Luzes que Transformam

Relato publicado em 12/04/2013 no site da Folha de São Paulo

http://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/colunas/1261787-luzes-que-transformam.shtml

“É o tempo do homem voltar para sua origem. Para a terra. O nosso coração. Olhar a terra. Saber amar uns aos outros, saber se respeitar. Buscar alianças, se solidarizar.” Pajé Yawa, 99 anos

Milhares de visitantes de todo o mundo estão em Milão até domingo participando da Semana de Design, principal evento de design moveleiro do mundo. No meio de tantas cadeiras e tendências brilha uma luz diferente, uma luz forte e brasileira, que espalha passado e futuro, floresta e humanidade, em meio a tanta moda e praticidade.

Essa luz vem de longe, da aldeia Yawanawá, que fica no município de Tarauacá, no Acre, no meio da selva amazônica. Para chegar lá de Rio Branco, só depois de dez horas de estrada e mais outras oito horas de voadeira, um barco pequeno com capacidade máxima de cinco pessoas.

Resultado do resgate da cultura e tradições Yawanawá, misturadas com uma série de talentos que vão do design à permacultura, culinária ao empreendedorismo, a linha de luminárias Yawanawá foi cocriada e produzida pelos índios e pela equipe do projeto AGT — A Gente Transforma, para, assim que voltar de Milão, ser comercializada para todo o Brasil através da rede de lojas La Lampe.

POVO QUASE EXTINTO

Os Yawanawá vivem na parte sul da Terra Indígena Rio Gregório, em 220 mil hectares da Floresta Amazônica, localizada no município de Tarauacá. O “Povo da Queixada” (yawa/queixada; nawa/gente), vive às margens do Rio Gregório desde os tempos imemoriais.

Um povo quase extinto nos anos 70, após anos de exploração no contato com desbravadores, missionários e seringalistas, foi primeira terra indígena a ser demarcada no Acre. Uma história marcada por luta pela liberdade, resgate de tradições e pioneirismo no reconhecimento de suas terras.

No melhor sentido do que hoje chamamos de “economia criativa” (ou seria abundância criativa?) e “negócios inclusivos”, todo o processo partiu de um olhar e um fazer sistêmico e colaborativo, gerando um impacto que, para além da “geração de renda”, restaura e valoriza a cultura e a memória de tudo o que já existe na comunidade, religando o passado com o presente na construção de um futuro mais digno e vibrante.

Mais do que a criação e venda dos produtos, o AGT contribui para a preservação e disseminação da rica cultura e tradição Yawanawá tanto para dentro como para fora da comunidade e do Brasil, sendo a coleção de produtos apenas uma “desculpa” e passo inicial que materializa este processo de reconhecimento e reconstrução das tradições e autoestima de um povo.

E ao mesmo tempo denuncia anos de dificuldades e perda de cultura enfrentadas por este povo em nome de um “desenvolvimento” de seringueiros, criadores de gado ou missionários religiosos.

No caso da Aliança Empreendedora, fomos convidados pelo designer e empreendedor social Marcelo Rosenbaum a participar do projeto AGT, com um desafio ao mesmo tempo imenso e irresistível: apoiar o empreendedorismo, desenvolvimento e gestão de negócios com os índios Yawanawá, que ao todo são cerca de 700 pessoas divididas em aldeias.

TIME MULTIDISCIPLINAR

Para nós, esta era uma experiência única e até então inédita. Nunca havíamos trabalhado com uma aldeia indígena nem em um time tão multidisciplinar como o do AGT.

Só para você ter uma ideia, além da Aliança, o AGT Yawanawá foi realizado com a participação de três escritórios de design (Rosenbaum, Nada se Leva e Fetiche Design), a chef Ana Luiza Trajano (atuando na pesquisa e resgate da culinária tradicional), a diretora de arte Fabiana Zanin, o fotógrafo Lucas Moura e a astróloga e escritora Lydia Vainer, registrando todo o processo. Além dos arquitetos Henrique Pinheiro e Bruna Riscali, que atuaram na formação dos índios em permacultura e colocaram a mão na massa construindo banheiros secos na aldeia.

Como multiplicadores e membros de outros AGTs, os empreendedores e líderes comunitários Marcilene Lusia Barbosa, de Várzea Queimada (PI), e Geovane da Silva Melo, do Parque Santo Antonio (SP), participaram compartilhando suas experiências nas duas edições anteriores do AGT.

Nossa missão como Aliança era apoiar os Yawanawá no processo de produção, gestão e comercialização das luminárias, que seriam criadas pelos índios em conjunto com os designers da equipe do projeto.

Chegando lá acabamos por ter várias surpresas. Por um lado, encontramos uma incrível riqueza cultural e inteligência nos Yawanawá; por outro, vimos que, mesmo com acesso à internet (via rádio por meio de geradores) e com vários dos jovens índios com perfis no Facebook, a situação de moradias e saneamento são precários e geram doenças na comunidade.

