Minha aventura estilo ‘Goonies’

Todos que assistiram Goonies quando criança devem ter se imaginado naquela situação. Dentro do plausível, eu tive um dia assim na minha infância. Não. Não teve pirata, tesouro, ou família de bandidos, mas foi tão legal quanto porque foi real pelo menos.

Eu devia ter no máximo 10 anos e todo dia saía pra jogar bola na rua. A cidade era pequena e não tinha outras opções de lazer, então quando um da turma propunha algo diferente nós topávamos (para de pensar besteira, nível Goonies aqui poxa…). Não lembro quem teve a ideia mas a propaganda foi boa.

— Galera, tem um lago atrás daquele canavial, que é muito da hora, foda, o lago mais da hora do mundo. É pertinho, vâmo? (É assim que criança fala)
No momento devíamos estar em uns dez ali brincando. Todos toparam, inclusive um pequeno que devia ter seus seis anos no máximo. O irmão dele ordenou para ele ficar mas ele foi mesmo assim (Ele volta pra história em breve ensinando uma lição).

Na hora não pensamos em consequências, só ficamos empolgados e saímos andando. Um rolezinho rural infantil, se preferir. Logo de cara tivemos que cruzar um sítio. Quando estávamos na metade o nosso guia disse: — Mora um homem louco aqui. Ele não gosta que entra aqui não. Ele corre atrás com um facão. É o Jaco.

Pausa. Todos o encaram e se borram de medo internamente, mas já que estávamos na metade compensava continuar. Alguns instantes depois um grito: — O JACO!!!

Imagem aproximada do momento

(PS: Não é Jacó. É Jaco mesmo)

De fato, lá em cima do morro descendo ferozmente vinha uma figura com a fúria do Cerberus e a faca do Jason na mão. Todos correm desesperadamente e provavelmente mais rápido pois o excremento líquido que por nossas pernas escorria nos fazia deslizar morro abaixo.

A saída daquele sítio era através de algumas árvores. Era só atravessar e estaríamos salvos. Não fosse por um colega que enroscou a camisa em um galho e fez o escândalo:

- ME SALVA! EU VOU MORRER! O JACO! SOCOR… ih, soltou. Corre!

Todos se salvaram. Não houve nenhuma baixa. Por enquanto. Pois nos aproximávamos de uma outra etapa.

(PS 2: Um tempo depois descobrimos que o Jaco era na verdade, deficiente mental, e que morava nesse sítio com a avó. Muito provavelmente só queria brincar e não possuía um facão. Mas enfim, não tira o encanto da história)

Nosso próximo obstáculo era um córrego, mas não era tão simples. suas margens eram elevadas há cerca de um metro do nível onde a água corria. uma espécie de vala. Não haviam pontes e o único jeito era pular. Pela minha memória não deve ter sido um salto de mais de um metro e meio, o que para nós equivalia a um salto olímpico.

Assim

O córrego não era fundo, devia ter no máximo três palmos de profundidade, mas no momento valorizamos ao ponto de acreditar que ele servia de esgoto para um curtume desovar material tóxico. Alguns saltaram tranquilamente, eu inclusive, mas um escorregou e quase foi “arrastado pela correnteza”. O salvamos, mas seu chinelo não teve a mesma sorte. Desceu o córrego, ilustrando o que nos aguardava caso caíssemos. Foi como encarar a morte.

Nossa baixa entretanto não foi o chinelo, mas sim aquele pivete de seis anos que teimou em ir. Ele não tinha tamanho suficiente para o salto. Tivemos que esperar seu irmão levá-lo embora e voltar. Um merecido descanso para a tropa.

À nossa frente estava uma grande caminhada, acompanhando toda a lateral de um imenso canavial. Um do grupo sacou uma faca (?!?) e com essa ferramenta fomos dando prejuízo ao dono da plantação. Nos hidratamos e consumimos açúcar ao mesmo tempo. A caminhada foi longa. Cerca de duas horas até chegarmos ao prometido oásis. E é óbvio que tinha um gordo na turma reclamando o tempo todo. No momento em que avistamos o nosso destino houve uma mistura de sentimentos como decepção, arrependimento, ódio, tristeza. Mas alívio e sucesso também. O local não era nada como na propaganda (aquecimento pra vida adulta!). Era uma poça d’água gigante. Só isso. Um pouco além, uma casinha toda destruída que ninguém teve coragem de chegar perto. Me arrependo de não ter indo investigá-la. Ou não.

Expectativa

Realidade

Enfim, fomos nadar né? Tá no inferno abraça o capeta. Uma água barrenta, suja, quase pastosa, que devia conter organismos vivos até hoje desconhecidos pela ciência. No fundo, uma areia que nos sugava pra baixo tal qual areia movediça de desenhos animados.

Apesar dos pesares, não lembro de uma memória da infância onde eu tenha me divertido tanto. Após passar o dia fora, voltei pra casa, reportei-me a minha mãe e disse que o trabalho de Matemática tinha ficado ótimo.


Importei esse texto do meu blog que não atualizo faz tempo. Vou tentar usar essa plataforma agora.

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