Patrulha para o inferno

Cinco batidas na porta e nenhuma resposta. O galpão aparentava estar vazio. No interior apenas alguns grunhidos. Não sabia o que mais poderia haver lá, mas de uma coisa tinha certeza, o local estava infestado de ratos. Maldição. Logo na minha última ronda antes das férias tinha que receber a denúncia de um possível psicopata nas redondezas. Por que não poderia ser apenas mais um fim de noite tranquilo como foram todos durante essa semana? Aliás, estranho, não me recordo de nenhuma outra ocasião desde que entrei para polícia onde tivesse tido uma semana de trabalho tão calma e sem grandes ocorrências. O máximo que eu e meu parceiro Fred fizemos foi prender um desses ladrõezinhos meia tigela que resolveu roubar um posto de conveniência na madrugada da terça-feira. Nada além disso. No resto das outras noites tivemos tempo de sobra para escutarmos um pouco de música na rádio e comprarmos lanches no drive thru da MCDonald’s enquanto fazíamos a ronda, afinal precisamos forrar o estômago até o amanhecer.

Porém, neste sábado foi diferente, quando o relógio bateu as 2h e eu e meu parceiro já estávamos nos preparando para ir pedir mais um hambúrguer com fritas e refrigerante, veio um chamado da central. Vários moradores dos andares mais baixos de um prédio ali perto fizeram ligações relatando gritos vindos do galpão vizinho. O local oficialmente estava abandonado havia alguns anos, mas segundo os relatos que recebemos, uma família de sem tetos vinha ocupando o lugar nas últimas semanas. Um senhor com sua sua mulher e três filhos. Na área ninguém simpatizava muito com eles. Logo quando o ocuparam houve algumas denúncias para que fossem retirados do galpão. Algum policial que trabalha à tarde chegou a ir lá e os intimou - na verdade essa não seria a palavra correta para usar nesse caso, na verdade ele os obrigou - a saírem. Atenderam ao pedido por algumas horas, mas logo voltaram. Enfim, nos dias seguintes nenhuma nova reclamação foi feita… até esta noite. O homem, aparentemente bêbado, vinha discutindo com a mulher e com os filhos desde às 23h. Apesar de ser uma briga completamente audível, nenhum dos moradores dos apartamentos mais próximos se preocupou em denunciar, talvez houvesse a esperança de que logo eles fossem dormir e deixariam a vizinhança tranquila novamente. Ah, mas era engano deles. A discussão perdurou e o que era uma briga familiar se tornou uma série de gritos assustadores de pânico e dor poucos minutos antes de recebermos a denúncia.

Quando eu e Fred chegamos no galpão estava silencioso como se nada tivesse acontecido. Alguns moradores do prédio estavam na janela quando estacionamos a viatura na rua, mas logo foram para dentro e as fecharam. Demos uma vasculhada ao redor e não achamos nada além de algumas garrafas de cachaça barata vazias. Sim, o homem devia estar completamente bêbado. Não seria nenhuma surpresa se realmente tivessem acontecido homicídios no local. Tanto eu quanto Fred já pegamos diversos casos com o mesmo enredo. Era bom eu me preparar para uma longa noite de trabalho. Minhas férias não iriam se iniciar tão facilmente.

Após as cinco batidas que dei na porta do galpão, fiz sinal para o Fred para entrarmos a força no local. Ele assentiu. Quando demos impulso para arrombar a porta, ela se abriu sozinha. Por um momento achamos que o homem atordoado tinha tomado a noção do que acabara de fazer e se entregaria à polícia. Facilitaria um pouco o serviço. Mas nada disso aconteceu, ninguém saiu lá de dentro. “Nada de arrependimento, merda!”. Fred, em alerta, entrou primeiro com a arma engatilhada. Fui em seguida. Havia velas no chão para iluminar o local. E, Deus… ah, meu bom Deus! O que vi ali, acredito que nunca mais vou esquecer. Corpos não apenas mortos, mas mutilados. Cabeças separadas de troncos que por sua vez estavam separados de pernas e braços. “Como ele pôde faz…” Meu pensamento logo foi interrompido por uma terrível constatação, não foi o pobre homem que fez aquilo. Ele também estava ali, dilacerado sob uma luz tremulante que deixava o cenário ainda mais espantoso. Pedaços de cinco corpos, espalhados pelo chão e nenhuma ideia de quem havia feito aquilo. Olhei para Fred e a mesma expressão de espanto, dúvida e nojo estava em seu rosto. De fato eu não teria férias tão cedo. Enquanto estávamos ali, ainda atônitos diante daquela horrível cena, tive a sensação de um vulto ter passado por trás de mim. Me virei, estávamos há poucos passos da porta, e não havia nada ali, ninguém que tivesse se aproveitando da situação para fugir.

