A Tragédia do Museu Nacional

Cessem do sábio grego e do troiano, as navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandre e de Trajano, a fama das vitórias que tiveram”. É com esses versos que Camões enobrece as grandes navegações, um dos momentos mais importantes da história do povo lusitano. Com essa breve introdução, o objetivo desse artigo é repensar quais foram as causas que levaram o povo lusitano a se aventurar no Mar Oceano, sem a expectativa de volta para casa. Somente por meio de um bem é que as dores e angústias poderiam ser superadas e, com isso, estabelecer um grande feito. A propagação da fé cristã, profundamente arraigada na sociedade portuguesa, foi o motivo pelo qual os portugueses iniciaram a grande aventura dos descobrimentos.

A fé católica elenca três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. A fé é a virtude necessária para conhecer o Deus revelado. Sem ela, não seria possível estabelecer uma relação com o criador e, consequentemente, não haveria caminhada espiritual. Uma vez que se conhece o criador, o próximo passo amá-lo de volta, uma vez que Deus nos ama profundamente. A virtude da caridade é aquela que, comprometida com a verdade, deseja realizar o bem, mesmo que a carne sofra. Para que isso fosse possível, Deus precisou revelar a vontade dEle, apontando qual era o caminho para amá-lo. Por essa razão, a fé cristã ensina que o cristão deve cumprir os mandamentos e seguir o que ensina a Santa Madre Igreja. Por fim, a esperança é a virtude que nos é necessário para que, ao longo dessa árdua caminhada, não se perca a alegria e as disposições de travar o bom combate.

Ora, d. Afonso Henriques, o fundador de Portugal, recebeu a instrução de Nosso Senhor Jesus Cristo para se separar dos domínios de Castela e lançar-se a propagação da fé cristã pelo mundo. Nesse sentido, uma vez terminada a fase de reconquista da Península Ibérica dos mouros, o próximo objetivo era fazer todo o mundo conhecido e desconhecido saber a Palavra da Salvação. Foi com essa premissa que o Império Português lançou-se na aventura marítima e não para obter ganhos comerciais. A tese de Immanuel Wallerstein não se sustenta, uma vez que os bens materiais foram consequências da propagação da fé e não causa. Os marinheiros portugueses saiam de seus lares, pois desejavam que a Cristandade, como elucida Camões, fosse aumentada.

Durante o processo de expansão do Império Português, muitas tragédias aconteceram, testando os limites da força humana. Nesse sentido, a tarefa só poderia ser completada com as virtudes cardeais da fortaleza, temperança, justiça e prudência. Foi necessário fortaleza para que Bartolomeu Dias cruzasse o temível Cabo das Tormentas (agora Cabo da Boa Esperança); A temperança de Manuel I, rendendo o título de Venturoso; a justiça de Pedro Álvares Cabral no relacionamento com os indígenas, narrado por Pero Vaz de Caminha. Esses homens virtuosos construíram uma nação, seguindo o firme propósito de respeitar e honrar o mandamento de Nosso Senhor Jesus Cristo para o pai fundador de todos os portugueses. Sem as virtudes cardeais e teologais, seria impossível construir todo o edifício lusitano.

A vocação lusitana foi transmitida para as novas terras colonizadas. A Terra de Vera Cruz, pelo nome, já representa o elemento mais importante a ser construído. Por essa razão, no dia 26.04.1500, foi realizada no Brasil a primeira missa, contando com a presença de centenas de índios que, mesmo nus, foram chamados para contemplar o sacrífico de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nascia o Brasil e, com ele, a vocação herdada dos portugueses. A partir daquele dia, os habitantes desse vasto território deveriam ser catequisados, já que é necessário aprender a doutrina do Mestre e os ensinamentos da Santa Igreja Católica. Nesse sentido, a Companhia de Jesus realizaria uma obra de fundamental importância, exemplificando a santidade de Santo Inácio de Loyola, cuja defesa da verdadeira fé apostólica, rendeu-o o título de santo do Concílio de Trento.

A construção da civilização no Novo Mundo é fruto do espírito aventureiro com a fé católica. Esses elementos ajudaram a formação de homens de Estado, cujo objetivo era a construção e transferência de todo o conhecimento da Europa e, assim sendo, ampliando a civilização ocidental. No Brasil, essa tradição permaneceu firme no imaginário popular durante séculos. Homens como Alexandre de Gusmão, José Bonifácio, Francisco Adolfo de Varnhagen e Bernardo Pereira de Vasconcellos foram fundamentais para a construção política, geopolítica e identitária nacional. O pensamento intelectual brasileiro florescia com esses grandes pensadores que não deviam nada para George Washington, William Pitt e Clemance Von Metternich. O brasileiro, segundo Luis Felipe de Orleans e Bragança, tem todas as condições de ser o novo ateniense, mas, para isso, é fundamental conhecer a história e a alma nacionais.

Concomitante a esse processo político, econômico e intelectual, os brasileiros sabiam da importância de deixar os feitos, conquistas, informações e avanços documentados. O Museu Nacional, criado, em 1818, tinha o propósito de ser o repositório dos desenvolvimentos da Civilização Ocidental. Para além dos artefatos armazenados, o Museu simbolizava a presença do Brasil no concerto das nações. À medida que o Brasil tomava corpo, ficava independente e iniciava, com o Manifesto às Nações Amigas, as relações internacionais, o Museu serviria como farol para iluminar a mente dos novos estadistas. Seria, juntamente com o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro e o Colégio Pedro II, os instrumentos necessários para a consolidação do Brasil entre as maiores nações do mundo.

No final do século XIX, no entanto, a história do Brasil começa a ser contaminada com ideologias estranhas ao pensamento nacional. Nesse sentido, a história do Brasil no século XX, excetuando-se intelectuais como Plínio Correa de Oliveira, Gustavo Corção, Mário Ferreira dos Santos e Olavo de Carvalho, foi uma história de derrocada dos valores morais, religiosos e sociais. Com isso, a esquerda que, desde a década de 1920 estava estabelecida no Brasil, iniciou o processo de tomada de poder. No final do século XX, o resultado de todo esse processo é uma sociedade desarmada intelectualmente, fraca espiritualmente e com muitas dificuldades de combater às forças do mal. O incêndio do Museu Nacional é o ápice de todo o processo de destruição cultural que o Brasil vem sofrendo nos últimos 120 anos.

Que o Museu Nacional seja compreendido como um mártir, uma vez que o descaso na manutenção foi gritante. A república, contaminada com esquerdistas, positivistas e relativistas, preferiu apoiar peças como o Queer Museum e a exposição no Santander. Urge que os brasileiros tomem a consciência de que o Brasil é fruto de um processo histórico baseado em virtudes e, não, em ideias revolucionárias.

Rodrigo Müller Do Valle

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