Além disso, pouquíssimas pessoas sabiam o que era uma empresa, não havia outra atividade que fossem geridas ou pensada como negócio e havia um grande receio do impacto que “negócios” ou “dinheiro” podiam gerar na comunidade. Segundo palavras de sabedoria do próprio cacique, existem três coisas que separam os índios e podem afetar o convívio da comunidade: a bebida (alcoólica), a televisão e o dinheiro.

Nesse contexto, tudo o que havíamos “planejado” em termos de conteúdos e atividades relacionadas a gestão e empreendedorismo teve de ser reconstruído e transformado diariamente. E, mais do que ensinar algo, tínhamos primeiro que ouvir para aprender e compreender mais sobre a rica cultura e visão de mundo.

Esse movimento acabou por gerar um novo processo, híbrido, que integrou a cultura empreendedora com a cultura e os valores Yawanawá. Nesse sentido, o “empreendedor” virou um “caçador”, e a gestão de um “negócio” foi trabalhada a partir das práticas que já utilizam para a gestão de sua aldeia por exemplo.

DESENHOS E GRAFISMOS

Ao longo de 15 dias de atividades, reuniões e alinhamentos diários no final de cada tarde com os índios e a equipe do projeto, dezenas de luminárias foram criadas com os mais diversos materiais, como palha, madeira e miçangas, e todo o processo de concepção, definição de negócios, áreas e processos de gestão dos negócios dos Yawanawá foi desenvolvido. Ao todo, 78 índios artesãos participam da criação e da produção das luminárias, e 80% do valor gerado pelas vendas das mesmas é de propriedade dos Yawanawá.

Todas as luminárias foram desenvolvidas a partir dos “Kenes”, variadas manifestações de tudo o que nossa mente e visão podem captar, que, em um sentido mais palpável, tornam-se desenhos e os grafismos expressos nas pinturas de corpo e no artesanato das miçangas, lembrando formatos de animais e formas geométricas. Foi a partir desses desenhos e da sua intersecção com os mitos, técnicas ancestrais e convívio com a floresta que as luminárias foram tomando forma.

Além das luminárias, esse processo de formação e apoio em gestão e empreendedorismo estruturou outros potenciais “negócios” já existentes na aldeia, como o Festival Yawa, realizado anualmente, assim como na venda de produtos como pulseiras, tiaras e lanças produzidas pelos Yawanawá.

Como base e princípio de todo o trabalho estava a nítida clareza de que todos esses “negócios” e a “renda” gerada não seriam nunca um fim em si mesmo, mas sim meios e instrumentos para disseminar e fortalecer a cultura, a estrutura e a qualidade de vida do povo Yawanawá e da Aldeia Nova Esperança. Ao invés da aldeia estar a serviço dos negócios, eles é que estão a serviço do que é melhor para a aldeia.

TRANSFORMADOS

Das 30 pessoas que participaram do A Gente Transforma, praticamente todos voltaram transformados. Em todo o AGT a prática e o sentimento de troca, aprendizagem e construção conjunta foi incrível e teve como resultado uma máquina de criatividade.

Para mim, particularmente, foi transformador perceber e sentir o enorme senso de “comunidade” dos Yawanawá, algo raríssimo de ver em grandes cidades. Suas práticas e dia a dia tornam os Yawanawá uma “grande família”, algo que realizam e cultivam nos rituais, cantos e nas reuniões diárias matinais onde os e as chefes de família reúnem-se na casa do cacique para discutir questões da comunidade.

Me transformou conhecer e poder experimentar o dia a dia e os valores dos Yawanawá, compreender sua visão sobre o mundo, a natureza e o sentido de viver. Ao invés da preocupação e constante “correria” e insegurança do mundo urbano, onde todos estão sempre “correndo atrás” de algo como um currículo, um cargo ou um salário melhor, a cultura Yawanawá ensina a viver bem e intensamente o presente, sempre lembrando de suas origens e antepassados, ao mesmo tempo que tem a missão de preservar e fortalecer sua cultura para o futuro.

Ser Yawanawá é sempre buscar se conectar com o “criador que é e está em tudo” e se dedicar principalmente a buscar ser uma pessoa melhor, diariamente.

Finalmente, fiquei também transformado e muito feliz em relação ao futuro da cultura e da aldeia Yawanawá, que a cada dia se fortalece.

A evasão de jovens das aldeias é praticamente inexistente, e prova disso são os 11 jovens que, mesmo formados em universidades e com “oportunidades” na cidade, optaram por voltar e viver para o futuro da aldeia.

Muitos jovens Yawanawá hoje se preparam para se tornar pajés, caçadores e curandeiros. Para isso, além dos rituais, danças e cantos, realizam “dietas” (períodos de provações diversas como ficar isolado por três meses na floresta sem se alimentar praticamente) para fortalecer corpo, mente e espírito.

De volta à cidade, à minha casa e ao escritório, sei que não só eu como todos voltamos diferentes. Mais do que ensinar, aprendemos. Mais do que criar negócios ou renda, contribuíamos para a disseminação da maior riqueza que os Yawanawá criaram: sua cultura e modo de vida.

Uma experiência transformadora que não esqueceremos. E que está apenas começando.