Casa Vazia

Rodrigo Malveira
Jul 30, 2017 · 6 min read

Sábado, 10 de junho de 2017, 19h07. Ouviu um sussurro. O acordou e soou estranho naquela noite chuvosa. Não havia ninguém em casa, apenas ele. Fato raro, já que era comum jantares em família nos sábados à noite. Todos haviam saído para algum compromisso, mas, desatento, não recordava onde eles haviam ido. Lembrava apenas que estava tirando um cochilo e o som arrepiou seus pelos da nuca em reação quase instantânea ao susto. Será que foi apenas parte de um sonho que logo foi interrompido? Sim, devia ser isso. Mas, mesmo assim, levantou-se da cama e olhou ao redor, mesmo sabendo que não haveria ninguém ali. Porém, tinha algo diferente no local, um vaso com flores em sua escrivaninha. O quê? Nunca gostou de flores e nunca ousou enfeitar seu quarto com elas. Enquanto ficou estático olhando para a decoração nova e estranha surgida em seu cômodo, um trovão fez barulho lá fora no meio da chuva. Novo susto. Será que aquela voz que ouviu não era sonho? Mas, calma, deviam ser seu pai, sua mãe e seu irmão que teriam acabado de chegar de onde quer que estivessem naquele dia.

Deu um pulo da cama, calçou os chinelos, saiu do quarto e desceu a escada. Espera aí, não havia ninguém lá ainda, sala, cozinha, terraço, tudo completamente vazio e na mais perfeita escuridão. Rapidamente sua mente se encheu de perguntas, o sussurro que ouvi foi real ou sonho? De onde vieram aquelas flores no meu quarto? Onde estão todos que não chegam? Já faziam quantas horas que eles haviam saído? Quatro, cinco, seis? Estranhamente ele não lembrava. Já sabia, iria ligar e perguntar onde seus pais estavam. Subiu novamente ao quarto. Assim como as flores, que continuavam lá, seu celular também estava na escrivaninha. Contudo, ao pegá-lo sua ideia de fazer uma ligação desapareceu, estava sem sinal. “Ah, droga! A chuva”, pensou ele. Tentou se acalmar, estava ficando paranóico demais só por estar sozinho em casa e com seus 18 anos acreditava estar velho o bastante para essas coisas.

Precisava ir mijar, estava tenso demais. Decisão casual para aquele momento. A chuva constante não parava lá fora. Enquanto estava no banheiro, não um sussurro, mas vozes foram ouvidas no corredor que ligava o banheiro, aos quartos dele, do irmão e dos pais. A luz do lado de fora se acendeu. “Ufa, eles chegaram”, avaliou erroneamente. Ao abrir a porta que dava para o corredor, uma expressão de surpresa e terror lhe tomou. Luzes apagadas e a casa ainda completamente vazia. Não era possível, ele tinha ouvido vozes, desta vez altas o bastante para qualquer mente sã avaliar que havia alguém em casa, eram as vozes dos seus familiares. Ele tinha certeza. Só que nada disto estava ali, apenas um corredor escuro que ligava dois focos de luz, o do banheiro e o do seu quarto. Agora, já completamente tomado de medo gritou de onde estava em busca de quem quer que estivesse na casa. Teria que haver alguém, aquilo tudo não poderia ser só fruto da sua imaginação. Nada foi escutado em resposta. Voltou ao quarto correndo e trancou a porta, a ideia de que poderia existir alguém ali, mas não alguém real, não alguém físico como ele, passou rapidamente pela sua mente. “Calma, cara. Isso de espíritos e fantasmas não existe. Você está alucinando”, ele se pegou dizendo a si mesmo.

Alguns minutos se passaram enquanto estava sentado na cama imaginando que logo os pais chegariam e iriam colocar fim àquela estúpida sensação de medo que estava sentindo. O som da chuva batendo nas janelas, nas telhas e na terra tinha voltado a ser o único som da casa naqueles minutos. Tinham, porque em um instante, surpreendente como qualquer som pode surgir sobre outro em situações normais do cotidiano, ele ouviu choramingos. Vinham do quarto dos pais, que ficava logo ao lado do seu. Era real, ele não estava imaginando, mas ao mesmo tempo ele sabia que não podiam estar lá. A casa continuava vazia, desta vez ele tinha mais do que certeza, no silêncio anterior aos choramingos teria escutado se a porta da frente tivesse sido aberta e pessoas tivessem entrado em casa.

