Caldo de Peixe (Ou "Ninguém Duvida do que é Padrão")

Recentemente, eu realizei um sonho: fiz uma viagem ao Japão. Na companhia de pessoas queridas, visitei a Terra do Sol Nascente, onde tivemos todo tipo de experiência interessantes e interagimos diretamente com uma cultura distante de nós em maneiras bem maiores do que a viagem de cerca de 24 horas de duração (sem contar o tempo entre escalas) e as 12 horas de diferença de fuso horário.

Eu poderia escrever inúmeras histórias e falar longamente sobre minhas experiências naquele país, onde aprendi muito sobre muitas coisas, inclusive sobre mim mesmo e sobre os outros. Eventualmente, espero realmente falar longamente e contar essas histórias. Mas agora quero falar sobre caldo de peixe.

Na verdade, quero falar sobre comportamento humano, mas acontece que caldo de peixe é uma ótima maneira de falar sobre comportamento humano.

É justo começar esse relato com a informação de que não me alimento com carnes. E sim, isso inclui também peixe. Do grupo de cinco viajantes, eu não era o único adepto do vegetarianismo — Mariana Rolin, amiga minha de longa data, tem uma dianteira de uns bons anos nessa frente, com toda a experiência que isso traz. Quando partimos na viagem, nós estávamos preparados para tomar todo tipo de precaução, mas nada poderia ter nos preparado para o Japão.

Japoneses gostam muito de peixes. Sendo um país insular, é natural que a pesca fosse historicamente uma atividade básica do povo japonês e, junto disso, o consumo de peixe. Somando a isso o histórico de guerras — e a carga de privações que elas trazem -, eles também têm a característica de tantos outros povos de aproveitar tudo que podem como matéria-prima e desperdiçarem muito pouco.

Desse modo, japoneses são extremamente adeptos da alimentação com caldo de peixe. Ou, como logo aprendemos em japonês, em nome de nossa sobrevivência, “dashi”. Boa parte da culinária tradicional japonesa leva peixe ou algum fruto do mar, mas quando não leva, é quase certo que levará dashi. Para nossa surpresa, até mesmo o aparentemente seguro omeletinho servido em basicamente todas as casas de sushi do país levava dashi.

Quando não havia dashi, havia “katsuo” (“bonito”, um parente do atum geralmente servido ressecado e em pedaços e chamado de “katsuobushi”). Quando não havia dashi ou katsuo, havia caldo de galinha ou de carne bovina ou até mesmo de ostra. As misturas surgem de maneiras alternadamente óbvias e discretas, mas sempre de modos que impossibilitam a alimentação de um vegetariano, já que muitas vezes fazem parte de caldos e da massa dos alimentos de modo que não há a opção de “pedir para tirar”. Conseguir tomar lámen vegetariano requereu paciência, peregrinações pelas ruas de Kyoto e filas nos dois restaurantes em que nos aventuramos.

Percebemos que estávamos em um campo minado quando nem mesmo as compras em supermercado eram seguras: uma alternativa alimentar que já foi integrada ao dia-a-dia do japonês é o curry. O empréstimo da Índia, imaginamos, certamente teria todo tipo de garantia e facilidade, dado o vegetarianismo do país. Mas bastava ler os ingredientes atrás dos rótulos para entender que era a minoria dos produtos que não levava algum produto de origem animal em sua mistura. O padrão dos caldos (aqui, de carne ou frango) havia contaminado até mesmo o curry.

No meio da viagem, enquanto tentávamos garantir a paciência dos carnívoros do grupo e não depender dos mesmos pratos repetidamente — quem pensa que vegetarianos só comem comida saudável nunca teve que sobreviver à base de carboidratos e fritura por pura falta de opção -, Mari me apresentou uma ideia que foi e continua sendo extremamente útil para meu entendimento da humanidade.

Seus anos de experiência com vegetarianismo já a haviam deixado acostumada a certa versatilidade, especialmente morando na Irlanda, onde frequentemente recorre a “opções” vegetarianas nos restaurantes que frequenta.

As aspas ficam pelo sarcasmo que ela deixa explícito a cada menção desse termo, especialmente porque geralmente a “opção” vegetariana é um único prato sem carnes em um cardápio inteiro. “Se eu só tenho uma opção, não é uma opção,” reforçou ela na primeira vez que falou a respeito disso. O Japão havia invariavelmente levantado esse assunto, com todas essas questões, mas até mesmo para ela era uma experiência inédita não encontrar opção (ou “opção”) alguma em uma rua repleta de restaurantes. Em um momento de frustração, ela desabafou: “Poderiam só não colocar dashi em tudo?”

A resposta que infelizmente tivemos foi a seguinte: eles poderiam, mas não poderiam.

