Um par; Dois olhos

Uma aranha enorme, violenta e horrorosa está presa em um caixote; eu sei que ela me atacará se abri-lo, mas mesmo assim o abro. A aranha parte para cima de mim; me rendo, me sacrifico e permito que a criatura me coma, mas ela não é capaz de me engolir totalmente.

Observo durante alguns segundos sua boca aberta, redonda, dotada de várias camadas de dentes contra um tubo de sucção que parece ser a boca de um verme.

A cena fica estática nisso até que permito que outra criatura tome forma. Um tigre aparece, ruge três vezes e parte para cima da aranha. Estou a salvo e, daqui em diante, só observarei aos eventos posteriores. Ambas as feras se matam, ou só se enfrentam, mas por fim desaparecem.

Ao lugar delas, dos restos do que foram e que sobraram após o conflito, aparece um cajado negro que um mago, que também surge de súbito, pega nas mãos. Ele quebra o cajado ao meio e então joga os dois pedaços contra uma fogueira que também brotou. Depois, ele mesmo se joga no fogo.

A chama sobe e do topo dela aparece uma vespa/abelha dourada; a fogueira anterior apaga. A vespa voa sozinha, ainda dourada e brilhando reluzente no escuro, no centro do nada da imagem. Ela é a única fonte de luz na escuridão de breu que ao redor a envolve.

Quando tento ver um, eu me torno dois; quando eu tento ver dois, me torno um.

O Um não pode ver a si mesmo jamais. Um nunca verá Um. Tudo que Um pode ver, é Dois. Esta é a sabedoria da percepção; o mapa do terreno não é o terreno. A palavra não é o objeto que nomeia. Se sou o meu Um terreno, minha visão é meu dois, meu mapa. Se sou Um, a palavra que me nomeia é Dois. A representação nunca é o representado.

Torna-se conflito ao ver-se como Um, pois a condição para ver Um é ser Dois. Torna-se resolução ao ver-se Dois, pois a condição para ver-se Dois é ser Um.

És um único humano, dotado de um par de olhos. Perceba: um par, dois olhos. Vês através de pensamentos binários por oposição. Tu não és o conflito, a oposição; no mais profundo, não és nem mesmo a resolução; não és escravo de nenhum conceito, nem sujeito de qualquer número. Não és nenhuma abstração, numérica ou não, não és nenhuma palavra: não és Um, não és Dois, não és nada que se nomeie. És teu próprio mistério.

Mas use das abstrações e dos números com a sabedoria ocidental da indumentária, torne-se mago com tua varinha de condão de pura e bela estrela numa mão e de cajado de escuro silício noutra.

Torna-te um ao usar de ambas tuas duas mãos…

Like what you read? Give Rodrigo Goldacker a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.