A arte brasileira em Tomie Ohtake

Tomie Ohtake recebendo o Prêmio Probel de Pintura no Museu de Arte Moderna de São Paulo em novembro de 1960.

O ano de 2013 foi especial no âmbito das Artes Visuais, centenário de nascimento da maior pintora brasileira Tomie Ohtake. Seu ano de homenagens, que começou em Fevereiro com a exposição de suas pinturas recentes, fechou-se com a parceria entre Centro Cultural dos Correios e Instituto Tomie Ohtake para organizar a Exposição Coletiva “ Tomie Ohtake – Correspondências ” no Rio de Janeiro, reunindo suas obras e mais de 30 artistas brasileiros que se aproximam e conversam com os valores aplicados pela Artista.

Sob Curadoria de Agnaldo Farias e Paulo Myada a Mostra foi preenchida por pinturas, fotografias, vídeos, desenhos e esculturas. Cerca de 80 obras integram um conjunto de artistas, que segundo a Curadoria, nutrem similaridades à obra de Tomie Ohtake perante certos interesses comuns, sendo, a Cor, o Gesto e a Matéria. Encontra-se figuras como Oscar Niemeyer, Cildo Meireles, Paulo Pasta, Cadu, Waltércio Caldas, Alfredo Volpi, Israel Pedrosa, Cláudia Andujar, Leda Catunda e outros.

A exposição reuniu algumas anotações e colagens da Artista que revelam um mergulho sob as possibilidades pictóricas: recortes de revistas simulam texturas, brindam a Forma livre e sinuosa, que ganha a tridimensionalidade na sua escultura. Em grandes dimensões, sem títulos, as pinturas de Tomie permitem que os olhos passem pela Tela, sob as qualidades que a constituem: Cores vibrantes intercalam-se com opacas, equilibram-se, geram camadas, a Tela recebe massas de tinta ora espessas ora diluídas. É como se todas as propriedades da Pintura Moderna unissem-se para traduzir ideias, sentimentos, pesquisas e contar História.

“O gesto, a Cor e a Matéria tornam-se motes para observamos como diferentes obras de arte conversam entre si e se contaminam.” Os seis decênios de produção de Tomie Ohtake correm ladeados da recente história da arte brasileira e repercutem na obra de diversos artistas. “O confronto de artistas, mesmo aqueles que operem linguagens distintas, permite que se perceba, além do compartilhamento de problemas e as repercussões mútuas, que o geral do processo artístico é um jardim de caminhos que se bifurcam”. O gesto da mão presente nos desenhos de Waltércio Caldas e Oscar Niemeyer é correspondente às linhas sensuais encontradas na obra tridimensional de Tomie, sua escultura é limpa e sinuosa como a linha à mão livre. A investigação cromática de Israel Pedrosa na obra “Vermelhos em mutações cromáticas” (1961) encontra afinidade com sua pesquisa sob a cor, enquanto manifestação da luz. Poderia também citar outros abstratos presentes como: Leda Catunda, Alfredo Volpi e Paulo Pasta. No que diz respeito à Matéria, tinta sob Tela, destaca-se a presença volumosa de Flávio-Shiró e Carmela Gross; artistas que experimentam texturas, valendo-se de diversos suportes, criam camadas, isolam e sobrepõem massas de cores. “Aspectos que nossa homenageada soube levar a um nível de excelência”.

A Curadoria reuniu um montante de “obras que possuem algum parentesco estético, processual ou formal”. A exposição coletiva Tomie Ohtake — Correspondências “tornou-se um valioso espectro de observação de temáticas recorrentes na História da Arte de 1950 até hoje”. Uma festa que tem mérito especial na mão da Curadoria de Agnaldo Farias e Paulo Myada por aglomera um raro conteúdo, de tal relevância e sutileza. Sem dúvida, proporcionaram um momento histórico equivalente à magnitude da vida e obra de Tomie Ohtake.

Tomie Othake _ foto : Manoel de Brito

Nascida em Kyoto, Japão, Tomie “chegou ao Brasil como turista, aos 23 anos e acabou ficando no país por circunstâncias da Segunda Guerra Mundial, estabelecendo-se em São Paulo”. Inicia sua vida artística aos 40 anos, após constituir família, dedica-se a pintura de paisagens, logo depois o abstracionismo torna-se definitivo na sua produção. A obra de Tomie é fruto próprio da investigação solitária sob as propriedades da pintura; isolada no trabalho rotineiro, ao longo das décadas, explora as potencialidades da cor, enquanto Luz e Matéria [pigmento], encontra na forma abrigo e revela sua mão na obra através do gesto. Pincelada, cor e superfície. Apesar da proximidade estética com o Expressionismo Americano de Mark Rothko [Colorfield Painting], a proximidade geográfica com o Grupo Ruptura em São Paulo, sua pintura encontra-se em uma esfera muito particular e especial na História da Arte Brasileira.

* As citações foram retiradas do catálogo da exposição.

Texto desenvolvido para o curso “ Laboratório de Pesquisa e Prática de Texto em Arte” na EAV Parque Lage com orientação da profª Fernanda Lopes em 01 de Março de 2014.

Rio de Janeiro. Brazil