Kolimá é aqui?

Quando me propuseram ler Contos de Kolimá, de Varlam Chalámov, procurei na internet onde seria esse fim de mundo. Na wikipedia tem um mapa que diz, bem mais ou menos, onde fica. “Quase no Alasca” é uma boa aproximação.

É tipo por lá, naquela pontinha da Rússia.

Se você está se perguntando o que um escritor faria nesse fim de mundo, bem… era a época do Stalin no poder e ele estava cumprindo pena de trabalhos forçados em minas de ouro e carvão. Seu “crime”? Elogiar o escritor Ivan Búnin, que, nove anos antes, havia ganhado o primeiro Nobel em literatura da Rússia.

Para a sorte de quem gosta de bons livros, Chalámov sobreviveu e passou “apenas” dezenove anos escrevendo uma coletânea de seis volumes com histórias curtas sobre a experiência dele no gulag — Contos de Kolimá é o primeiro deles, e é excelente.

Como se poderia esperar, quase tudo que acontece por lá é um horror. Os bandidos comandam a prisão. Mata-se por um casaco. Come-se uma ração cientificamente calculada pelo governo, que nunca é suficiente. Não se fazem planos. Vive-se para trabalhar, pois não se consegue pensar. Trabalha-se até não poder mais — dezesseis horas por dia, até que a pessoa não tenha mais forças e caia doente ou morra.

O que me choca, porém, não é que tudo isso seja inimaginável, completamente distante da nossa realidade, como o nazismo. Ir parar numa câmara de gás é algo que podemos afirmar com relativa certeza que não acontecerá conosco. Porém, tirando o frio siberiano, nada do que está relatado por Chalámov é tão exótico.

Os bandidos aqui agem com ainda mais desfaçatez do que os ladrões de Kolimá, dentro e fora das cadeias. Se aqui ninguém morre por um casaco, morre por um tênis de marca ou um celular. Ou, pior, por não ter o tênis ou o celular que o bandido queria. Somos coletivamente obcecados em determinar com precisão calorias, a ciência nos informa o que são carboidratos bons e maus, gorduras boas e más, e tudo isso quase sempre com o intuito de não comer o suficiente — numa definição que li outro dia, emagrecer é fazer seu corpo consumir a si próprio. Se a comida produzida pelo planejamento central comunista tinha poucas calorias e poucos nutrientes, a produzida pelo livre mercado capitalista tem muitas calorias e poucos nutrientes — em vez de desnutridos esqueléticos, temos desnutridos obesos. Quem tem um emprego de 8 às 18 h muitas vezes sai de casa às 5h30 e volta só às 20h30 — ou seja, está quinze horas por dia em função do trabalho. Fora quem precisa de dois empregos para fechar as contas do mês. Fora ainda quem acredita em “sangue no olho” e quase sempre se consome em benefício de outrem. Planejamos de verdade pouco, nós, nossas empresas e nosso governo, embora muito tempo se desperdice com atividades com nome de “planejamento”. Não pensamos muito também — quantas grandes ideias vêm de brasileiros, quantos grandes livros? Só que em vez de embotados pela dor física e pelo frio, nossos cérebros sofrem com a feiura das nossas cidades (já tentou pensar algo relevante num ônibus? num engarrafamento?) e com o excesso de informação (vemos mais televisão e usamos mais internet que quase todos os povos do planeta). Se não temos minas de carvão para nos fatigar até a morte, temos aulas de cross fit.

O nível de horror na nossa vida é muito, muito menor do que aquele do gulag — e o livro deixa isso bem claro. Somos livres, vivemos em um país livre. Ninguém é considerado traidor por gostar ou desgostar de Paulo Coelho. Mas não incomoda que apesar disso os princípios de violência e opressão estejam por aí nos rondando?

Num dos contos mais bonitos do livro, Chalámov relata en passant que Deus teria criado a Sibéria, depois se cansado das cores simples de lá e ido embora para o sul. Lá então reina “a lei da taiga” — leia-se: essas coisas acontecem, mas são consideradas excepcionais. Nossa lenda conta justamente o oposto, Deus é brasileiro, então deve estar tudo tranquilo, tudo favorável.

Aqui não é Kolimá, mas, se fosse, talvez a gente nem percebesse.