Você já sentiu raiva do seu filho?

Essa é uma pergunta que causa incômodo, não é?

· “Como se atreve a me perguntar um negócio desses? ”; ou

· “Sim, muitas vezes! E não tenho nenhum problema em falar sobre isso. ”

Pois é, as reações podem ser diversas. E eu ainda vou provoca-los mais um pouquinho. Quero pedir que, por 5 segundos, sintam raiva deles.

Eu PROMETO, de verdade, que explicarei o motivo dessa proposta, como também não deixarei vocês, mamães e papais, sofrendo por isso. Combinado?

Sentimentos que nada têm a ver com o amor

É comum que vocês, pais, fiquem chocados ao descobrirem que podem nutrir pelos seus filhos, outros sentimentos que não seja somente o amor.

Partindo da raiva, uma emoção comum a todos nós, encontramos algumas variações como: irritação, impaciência, amolação, azucrinação, aporrinhação, braveza, agressividade, ódio (calma… não se assuste, pois tudo vai acabar bem):

· Primeiro, digo que a raiva também é uma emoção boa. Esse sentimento, quando bem direcionado, é um grande mobilizador de ações. Faz com que haja movimento, criação, e por aí vai.

· Segundo, a raiva diz respeito a frustração. E não se sentir frustrado, exige um alto grau de amadurecimento, digamos… quase “divino”. Além disso, é impossível chegar a esse estágio da maturidade durante a chegada do primeiro filho (a).

Imagine só quando um “pacotinho” cheirosinho, que sorri, chora, dorme, come, faz cocô, é colocado nos braços de vocês pela primeira vez? Dentre muitas perguntas, talvez a mais frequente seja:

“O que eu faço agora? ”. Ops!

Olha ai a primeira frustração! Talvez até haja raiva de si mesmos por sentirem-se tão “incapazes” nesse momento.

Paradoxo na criação dos filhos

Se há uma coisa bela nisso tudo, é o adorável instinto dos pais em fazer a coisa certa, dividindo espaço com culpa por fazerem coisas erradas.

É um paradoxo, mas acreditem: seus filhos e vocês se sairão bem.

Voltando à raiva, uma coisa que vai mudar e favorecer para que essa emoção aflore, é o ambiente. Não pense que a sua casa, sua mobília, aqueles brinquedos dos filhos mais velhos irão escapar.

Tentar preservar sua casa, os cômodos e demais locais físicos, talvez se refira a tentativa de preservar quem vocês são ou eram, antes do nascimento do pequenino ou pequenina. E olha… não há nada de errado nisso!

Essa é uma análise simbólica, subjetiva, intangível, pois é assim que a psicologia funciona, indo de dentro para fora.

As mudanças começam em 3, 2, 1…

Os 9 meses não servem apenas para que o bebê se desenvolva e prepara-se para vir ao mundo, mas para que os pais também se preparem e sintam-se confiantes para uma grande mudança emocional, que vai além do corpo e dos espaços da casa.

Ninguém precisa ser mais “isso” ou “aquilo”. Apenas sejam, combinando momentos. Se os filhos são uma mistura das características genéticas entre mãe e pai, porque as mudanças no ambiente não podem ser uma combinação dos três: mãe, pai e filho?

Para as crianças, é impossível conservar em suas mentes uma lógica, uma ordenação constante sobre suas ações. Quando a tentativa disso ocorre, é sempre uma grande afobação por parte dos pais:

“Vou arrumar toda a sala, cuidando para ele (a) dormir. Enquanto isso, pega o telefone e vai ligando para algum delivery para pedir comida. Vamos comer rápido, pois amanhã temos que trabalhar… já é tarde, olha a hora! ”.

Ufa! Que correria.

Sabemos muito bem que todo trabalho tem sua dose de frustração, irritação, chateação. Dessa forma, por qual motivo imaginamos que cuidar dos filhos também não terá uma carga dessas emoções e sentimentos?

É claro, é muito fácil determinar o trabalho dos pais e opinar sobre a relação que deveriam ter com seus filhos; contudo, passando por cima de julgamentos, ensinamentos e doutrinas, sintam raiva sim. E PONTO!

A raiva sentida de nossos filhos, também mostrará para você como é impossível deixar amá-los.

Lembrem do exercício inicial: talvez tenham sido os 5 minutos mais dolorosos dos últimos tempos; talvez isso nem tenha sido cogitado; talvez vocês estivessem nessa vibe raivosa durante o início da leitura desse artigo… enfim! Não importa.

Se existe uma coisa capaz de “sobreviver” a culpa por sentimentos como esse, é a clareza sobre o motivo pelo qual ele emergiu, e porque estão fazendo isso.

Talvez não seja o filho, mas nós, pais (eu me incluo nisso) que ainda precisamos de mais um tempo de adaptação às mudanças. Não da casa; do quarto; do salário; da escola e tal; mas da nossa disponibilidade em estar presente, suportando situações frustrantes e convivendo com outras maravilhosas também.

Uma delas a capacidade natural — suficientemente boa — que cada pessoa, cada um de vocês, mamães e papais, têm em serem pais.

Um abração para todos,

Rodrigo Moreira.