Três Garotas 09

Capítulo 09

Rodrigo Goldacker
Jun 19 · 7 min read
“woman sitting on seashore reading book during daytime” by Markos Mant on Unsplash

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A ação de Diana o surpreendeu.

Seu beijo era repleto de um sentido implícito de desculpas e de uma ternura nervosa. O silêncio do parque fazia com que, na cabeça dele, ecoassem os gritos e hostilidades de pouco mais que um momento antes. Mas aquilo representava algo novo. Abraçou-a, retribuiu e assim passaram minutos juntos, entrelaçados num pedido de desculpas concreto e silencioso.

Sentaram-se novamente depois de um tempo, abraçados e quietos. Raros risos partiam de ambos de tempos em tempos. Pequenas palavras começaram a vir depois até que, por fim, conversavam em voz baixa, demorando para responder um ao outro enquanto se perdiam em seus próprios pensamentos. Nada de relevante foi dito, mas as entrelinhas e a situação por si só já diziam muito.

Levantaram-se por fim quando começou a escurecer. Ela aparentava estar tomada de um acanhamento melódico e era ele quem dominava o assunto. Caminharam até a saída do parque, abraçados e em passo vagaroso. Seria aquilo a reconciliação de algo que mal começara? Por que deveria começar a confiar nela apenas por um simples beijo?

Saíram do parque e continuaram andando até o ponto de ônibus. Diana falava pouco. Ele contava pequenas histórias sobre a vida e relembrava pequenos acontecimentos do passado.

A noite que vinha era ligeiramente úmida e gelada. Pequenas nuvens de ar saíam de suas bocas quando respiravam ainda ofegantes. Chegaram ao ponto de ônibus e, sentados lado a lado, esperaram por alguns minutos enquanto encaravam-se no escuro.

— Para onde a gente vai agora? — Ela questionou, com um alívio sutil na fala. Aparentava estar aliviada e satisfeita por estarem juntos.

Ele parou para refletir, considerando seus motivos para estar ali. Agora ele confiava em Diana? Caso não, poderia sugerir que fossem até a casa dela. Se ela tivesse familiares, provavelmente ele conseguiria alguma confirmação sobre Diana estar ou não falando a verdade. Se ela mentisse, contanto, aquilo poderia ser deveras desagradável. Podia sugerir também que fossem ao cinema e finalmente concretizassem aquele encontro que ele negara meses antes. Poucas informações sairiam dali, mas será que ele realmente se importava e precisava bancar o detetive? Por último, ele poderia se despedir de Diana com a desculpa de ir pra casa. Se alegasse estar cansado e prometesse um próximo encontro, dificilmente ela recusaria. Se ele realmente a veria de novo depois disso, já era outra história.

Cinema, casa de Diana ou ir embora e encerrar a noite?


Por um momento, ele estranhou a postura interrogativa que ele mesmo tivera logo antes.

Por que ele se importava tanto com os pequenos detalhes do que acontecera? Remoer a história, além de desconfortável, era inútil. Tudo que aquele assunto fazia era deixar ambos nervosos, apreensivos, e afastá-los ainda mais. Já que Pamela estava ali, ao mínimo ele deveria tentar ser agradável. Parecia infantil e imaturo que ele exigisse qualquer coisa dela sendo que tinham se conhecido naquele mesmo dia.

— Desculpa por ficar falando tanto sobre isso. A gente pode mudar de assunto, acho. — Ele disse, tentando se redimir de alguma forma. Ela soltou um sorriso complacente e se aproximou dele. Com um riso pequeno, ela questionou provocante:

— Então a gente pode encerrar o interrogatório? — Ela colocou a mão no peito dele ao dizer isso, empurrando-o lentamente para trás na cama. Aproximou o rosto do dele e, sem aviso, beijou-o. Parecia um pouco estranho que Pam fizesse aquilo tão repentinamente e ele suspeitou que ela o fizesse apenas para mantê-lo calado e tentar quebrar a atmosfera tensa no quarto, mas nada disse. Permitiu novamente que Pamela o guiasse nas ações.

Ela o despiu primeiro e encarou seu corpo com um sorriso irônico no rosto. Depois se despiu também e disse para ele, com as palavras saindo baixas, ainda assim repletas com certa sensualidade dominante:

— Eu disse que a gente ia se divertir.

A boca dela ainda tinha certo gosto amargo de algo que tomara no hospital, mas era quente e macia como sua pele. Ela parecia liderar absolutamente tudo outra vez, como se a submissão dele a esquecer o assunto anterior a colocasse de volta ao posto dominante. O sexo, rápido e casual como tudo nela, parecia ser uma simples forma de recompensá-lo por não tê-la obrigado a continuar no assunto anterior.

Passaram o resto da noite ali, deitados juntos. Conversaram pouco sobre poucas coisas, mas ele ainda sentia que tinha pouco o que falar com ela. Não sabia exatamente como agir ao seu lado e nenhuma conversa parecia sobreviver por bastante tempo. Ela, por sua vez, parecia ligeiramente aliviada em estar ali. Ainda tinha um sorriso em seus lábios quando permanecia em silêncio olhando para o nada; quando falava, sua voz sempre parecia cheia de uma animação teatral, ligeiramente irritante e bastante parecida com a que ele tinha visto nela quando estava no ônibus.

