Millôr

Em 27 de março de 2012 o Mundo perdia a figura genial de Millôr Fernandes aos 88 anos vítima de um AVC. No ano seguinte o Instituto Moreira Sales tornou-se depositário de todo acervo do artista, cedido pelo seu filho Ivan Fernandes. Em 2014 foi o homenageado da FLIP. Desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, poeta, tradutor e jornalista, Millôr, esteve em constante atividade criativa de 1934 [ quando publicou seu primeiro desenho em “ O jornal” ] e 2011. Nesse período produziu uma obra fundamental para Arte e Impressa brasileira com inúmeros desenhos e textos publicados, colaborações pontuais como tradutor/dramaturgo e na comissão de frente do periódico “ O Pasquim” fundado em 1969.

Detentor desse acervo excepcional o Instituto Moreira Sales organizou a mostra “ Millôr : obra gráfica ” com curadoria de Julia Kovensky, Paulo Roberto Pires e Cássio Loredano. A exposição ficou em cartaz [ 16 de abr a 21 de ago ] no rio de janeiro com 500 desenhos originais do artista dispostos pelo maravilhoso espaço da instituição, que recebeu a intervenção de um projeto expográfico simples e extremamente refinado que só valorizava as obras, assinado por Alvaro Razuk Arquitetura e com projeto gráfico de Celso Longo + Daniel Trench. Diante da vastidão de itens gráficos e temáticas diversas a curadoria estabeleceu 5 eixos para compor a exposição, considerando os momentos da vida e obra de Millôr :

Sala 1 — “ Millôr por Millôr ”

Ao entrar na sala, no lado esquerdo, um breve texto curatorial faz apontamentos sobre os itens gráficos expostos ali, identifica-se uma “ ostensiva autorreferência ” sobretudo pelas inúmeras variações da sua assinatura que cobre uma parede inteira ao fundo da sala. Ao centro, um mesão feito compensado e vidro sob cavaletes, encontravam-se desenhos e textos dispostos. Borboletas, pavões, autorretratos e estudos referentes ao seu apartamento/estúdio no Rio de Janeiro, onde viveu por mais de 40 anos. Millôr era uma apaixonado pelo Rio de Janeiro e sua paisagem, reconhecia-se ali elementos recorrentes na sua obra. Fiquei encantado com a qualidade dos desenhos, poder ver aqueles originais assim de tão perto, verificar detalhes e sobretudo as técnicas utilizadas. Configura-se uma oportunidade especial, era uma exposição para se apreciada sem pressa. Estava sozinho e nesse primeiro momento uma coisa que me chamou atenção foi a escala dos desenhos, na sua maioria em pequenos formatos, respeitando o espaço da folha A4, e as técnicas de desenho : grafite, nanquim, gouche sob papel, fotocópia e colagem. Ao redor da sala, na altura do olhar, estavam dispostos em caixas [ compensado e vidro ] outros itens gráficos com mesmo filtro temático, dois deles que eu gostaria de destacar aqui: um deles é um cartaz onde millôr oferecia seus serviços com a frase “ desenhos humorísticos a bico de pena” ao lado de autorretrato com sua ferramenta de trabalho em mão. Outro item era uma colagem em grande formato com vários documentos e identificações profissionais que Millôr possuiu ao longo da vida, carteira da associação de autores de teatro, cartão bancário e boletos, carteira de trabalho, páginas do passaporte, identificação da associação brasileira de imprensa … uma sobreposição de papéis que registram sua história e caminhos.

entrada & sala 1 _ millôr por millôr

Sala 2 — “ PIF — PAF, o laboratório ”

Espaço dedicado ao período [ 1945–1963 ] que Millôr trabalhou na revista Cruzeiro produzindo a sessão PIF — PAF, que no início resumia — se na página dupla central da revista e aos poucos foi ganhando mais espaço e liberdade; liberdade essa que também provocou sua demissão do expediente da revista : em 1963 Millôr publicou sua narrativa gráfica “ A verdadeira história do paraíso ” que muita irreverência e humor mordaz fazia piada com o mito religioso da criação, a história recebeu 10 páginas na Revista Cruzeiro que na época era simplesmente o principal periódico nacional. Sua interpretação fez grande sucesso e repercutiu em retaliações de um parcela conservadora da população apoiada em primitivos valores da Igreja católica; o resultado a demissão de Millôr, que em seguida, sob conselho de amigos como Nelson Rodrigues e Ziraldo, transformou o PIF — PAF em uma publicação quinzenal independente financiada por recursos próprios, o projeto permaneceu ativo por 8ª edições com colaborações de Claudius, Jaguar, Sérgio Porto, Ziraldo, Fortuna, Eugênio Hirsch e Campos de Carvalho.

