Como prefeituras podem (ou não) estimular o empreendedorismo na baixa renda?

Artigo publicado em 08/05/2012 na Folha de São Paulo

http://empreendedorsocial.blogfolha.uol.com.br/2012/05/08/como-prefeituras-podem-ou-nao-estimular-o-empreendedorismo-na-baixa-renda/

Nestes sete anos de apoio a microempreendedores de baixa renda realizado pela Aliança Empreendedora, tive a oportunidade de conhecer projetos e iniciativas (bem e mal sucedidas) em todo o Brasil lideradas pelos mais diversos atores: empresas, ONGs, governos e universidades.

Refletindo sobre isso, percebi o quanto as prefeituras, quase que em geral, estão defasadas quando o assunto é o apoio e promoção do empreendedorismo junto à públicos de baixa renda.

Mesmo com grandes avanços em políticas nacionais como a Lei do Microempreendedor, o Programa Crescer de Microcrédito Produtivo e o programa Brasil Sem Miséria, as prefeituras, em sua maioria, carecem de conhecimento e noção da relevância estratégica que o apoio ao empreendedorismo tem para o desenvolvimento de suas cidades e suas comunidades.

No caso de médias e grandes cidades, se estamos falando do empreendedor de classe média ou alta, o assunto é de responsabilidade das Secretarias de Trabalho e Desenvolvimento. Se o empreendedor é de baixa renda, o assunto muda de casa e passa a ser responsabilidade das secretarias de Assistência Social ou similares.

Se o empreendedor é de classe média ou alta, ele tem oferta de incubadoras e aceleradoras, isenção de impostos e participa de rodadas de negócios nacionais e internacionais. Se o empreendedor é de baixa renda, 90% das prefeituras (quando realizam algum apoio) acham que ele deve montar ou participar de uma cooperativa e (sobre)viver de costura, cabeleireiro e artesanato. Sem nenhum tipo de análise de viabilidade de mercado ou dos negócios que apoiam.

Com isso, juntam grupos de 20 a 40 pessoas, designam um assistente social e investem em equipamentos, esperando que os resultados sejam rápidos e positivos. Parece bom?

Então vamos refletir um pouco mais a partir de sete pontos de reflexão.

Primeiro, muitas vezes o “grupo” de dez, 20 ou 40 pessoas não se conhece e não confia uns nos outros. Não se trata de um grupo, mas de um amontoado de pessoas. Agora reflita: Se você fosse um empreendedor, montaria um negócio com sócios que não conhece? Sem confiança, não há time ou cooperação. Deixe os empreendedores escolherem seus sócios.

Segundo, em grande parte dos casos, quem tem a “ideia” do negócio, ou seja, quem escolhe se será um negócio de costura, alimentação ou artesanato é a própria prefeitura. Novamente, se coloque no lugar do microempreendedor e pense: Você se sentiria dono de uma ideia/oportunidade de negócio que não foi identificada por você? Sem “autoria”, não há “sentimento de dono”, e o compromisso é menor. Estimule os empreendedores a identificarem oportunidades e terem suas próprias ideias. Ajude-os a refletir sobre elas.

Terceiro, todo empreendedor e negócio cresce à medida que amplia seu conhecimento e experiência sobre o produto/serviço e setor em que atua, assim como à sua rede de contatos, clientes e parceiros. E, em média, uma “curva de aprendizagem” e tempo para formar essa rede leva pelo menos dois anos. Ou seja, não é com apenas um ou dois cursos de corte e costura que os microempreendedores estarão aptos a atuar com sucesso no mercado. É preciso proporcionar um desenvolvimento contínuo de competências e experiências. E também investir na promoção e formação dessas redes de clientes e parceiros.

Quarto, faça as contas! Quanto que um negócio tem de gerar de vendas e lucro para gerar R$ 600 por mês por pessoa, quando falamos em grupos de dez, 20 ou mais pessoas? Não é no primeiro, segundo ou décimo mês que isso será possível. Com isso, as pessoas desanimam. E, quando o grupo está com quatro ou cinco pessoas, as prefeituras desistem de apoiá-lo, justamente quando os mais comprometidos ficaram e o negócio poderia ser viável financeiramente. Lembre-se que 50% dos negócios fecham até o seu segundo ano de operação. E que praticamente todo empreendedor e negócio que hoje é grande um dia começou pequeno. “Small is beautiful!” É uma regra da natureza! Não lute contra ela!

Quinto ponto. Prefeituras, não é por que as pessoas são de baixa renda que não têm sonhos, talentos e potencial! Portanto, ao invés de despejar máquinas e cursos básicos de costura e cabeleireiro, por que não fazer uma análise de mercado, de oportunidades existentes? E identificar competências que permitam desenvolver negócios que gerem mais valor agregado, seja em turismo, computação ou serviços. Ao invés de “preguiça mental” e de apenas fazer mais do mesmo, pesquise casos exemplares no Brasil e no mundo de programas de sucesso liderados por prefeituras, empresas e ONGs e as copie e leve para seus municípios.

Sexto, se um empreendedor de classe média e alta em geral com curso superior completo, quando tem orientação para seu negócio a recebe de pessoas e consultores especializados, imagine um microempreendedor de baixa renda que pouco acesso teve à educação formal! Mais do que um assistente social, esse empreendedor também precisa de gente com experiência em gestão e empreendedorismo que saiba traduzir esses conceitos e exemplos em uma linguagem e ritmo próximos à realidade do microempreendedor. Se você não achar ninguém assim, forme! Muitos jovens recém-formados ou universitários querem mudar o mundo e esta pode ser uma boa oportunidade para eles começarem a fazer isso!

Sétimo e último ponto! Tenha paciência, humildade, curiosidade e não desista! Paciência é necessária porque competências, talentos, redes e negócios levam tempo para se desenvolver. Lembre-se de quanto tempo você passou estudando para saber o que sabe. Humildade e curiosidade para não atuar de forma arrogante e manter seu ouvido e cabeça aberta para aprender sempre e de todo o lugar, criar soluções e aprimorar o que faz. Se não desistir antes da hora, deixará um legado para sua cidade e sua população.

Prefeituras são um ator chave para o estímulo e desenvolvimento do empreendedorismo. Elas têm ampla capilaridade, capacidade de investimento para ações de escala, boa legitimidade junto às comunidades e capacidade de mobilizar suas secretarias e parceiros para iniciativas com empresas, ONGs e universidades.

Com o conhecimento e a intenção certas, prefeituras podem ser um ator fundamental e fazer com que a sua cidade seja uma cidade que tem ideias, estimula e realiza sonhos, atrai e desenvolve talentos, gerando empregos, renda e tornando a cidade mais atrativa e desenvolvida para todos.