A manhã veio e Pamela se levantou primeiro. Espreguiçou-se e bocejou, vestiu-se novamente e esperou que ele fizesse o mesmo. Sem comer nada e com despedidas rápidas, ela passou-lhe seu número de celular e disse que precisava voltar pra casa.

— Minha mãe vai ficar louca. Mas a gente vai se ver de novo, aposto — Pam despediu-se, com um último sorriso, antes de sair apressada pela porta.

Ele passou o resto do dia confuso e inquieto. Quando se veriam novamente? E o que fariam juntos? Pamela e ele pareciam ter muito pouco em comum e, além disso, ele tinha certo medo de que ela o arrastasse para alguma outra situação similar à que passaram na noite anterior. Ele não tinha certeza se, de fato, gostaria de vê-la novamente. E ela também não parecia demonstrar que sentiria muito a sua falta.

Três dias se passaram e ele nada fez, até que Pam tomou a iniciativa novamente. Ligou-lhe às duas da tarde, com a voz parecendo bastante contida, e perguntou sem muitos rodeios:

— Você sumiu! Se não estiver ocupado, a gente podia sair juntos pra algum lugar.

Ela parecia tentar segurá-lo de alguma forma. Mesmo com ele claramente tentando se afastar, ela decidira aparecer novamente. E por quê? O que ela via nele? Onde poderiam ir juntos? O que poderiam fazer? Talvez fosse melhor apenas ignorar tudo aquilo, inventar uma desculpa. Ou talvez devesse ser sincero e tentar explicar para ela que talvez não devessem mais se encontrar.

Aceitar o convite, inventar uma desculpa qualquer ou tentar encerrar tudo e cortar contato?


Ele não era capaz de simplesmente ignorar o desaparecimento de Megan.

Ela prometera que se encontrariam novamente, mas ignorara todas as suas tentativas de contato. Três semanas já haviam se passado e onde estava ela?

Ele estava decidido a descobrir, independente do que ela poderia pensar a respeito. Ele acreditava ser absurda a forma como ela sumira sem dar maiores explicações.

Foi novamente até o apartamento dela. Era meio-dia quando ele apertou a campainha e esperou, mas não foi atendido. Obstinado, ele se recusou a ir embora. Uma hora se passou com ele sentado na calçada em frente ao prédio, aguardando qualquer resposta. Megan por fim surgiu, abrindo a porta e saindo para a rua. Sem parecer muito surpresa ou ofendida com sua presença, ela sentou ao lado dele na calçada e permaneceu quieta por alguns instantes, encarando o chão com uma expressão culpada. Ele, nervoso pelo silêncio, foi o primeiro a falar:

— Por que você sumiu? Eu fiz algo de errado? Desculpa por ter vindo aqui assim…

Ela esboçou um sorriso um pouco triste e balançou a cabeça negativamente. Encarou-o por alguns instantes e então começou, com a voz baixa e tímida:

— Você não fez nada de errado, o problema é… –E então ela pareceu mudar de ideia a respeito do que falaria. Conclui com outra pergunta — Por que você voltou?

Dessa vez o sorriso triste foi dele. Encarou a rua e os carros que passavam enquanto tentava formular uma resposta. Megan o encarava solenemente, como se vê-lo ali fosse um evento que trazia algo de um sofrimento antigo.

— Então você sumiu sem motivo nenhum? Voltei aqui porque gosto de você, a resposta é simples. Mas por que você sumiu? — Foi o que ele respondeu em um só fôlego, como se tivesse que falar o mais rápido possível antes que mudasse de ideia. Ela sorriu novamente, levantou-se da calçada e foi em direção à porta. Ele levantou também. Megan parecia se sentir culpada e seu rosto estava corado. Seus olhos verdes emanavam melancolia através das lentes de seus óculos. Ela abriu a porta do apartamento e tinha a intenção de entrar sozinha, deixando-o na calçada. Disse uma única palavra:

— Desculpa…

Se ela fosse embora agora, ele nunca mais a veria. Por que ela se esforçava em afastá-lo? Estaria de alguma forma arrependida de terem se conhecido? Aquela poderia ser sua última chance, a última vez em que veria Megan na vida. Se saísse dali agora, com ele iriam todas as dúvidas a respeito das motivações e estranhos modos de Megan.

Ele deu mais alguns passos e apoiou-se na porta, ficando frente a frente com ela. Era um momento decisivo e ele queria ser firme. Aceitaria a rejeição de Megan e iria embora derrotado? Tentaria discutir com ela, tentar pressioná-la a dizer exatamente o que estava acontecendo? Ou apenas observaria sem reagir para descobrir se ela realmente seria capaz de deixá-lo ali sozinho?

Desistir, tentar pressioná-la ou deixar Megan agir por conta própria?


Rodrigo Goldacker

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Termos e silêncios alternados.