la de novo. Duvidava muito que Pam fosse ser mais amigável caso insistisse no assunto. Mas o que responder então? Ele não sabia o que fazer dali em diante. Um clima estranho e pesado parecia preencher o quarto e qualquer ideia do que falar parecia vazia e estúpida.

Insistir no mesmo tema, tentar mudar de assunto e perdoá-la ou permanecer em silêncio e ver se Pamela decide dizer algo mais?


D-08.

Ele estava impaciente e não muito feliz por encontrá-la novamente.

Diana abriu a boca para falar algo mais, mas ele a cortou com um comentário ríspido.

— E por que tinha que falar comigo? Não acho que a gente tenha nada novo para conversar. Algo novo para me contar que escondeu quando conversamos da última vez? Algo resolvido na sua vida?

Ela pareceu se sentir agredida pela pressão e tentou tecer um novo comentário, mas ele cortou suas palavras novamente.

— Por que você continua voltando? O que você quer de mim? Pretende me usar novamente como segurança quando for visitar de novo seu “pai” violento?

A atitude de Diana mudara. Sua passividade culpada fora substituída por uma aparência nervosa e indignada graças à reação nervosa dele. Desta vez, ela finalmente conseguiu falar.

— Não falo com meu pai há mais de três meses e nem quero voltar a falar. Não preciso te usar de forma nenhuma, seu idiota! Vim falar com você só pra me desculpar…

Ela foi cortada novamente. Ele não estava em seu melhor humor. Sua paciência com Diana esgotara-se.

— Você já pediu desculpas da outra vez. Quer meus pêsames por seus problemas com seu pai? Pois bem, meus pêsames. Ainda tem mais algo para me falar?

— Eu sinto muito se eu não pude te tratar melhor, mas eu realmente gostei de você. Acho que a gente podia tentar esquecer tudo e sair como amigos… — Diana falava apressada, tentando sobrepor a voz dele.

Ele se levantou e soltou uma gargalhada seca. Ela estava em um misto de tristeza e raiva. Seus olhos negros estavam úmidos e sua face normalmente pálida estava ligeiramente corada. O volume da conversa já ia mais alto do que o habitual.

— A gente não pode ser amigo. Não pode ser nada, na verdade. — Ele encerrou a conversa e tentou se virar para ir embora, mas ela o segurou pelo braço e puxou para perto. Em um movimento rápido e inusitado, Diana o beijou. Ele, com os olhos arregalados em surpresa, ficou sem reação.

Retribuir o beijo, largá-la e tentar ir embora ou se a afastar, mas continuar a discussão?


M-08.

Ele ficou surpreso com a naturalidade de Megan e com a forma com que ela, talvez por timidez, tentava apenas ignorar o que tinha acontecido poucos instantes antes.

Ela o encarava e preparava o discurso a respeito do livro, mas os interesses dele tinham mudado subitamente.

— Espere um instante… E o que acabou de acontecer?

Ela soltou um pequeno riso. Sua face corou ligeiramente e seus olhos encararam-no intensamente. Com a voz ligeiramente murmurada e frágil, ela perguntou:

— Como assim? O que aconteceu?

Ele aproximou-se dela. Megan parecia ofegante e de certa forma ansiosa. Com o rosto sério, ele não permitiu que ela desvirtuasse o assunto como pretendia e manteve seus olhos sobre os dela. Perguntou, sendo bastante direto:

— O beijo. Por que agora?

Como reação, ela soltou uma risada nervosa e seu rosto corou ainda mais. Com palavras frágeis e que mal saíam, tentou argumentar uma última vez:

— Não foi nada. Eu só quis… — O discurso se perdeu num silêncio intenso que dominou o apartamento. Ambos se aproximavam lentamente um dos outro, ligados por um olhar firme que não se quebrava por qualquer distração. Ele se aproximou dos lábios finos de Megan, mas novamente foi ela quem o beijou. Abraçaram-se e se beijaram por longos minutos antes de se dirigirem para o quarto. Ele mal teve tempo de observar o cômodo. Ela ocupava toda sua atenção. Os gestos ligeiramente trêmulos dela, em uma timidez que não passava nem naquele momento, o fascinavam de alguma forma. Megan parecia ligeiramente desconcertada em estar com ele até naquela situação, mas tratava-o com um carinho teimoso, como se existisse certa raiva em ceder ao que faziam. Ainda assim, era contraditória sua postura: toda iniciativa partia dela.