Claro, a culinária japonesa é rica o suficiente em ingredientes e técnicas para criações fantásticas para vegetarianos, mas acontece que eles não precisam pensar nisso, então eles não pensam nisso. O dashi é tão básico na culinária deles que ele se torna o óbvio, padrão. E ninguém duvida do óbvio. Ninguém duvida do padrão.

Mesmo na mais cosmopolita das cidades japonesas, vegetarianismo é um conceito que pode ser considerado alienígena para muitos. Quando questionamos a esse respeito, recebemos a resposta vaga que japoneses não ligam muito para vegetarianismo porque “culturalmente são acostumados a não deixar sobrar nada no prato“, o que é uma resposta que não faz sentido algum, se você considerar que é possível não ter o peixe (ou qualquer outro bicho) no prato, para começar.

Nossa hipótese era que, como tantas outras coisas que as pessoas não pensam, eles simplesmente não pensaram nisso porque não precisaram pensar nisso. Faz muito mais sentido, para mim, se observarmos que a maior parte dos locais que tinham variedade de comida vegetariana eram de origem ou foco estrangeiro, como alguns restaurantes indianos que chegamos a visitar.

Saindo brevemente da presença e da ausência de carnes, o episódio deixou uma lição muito mais clara: o padrão é perigoso porque ele é invisível. O padrão nos deixa fazendo coisas que nem percebemos que fazemos, nos deixa fazendo coisas que nem sempre são necessárias, simplesmente porque nós nos acostumamos a fazer. Você já pensou nos hábitos que tem? Quantas rebarbas e exageros — ou falhas e ausências — você tem que podem simplesmente serem padrões que você se acostumou?

Me lembro de um episódio inócuo, mas que me foi extremamente forte: se você conviver comigo, como com qualquer outro ser humano, você irá observar que tenho vários hábitos e peculiaridades específicas. Uma delas é um hábito que começou como uma piada, mas que passou a fazer parte do meu repertório de interações: por vezes, depois de confirmar uma informação com uma pessoa, eu sorrio, aponto os indicadores com os polegares para o alto, como se fossem armas, e piscando um dos olhos estalo a língua contra os dentes. Soa ridículo, e realmente é um pouco, mas as pessoas levam como brincadeira, já que o hábito só surge em momentos de brincadeira.

Me lembro de uma ocasião em que uma amiga do trabalho foi me imitar e repetiu o gesto. Eu me surpreendi com aquilo, pois não lembrava de nunca ter feito essa brincadeira com ela. Quando questionei, ela respondeu, surpresa: “Rodrigo, você sempre faz isso.” Outras pessoas confirmaram. Eu sempre fazia aquela brincadeira com eles, e estava tão automatizado que não me lembrava de nunca tê-lo feito naquele ambiente.

Imagine que outros hábitos eu não devo ter agregado à minha vida em tantas outras áreas? Imagine quanto caldo de peixe metafórico não existe nos omeletes metafóricos da minha vida?

Voltando ao presente, pouco dias depois da minha viagem ao Japão, já no Brasil, me deparei com outra situação absurda na Páscoa: vi inúmeros amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos discutindo longamente na vida real e na Internet seus planos de comer peixe em vez de carne na Sexta-Feira Santa. As conversas eram movimentadas, muitas com certo desespero e outras com uma empáfia única.

Vendo aquilo, pensei algo que muitos vegetarianos certamente já pensaram no decorrer da história: mesmo para quem come carne habitualmente isso nunca era uma preocupação em nenhum outro momento. Pense bem — comendo ou não carne, sempre existem opções hors concours, como uma boa e velha macarronada com molho de tomate.

Mas não — o padrão de Páscoa é outro: ninguém está pensando em “não comer carne”, mas sim em “como é que eu vou substituir a carne que eu poderia comer hoje?” Encontrou o erro? O hábito é tão incutido, e ao mesmo tempo invisível, que ele cria um novo processo e até uma nova demanda. Se a carne não fosse proibida, pode ser que o prato do dia tivesse sido a tal macarronada e ninguém teria sentido falta. Sem falar que, para muita gente, o hábito chegou a evoluir para outro patamar — não basta não comer carne e ter que comer peixe, o peixe deve ser bacalhau. Engraçado, não?

Proponho um exercício. Ele é difícil, especialmente por algo de que não pensamos, mas pegue algo que está automático — a maneira que você fala, ou como dirige, ou como escreve — e disseque esse gesto. Passe dias prestando atenção nele. Encontre os erros, as sobras e até os pontos positivos. É surpreendente, eu garanto.

Ah, e se tiver um restaurante, ofereça opções vegetarianas. Chega de dashi e de carnes escondidas. Obrigado.

Rodrigo Ortiz Vinholo

Written by

Publicitário, jornalista, escritor e pessoa estranha.

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