Uma Sala Espelhada;

Nela não há janelas nem portas. Um cubículo perfeito, onde todas as paredes tem precisamente as mesmas medidas. A superfície lisa, fria, reflete infinitamente tudo do nada que há ali; cada uma das paredes reflete as outras e apenas isso. Luz branca, pouco forte, vaza para dentro do ambiente através de ínfimos, imperceptíveis espaçamentos entre os vértices. Nada mais.

Coloque um ser humano lá dentro, sozinho e nu, e teremos então o mais horroroso método de tortura. Um intervalo de poucos dias será mais do que o suficiente para transformar absurdamente qualquer um. Seria um método de produção de insanos, uma caixinha para fermentar loucura. Coloque matéria prima, um saudável e são qualquer; Deixe lá para cozinhar alguns dias, para deixar a massa cinzenta assar apropriadamente. Depois retire um insano quentinho.

Nada deve ser mais horrível do que esse tipo de ócio e tédio, esse nível de comprometimento consigo. Passamos a vida toda olhando para tudo mais que há para se olhar, nos entretendo com tudo que existe na figura geral, no dito panorama, para desconsiderarmos do cenário o nosso próprio lugar e espaço. Nunca olhamos para nós se temos qualquer outra coisa para a qual olhar.

Quero dizer, apenas pare e pense. O quanto seria horrível ser obrigado a passar alguns dias solitário consigo mesmo, sem mais ninguém para te distrair de seus próprios pensamentos? Alguns dias vendo somente sua própria figura, o quanto do espaço você ocupa, suas feições, suas características, sem poder mentir ser mais magro ou gordo, alto ou baixo, feio ou bonito do que de fato é?

Ah, mas não pararia por aí. O terror de se autoconhecer fisicamente não é nem metade. Imagine o horror de ser obrigado a ver sua própria mente. Sem palavras de mais ninguém para te distraírem da sua particular consciência. Sem mais ninguém que você possa olhar e julgar em comparação contigo. Ninguém mais liberal ou conservador, esquerdista ou direitista. Ninguém mais esperto, ninguém mais burro. Ninguém com suas particulares inseguranças.

Como deve ser horrível não ter nada para te distrair dos teus próprios pensamentos. Não ter outros para olhar que não si mesmo. Imagine esse tapa de realidade, esse horror do real cru, onde não existem ilusões, onde a insegurança é derrubada até a base. Imagine se ver realmente, tal como você verdadeiramente é. Sem mentiras ou incertezas. Sem ilusões midiáticas. Sem talvez. O factual, o puro. A sua construção biológica, o seu amontoado de carne. A percepção total de si, com o mesmo nível analítico de percepção com o qual normalmente vemos todo o resto.

Imagine ser obrigado a ver e saber quem você é. O quanto você é.

Ninguém para validar seus orgulhos. Ninguém para desmentir suas culpas.

Quando me acho feio, jogo dinheiro na mão de alguém e recebo alguma roupa bonita em retorno. Quando me acho burro, jogo dinheiro na mão de alguém e entupo minhas conexões com informações novas, livros novos, frases novas. Quando me acho errado, olho aos erros dos outros que considero mais errados do que eu. Quando me considero medíocre, olho para a mediocridade dos mais medianos ainda e me acalento no que me diferencia ligeiramente. Quando me incomoda julgar meu próprio umbigo, julgo o umbigo dos outros. Construo meu ego não do que vejo de fato em mim, mas do que não vejo em mim que vejo nos outros. Sou magro em comparação com quem é mais gordo. Inteligente comparado com quem é mais burro. Alto ao lado de quem é mais baixo.

Imagine não ter parâmetros. Não ter outro. Não ter o binário, a caracterização baseada em maniqueísmos, em oposições. Imagine não ter julgamentos comparativos. Imaginem não ter o outro, somente você.

Imagine se olhar no espelho. Sem distrações. Sem mais nada para olhar. Sem paisagens bonitas, sem nuvens no céu, sem prédios e carros, sem avenidas, árvores, mar, sem o mundo para te abraçar. Imagine estar alheio totalmente ao resto, perceber somente a ti.

Tenho dúvidas sobre o que aconteceria ao retirarmos nosso espécime absolutamente autoconsciente de lá. Provavelmente ele estaria em estado de choque. Seria incapaz de formular frases ou de adjetivar qualquer coisa: ele estaria cego para tudo. Seria unitário, teria um pensamento fedorento da novilíngua de Orwell, sem habilidade de conexão comparativa, incapaz de raciocínio qualquer.

Mas depois, onde ele cairia? Seu cérebro estaria destruído ou aprimorado? Sairia de lá um demente ou um gênio? Após poucos dias do mundo para abraçá-lo de novo, este alguém choraria ou riria de si e de tudo?

Acredito que isso dependeria de duas coisas, dois fatores.

Primeiramente, dependeria de o quanto este alguém gostasse do reflexo que viu. Do quanto gostou ou odiou a si mesmo após absolutamente se conhecer. E mesmo esse tipo de percepção, amor ou ódio, só seria possível após um tempo, após ser novamente abraçado pelo mundo que antes abandonara. Precisaria recuperar os valores de fora para ser novamente capaz de valorizar e julgar a si mesmo.

Mas até estas visões estariam atreladas ao mundo ao redor, que moldou e foi moldado por este particular, específico e singular alguém.

Então, em segundo lugar, basicamente o amor ou ódio seria reflexo do mundo, do resto, de tudo que ele abandonou antes de entrar na sala espelhada. Este humano refletiria o amor ou ódio dos valores nos quais foi talhado.

Se antes de entrar na sala estivesse mergulhado em uma utópica realidade feita de amor mútuo, onde amasse e fosse amado, retornaria ao amor. Se tivesse saído de um mundo distópico de ódios, onde odiasse e fosse odiado, voltaria com extremo ódio.

Fosse qualquer um dos dois, seria no mais profundo de tudo. Suas mais íntimas e inconscientes intenções são consideradas maldosas ou erradas por sua cultura e seu contexto social, são odiadas por todos? Ao ser abraçado novamente por esta cultura, percebendo enfim e nutrindo ao âmago este conhecimento de si e do valor que a ele é atrelado, e este alguém se julgaria maldoso. Este alguém se odiaria. O inverso também seria válido.

Após refletir plenamente a si, o juízo final viria de refletir plenamente os valores do mundo. Espelhado o inteiro de si, as paredes da sala se virariam ao avesso e refletiriam todo o resto que há. Entenderia primeiramente a si. Depois ao espaço. E depois a relação entre ambos.

Fosse esta relação tóxica e provavelmente o testado terminaria em suicídio. Fosse uma boa relação e ele estaria feliz para o resto de seus dias.

Ah, seria um belo experimento. Metade de nós sairia de lá desgraçada para o resto da existência em ódio autodestrutivo. A outra metade sairia para se amar até a morte.

Resta considerar em qual destes extremismos cairíamos. E como poderíamos, antes de entrarmos na sala espelhada, melhorar tanto a nós quanto ao espaço, a relação que criamos entre ambos, para atenuar as chances de um resultado traumático.

Em qual dos extremos você acredita que viria a estar, leitor? Amor ou ódio de si? E do resto? Como você se julga e como o mundo te julga? Como mudar estes dois julgares?

É uma terrível dúvida, um terrível pensamento a se analisar. Terrível sala espelhada com suas reflexões todas.