Passaram meia hora na cama após terminarem. Ele permaneceu encarando o teto e o resto do quarto. Já Megan parecia preocupada e variava sua vista entre ele e as ruas que observava pela janela. Ela levantou primeiro, foi até a sala e voltou com o livro. Sentou-se no canto da cama, abriu-o e perguntou novamente o que ele gostaria de saber a respeito.

Ele perguntou sobre o autor e a origem do livro. Ela riu com a pergunta, saindo do torpor desgostoso em que se encontrara antes. Resgatou seus óculos, que deixara numa pequena mesinha ao lado da cama quando entraram no quarto, colocou-os, passou a folhear o livro e começou a explicação.

— Foi uma amiga que me passou esse livro mesmo, mas não foi tão simples como eu falei na primeira vez. Ele estava incompleto quando ela me passou.

Ele sentou na cama, tomando interesse pela história. Ela prosseguiu com a voz ligeiramente distante, como se fosse difícil se lembrar do que contava.

— Essa amiga comprou o livro de um velho gordo que estava vendendo tudo que tinha, não me lembro direito do motivo. Só lembro que estava com ela quando ela comprou, foi num casarão antigo bem longe daqui. Ela pagou pouco no livro, era como se o dono estivesse mesmo tentando se livrar dele. E a história estava incompleta, tinham quatro páginas no final que não tinham sido preenchidas. Ela leu inteiro e, no final, existia uma pequena anotação avulsa pedindo para preencher mais duas páginas. Ela preencheu e passou o livro para mim. Eu encerrei a história e joguei fora a anotação pedindo para continuar. No dia em que nos conhecemos eu estava indo mostrar para ela como terminei a história e pensar sobre o que a gente ia fazer com o livro agora.

Ele ficou extremamente interessado. Lembrava-se das últimas duas páginas da história vagamente, mas nunca poderia ter imaginado que o livro tinha sido escrito por pessoas diferentes. Toda a narrativa seguia um estilo parecido, sempre com a mesma métrica e melodia, e ele não notara muitas diferenças de grafia. Aquilo parecia ser um projeto incrível.

Ela abriu o livro e releu as últimas duas páginas, sem decodificá-las. Parecia de alguma forma um canto e ele permaneceu em silêncio escutando. Quando ela terminou, fechou o livro e o encarou. Perguntou, com a voz ligeiramente frágil:

— Você foi a única pessoa a ler esse livro inteiro sem ter escrito nada nele. Acho que você é o único leitor de verdade dessa história. E acho que posso dar esse livro pra você.

Ele sorriu com a constatação e aceitou o presente. Permaneceram ali mais algum tempo, conversando e encarando um ao outro. Eram cinco da tarde quando ela sugeriu que talvez saíssem novamente para algum lugar em outro dia. Ele sorriu e respondeu que certamente se encontrariam novamente. Despediram-se na porta e ele voltou para a própria casa com o livro que ganhara.

Três semanas se passaram e ele não teve mais notícias de Megan. Tentou ligar para ela várias vezes, mas não conseguia qualquer tipo de resposta. Ela sumira novamente.

Ele podia ir atrás dela, pois sabia onde ela morava. Seria muito estranho fazer isto? Ou talvez ela estivesse esperando esse tipo de ação? Também podia apenas esperar. Uma hora ou outra ela certamente teria que aparecer novamente. Em último caso, podia tentar pesquisar mais sobre ela e seu desaparecimento repentino. Tinha um ponto de partida, o mesmo que tivera quando quisera pesquisar mais sobre o livro, a casa da amiga de Megan.

Esperar por um retorno, voltar ao apartamento dela sem ser chamado ou tentar investigá-la?


Rodrigo Goldacker

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Termos e silêncios alternados.

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