O aparecimento breve e pontual da PIF — PAF é um marco no mercado editorial brasileiro no quesito de qualidade gráfica e na criação de um conteúdo transgressor. Nesse momento da exposição foi possível localizar algumas característica da personalidade criativa de Millôr, ao central da sala estavam dispostos apenas uma página da “ A verdadeira história do Paraíso ” e uma série de originais e estudos PIF — PAF : layouts maravilhosos com uma sacada estética fora da normalidade, havia algo de experimental, uma intensidade nos traços e acabamentos alinhado com frases e textos ironizando tudo. A publicação era resultado de uma expressão criativa totalmente livre e endereçada ao leitor consciente, o que chamamos de leitor-autor, que interage e formula questões a partir do conteúdo lido, não aquele leitor passivo que só passa as páginas. Enquanto eu estava por ali fazendo minhas observações um grupo de senhoras, que provável viveram momentos de repressão no Brasil, faziam comentários de ordem política e gargalhavam sob as páginas de Millôr.

A PIF — PAF funcionou como uma laboratório de criação, foi o momento de organização desses criativos Pré-Pasquim, que viria a ser fundada um mês após o fatídico maio de 1969. O resto da história todo mundo sabe, merecia até outro texto mas vamos seguir com a exposição.

Sala 3 — Brasil

Maior sala em metros quadrados da exposição dedicada ao assunto onipresente na obra de Millôr, o Brasil e as suas incongruências históricas. Millôr foi um homem que viveu e pensou o Brasil em período muito importante do século XX, todas as grandes discussões receberiam a sua atenção e crítica por meio de charges e desenhos irreverentes que tratam de temas como o racismo, corrupção, autoritarismo e desigualdade social. Aliás sobre autoritarismo havia uma charge de um general recebendo a consulta de médico com a seguinte frase: “ O senhor está sofrendo por excesso de poder”. Mais uma vez o riso era incontrolável.

No Brasil Millôr foi o rei desse humor mordaz e ácido característico do pós-guerra, toda sua inteligência estava direcionada em provocar incômodo, seu trabalho provocava o riso, mas era aquela coisa estranha, meio sarcástica/cruel totalmente coerente com esse homem do século XX que foi a lua e matou milhões de pessoas em guerras sucessivas. Os desenhos dispostos ali na sua maioria foram publicados em periódicos nacionais e seguiam com orientações técnicas do autor. Dimensão, processo de impressão, sangria, etc. As inquietações da mente criativa de Millôr estavam organizadas à mesa para o espectador. Ao fundo da sala havia um vídeo de aproximadamente 25 minutos com depoimento de pessoas que conviveram com o artista. Figuras como Fernanda Montenegro [ amiga pessoal ] , Ziraldo [ amigo e parceiro dos tempos de Pasquim ] , Cássio Loredano [ amigo e curador da exposição ] , Claudius, seu filho Ivan Fernandes, Sergio Augusto [ jornalista ] , Jaguar [ co- fundador do Pasquim ] , Chico Caruso, Alberto Dines e outros. Todos lembrando e comentando a importância desse gênio para cultura brasileira.

No caminho para próxima sala havia uma mesa com o livro/catálogo da exposição e o livro “ Millôr 100+100: frases e desenhos ” ambos feitos pela editora IMS, mais adiante farei comentários referentes ao conteúdo editorado e projeto gráfico .