Não era coragem, sem dúvidas, ele não era uma cara corajoso. Sua aparência já demonstrava isso, pálido, magricela, um pouco pequeno demais para sua idade e óculos na ponta do nariz. Foi mais um instinto, de saber o que estava lhe assustando, o que estava na casa naquela noite. Destrancou as portas e andou com cuidado até o quarto dos pais, não queria fazer barulho. Os choramingos continuavam e aumentavam a medida que ele se aproximava da porta. Estava lá, ele iria ver. Girou a maçaneta. Ouviu o clique da porta abrindo. Olhou para cama dos pais e… nada, só aquele som. Vinha de lá, estava lá, mas soava como vento quando passa por seus ouvidos e faz um som, mas que fisicamente não vem de lugar algum. Só havia os choramingos, ninguém estava lá. Ele gritou, agora plenamente assustado. Não sabia o que fazer. Não era loucura, ele sabia que não era, tinha algo ou alguém ali, sem forma, mas ali em sua frente. Então ouviu outra voz, ali ao seu lado chamando por “mãe e pai” e reconheceu imediatamente. Aquela voz o qual ele já tinha ouvido durante os últimos oito anos era a do seu irmão mais novo. Tudo começou a ficar claro na sua mente em um pensamento horrível, a demora incomum dos pais, os sons que faziam parecer que eles já estavam em casa. “Ah, meu Deus! O que aconteceu com eles? Será que estão mortos?”, se ouviu dizer enquanto lágrimas saiam dos seus olhos. Gritou mais uma vez agora pelo nome deles, seguia sem resposta. Atordoado e sem saber o que fazer voltou ao quarto. Olhou para o celular novamente, esperançoso de que o sinal tivesse voltado e pudesse ligar para alguém que o ajudasse, por mais que parecesse loucura ligar para polícia e dizer: “Alô! Acho que meus pais e meu irmão estão mortos e estão assombrado a casa”. Pegou o celular, mas nada de sinal. Espera aí. Outra coisa além da falta de sinal lhe chamou atenção. O horário, 19:07. Aquele era o horário que ele tinha ido se deitar enquanto os esperava, aquele era o horário que desatentamente olhou quando pegou o celular pela primeira vez. Não era possível, agora o celular também tinha quebrado. Descuidado esbarrou naquele vaso com flores, ele caiu e se despedaçou no chão. Quando isso aconteceu notou mais uma coisa naquele vaso que não tinha visto anteriormente, no meio das flores havia um cartão. Um singelo pedaço de papel, com uma única frase escrita que lhe causou horror. Nele, escrito nas letras familiares do seu irmão estava a frase: “Descanse em paz, John”. Quem é John nessa história? John era ele próprio. Mas como? como? Passou o resto da noite em estado de loucura se perguntando o sentido daquele bilhete, da chuva interminável, do sinal do celular que não voltava, da hora que não passava…

Quinta-feira, 8 de junho de 2017, 19h07. Num quarto de hospital, um jovem de 18 anos não resistiu ao câncer que lhe havia destruído nos últimos meses. Seu nome era John. Pálido, magricela, um pouco pequeno demais para sua idade, só usava os óculos na ponta do nariz. Toda sua família ficou abalada com a tragédia. Decidiram que o enterro seria no sábado, dia 10 de junho à tarde. Naquele final de semana, não houve o habitual jantar em família do sábado. A casa estava estranhamente silenciosa. Sua mãe, à noite, foi ao quarto de John e ficou sentada por horas dizendo baixinho, quase sussurrando o quanto amava o filho, o quanto não acreditava em sua morte. Um vaso de flores estava no local, ideia do irmão caçula que nenhum dos pais refutou, mesmo sabendo que John odiava flores. Houve sim choro dos pais naquele dia, sentados no quarto deles e que depois foi acrescido do irmão. Ficaram ali por um período indeterminado de tempo, enquanto no quarto ao lado o vaso de flores inexplicavelmente caia da escrivaninha apesar da ausência de qualquer sopro de vento no local e o espírito de John tentava entender o que estava acontecendo.

Rodrigo Malveira

Perfil periodicamente instável

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