Pedi para Fred ficar no local enquanto iria ao carro pedir para que o IML e uma equipe de investigação de homicídios se dirigisse ao galpão. Enquanto falava ao rádio vi a porta que estava aberta, e me dava uma visão parcial do interior do local, bater com extrema violência. Em questão de segundos, gritos de horror de Fred vieram lá de dentro. Corri para ajudá-lo. O assassino ainda devia estar lá dentro e tentando matar o meu parceiro agora. A porta estava trancada por dentro e enquanto tentava arrombá-la ouvi outra voz lá dentro. Sim, havia mais alguém lá dentro. Era o assassino. Só podia ser ele. Um policial em sã consciência não poderia deduzir outra coisa. A porta não cedia. Gritava por Fred e ele não respondia mais. Havia um portão para veículos ao lado, decidi então atirar na tranca e tentar abri-lo. O portão devia estar enferrujado depois de tantos anos sem ser utilizado e só consegui levantar alguns centímetros dele. O suficiente para passar por baixo. Ao entrar vi meu parceiro caído ao chão, sentado, enquanto olhava para… para… para… minha mente não conseguia aceitar o que estava vendo. O corpo de uma das crianças, que estava morta e em pedaços antes que eu deixasse o galpão, agora estava de pé, levitando e falando. Não entendi o que dizia e nem pretendia. Minha primeira reação foi sacar novamente o revólver e começar a disparar na direção da coisa. Fosse o que fosse estava morto e deveria continuar assim. A criança se “desmontou” novamente e caiu no chão. Corri até o Fred, que seguia imóvel e caído. Aquilo tinha afetado meu parceiro. Sabia que tinha que tirá-lo de lá e de alguma forma tentar explicar o que tinha acontecido quando o reforço chegasse, por mais inexplicável que parecesse.

Enquanto o apoiava sobre mim para levantá-lo um estrondo ocorreu no galpão. O portão de veículos pelo qual tinha entrado voltou a se fechar. As velas que davam parcial iluminação se apagaram. Novamente tive a impressão de que havia mais alguém ali, vivo, além de mim e de Fred. Desajeitadamente tentei novamente puxar a arma que tinha guardado e deixei Fred cair no chão. Uma luz vermelha, como se vinda de uma lua cor de sangue, começou a clarear o local por meio de brechas no telhado. No breve momento que olhei para cima surpreendido por esse estranho fenômeno, senti o corpo de Fred sendo puxado sobre os meus pés. Quando minha atenção retornou para o que estava na minha frente tive a certeza de que assim como Fred, minha sanidade estava se esvaindo do meu corpo. O demônio tinha surgido ali. Vermelho como fogo, grande nenhum outro ser humano era, com olhos escuros e vazios. Sua extensa língua sangrenta puxava Fred na sua direção. Eu estava paralisado com a arma apontada para ele, mas nenhum músculo do meu corpo se movia. Vi meu parceiro sendo levado para a morte enquanto sentia apenas um imenso horror. Talvez o resto de sanidade de Fred tenha se manifestado naquele momento, quando alguma coisa dentro dele também teve a sensação de que aquele seria o seu fim. Ele começou a gritar novamente, desesperado, condenado. Aquele grito acabou me tirando daquela paralisia com duas opções, tentar salvar Fred e talvez encaminhar minha morte junto com a dele ou sair dali o mais rápido possível e largar meu parceiro. Optei pela segunda, deixei a arma cair no chão e dei as costas para a morte do meu amigo de profissão de tantos anos. Fui correndo em direção a porta. Antes de sair ainda dei uma olhada por cima do ombro a tempo de ver aquele demônio rasgando Fred como tinha feito com aquela família de miseráveis. Sai e a fechei com toda força, segurando-a para não abrir novamente. Quando aqueles sons sumiram lá dentro, dei alguns passos para trás e cai no chão. Ouvi carros se aproximando, deviam ser aqueles malditos reforços chegando somente agora. Mas, o que eles poderiam fazer se tivessem chegado antes, a não ser compartilhar do mesmo horror que o meu? Ao finalmente chegarem ali no terreno abandonado, o mesmo silêncio que tinha tomado conta do local quando eu e Fred chegamos já tinha retornado. Ninguém voltou a entrar naquele galpão, não porque contei - ou tentei contar - tudo que tinha acontecido lá dentro, mas porque assim que iam abrir a porta, misteriosamente trancada por dentro novamente, o galpão começou a pegar fogo. Aquelas velas no chão já tinham se apagado, lembrava disso, não podiam ser elas que causaram aquele repentino incêndio. Contudo, naquela altura, já tinha desistido de encontrar qualquer explicação racional para o que estava acontecendo. Fui encaminhado a um hospital, onde seria atendido para, em seguida, prestar depoimento. Burocracias. Enquanto me levavam para lá e o corpo de bombeiros chegava para apagar o incêndio. Algum infeliz, motivado talvez pelo meu estado de perturbação, decidiu dar uma vistoriada na viatura que era minha e de Fred naquela noite. No porta luvas ele encontrou uma faca ensanguentada com minhas digitais e sangue do pai daquela família, uma garrafa de álcool e uma isqueiro. Isso somado a minha arma e as balas que disparei dentro do galpão me colocaram como responsável pelos assassinatos do homem e de Fred. O relatório do caso colocou que por algum motivo sofri de um ataque de loucura quando vi a cena do crime e matei os dois. Claro que haviam contestações sobre essa verdade absoluta criada pela polícia, mas no estado que me encontraram não seria difícil ser taxado como um louco assassino. Fui internado, não tive as minhas férias, e desde então tenho pesadelos toda noite com aquelas horas que passei no inferno. Não morri, mas um pouco da minha alma foi perdida ali. No local do galpão, um residencial de classe alta foi construído. A partir da sua data de inauguração até hoje, três mortes já aconteceram no prédio. Estranhos casos de suicídio. Aquele demônio continua lá e sedento por sangue.

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