eu curtindo a exposição

Sala 4 — Condição Humana

Nesta sala apresenta-se o humor característico de Millôr direcionado ao melhor que temos : o brasileiro. O texto curatorial aponta para o lado “ filósofo e meditativo ” do artista. Os desenhos exploram situações da vida cotidiana, problemas da vida conjugal homem e mulher, a morte , a fila do banco, relação pai e filho. E novamente as risadas espontâneas estavam presentes, Millôr fazendo piada sobre a condição humana. As imperfeições morais desse homem que era seu objeto de estudo, também estão presentes na própria qualidade dos trabalhos com aquele caráter de anotação, rascunhos provisórios, o desenho sob suportes como o jornal e impressos efêmeros, a pincelada grosseira e demasiado plástica carregada expressão. Sempre um requinte gráfico acompanhado de um texto potente. Acredito que vou a sala que fiquei mais tempo, ali estava um fragmento da obra gráfica de Millôr, que na minha opinião, sintetiza sua personalidade criativa. Justamente essa ordenação de um olhar peculiar sobre as coisas da vida, uma sagacidade interpretativa fora do comum e sobretudo uma capacidade de projetar sensações por meio do desenho.

Entre as salas 4 e 5 havia uma timeline pontuando momento da vida de Millôr Fernandes.

Sala 5 — Mão Livre

O último conjunto da exposição revela o que Cassio Loredano chamou de liberdade infantil presente na obra gráfica de Millôr. Seguindo com a mesma elegância expográfica estavam organizados os desenhos mais livres, sua repertório gráfico construído durante longo anos de produção, uma floresta de linguagens, um universo próprio feito à mão livre. Millôr Fernandes em estado bruto como enuncia o texto curatorial : “ O desenhista se move aqui distante de referências ancoradas nos costumes e na política fazendo a escolha de figuras e temas livres. Bichos, árvores, crianças e mulheres, habitam um mundo em que exuberância de cor e anarquia dos traços prescindem da palavra como mediação. É o melhor, é a mão livre, no sentido mais amplo”.

Destaco um desenho, esse com a mediação de palavras, sobre mulheres, uma das muitas paixões de Millôr; o desenho representar uma mulher tipicamente brasileira caminhando com a seguinte frase : “ o melhor movimento feminino ainda é dos quadris ”. Desenho publicado na revista VEJA, era década de 70 em total eferverscência da militância feminista no Brasil, durante a ditadura, ou seja, Millôr estava atento as questões do seu tempo e trazia isso para as mesas discussão de forma irreverente. Mas também cabe uma crítica sob a forma debochada e irônica que não só Millôr, mas toda a esquerda intelectualizada tratava o movimento feminista, julgada uma pauta menor dentro das pretensões revolucionárias.

Como foi dito acima, essa floresta temática é o que fica da obra gráfica de Millôr. Hoje, se podemos inserir críticas e elogios é porque sua vida e obra foram permeadas de liberdade de expressão e uma coragem imensa de dizer o que pensava, o artista manifestou seu discurso por onde esteve marcando seu nome na história do século XX .

Sobre os livros :

O livro “ Millôr : Obra Gráfica ” foi organizado pela editora IMS por ocasião da exposição, sua editoração foi realizada pela mesma equipe de curadores, portanto, segue com divisão de 5 conjuntos temáticos dentro da obra do artista com aproximadamente 500 reproduções. Como de costume, mais um arrojado projeto gráfico assinado por Celso Longo + Daniel Trench, uma bela brochura de 300 páginas impresso na Ipsis gráfica e editora em São Paulo e com apenas 2 mil exemplares. Para os amantes do objeto livro será um belo investimento para o acervo.

Outro livro disponível para consulta durante a exposição foi “ Millôr : 100+100 frases e desenhos ” com organização de Cássio Loredano e Sérgio Augusto, reuni frases e desenhos explorando ao máximo a relação texto x imagem na obra do artista. Um trabalho intenso de pesquisa e organização é apresentado em projeto gráfico cuidadoso, destaque ao uso da cor como informação e índice na para navegação, assinado integralmente por Daniel Trench. Segue aqui algumas frases capturadas na publicação :

. “ Jamais chame um amigo de imbecil. É preferível lhe pedir dinheiro emprestado e não pagar. ”

. “ A beleza é a inteligência à flor da pele. ”

. “ Um homem é adulto no dia em que começa a gastar mais do que ganha. ”

. “ Anarquia é apenas uma proposta social em que você dá ao palhaço a administração do circo. [ E quase sempre ele é muito bem sucedido ] . ”

. “ Morrer é uma coisa que se deve sempre deixar pra depois. ”

Indicações de leitura :

Vida e Obra de Millôr — Arquivo UOL

Millôr, Humor e Feminismo

Aquisição dos Livros

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_ grato pela atenção, rodrigorosm.org.