Queermuseu e a arte degenerada no Brasil

Rodrigo Rosa
Sep 26, 2017 · 4 min read

2017 e uma exposição de arte com o tema da diversidade é censurada. No Brasil, não surpreende. Incomoda, causa indignação; mas surpresa, não mais. Em tempos de diversos retrocessos nos mais diversos campos — escola “sem” partido, para citar um exemplo— o bem antigo e mofado fato de reacionários e fanáticos religiosos se incomodarem com arte, é só mais um acontecimento em meio a tantos outros lamentáveis. Perseguição à cultura e ao conhecimento, lamentavelmente, são recorrentes.

Precisa é a frase do saudoso Umberto Eco: “As redes sociais deram voz aos imbecis”. Inspirados por uma campanha de “boicote” (entenda-se: censura) de um movimento político ultra-reacionário que não merece ser nomeado, o discurso ganhou, nas redes sociais, uma proporção que fez com que a instituição cultural, acovardada e preocupada com sua imagem, fechasse a exposição. Chama atenção, antes de mais nada, a obra que mais causou a indignação. Não se trata de qualquer espécie de elitismo do conhecimento, em que só os grandes conhecedores podem se expressar. Não deixa de ser um fato a se pensar, entre quem faz e quem lida com arte, o por que do público em geral ser tão distante dela — provavelmente mais ainda da contemporânea — mas nesta situação em específico, quem propagou as críticas se entregou: a massa das redes sociais não conhece Adriana Varejão. Não critico o fato de não conhecerem a obra, de coleção particular, mas o discurso de ódio parece ter mirado mais a artista.

Sintomático não conhecê-la, mas seria hora de, dada a polêmica, fingir-se de morto e fazer a mínima busca na própria Internet, para saber de quem se trata. Não é assim que acontece. Sintoma do discurso de ódio das redes sociais: as pessoas têm preguiça de buscar informação. É mais fácil propagar uma mentira, acusar uma artista de criminosa, do que fazer uma checagem básica. Se por um acaso faltou interesse no assunto arte, faltou, atualmente, dar uma busca no nome da artista e verificar de quem se trata, na mesma ferramenta (celular, computador) que usa para propagar o ódio. Consultar as obras, a temática e a profundidade delas. Em quais museus do mundo a artista já teve suas obras expostas, quais prêmios ganhou. Para assim, quem sabe, escolher o seu lado — não que fosse necessário escolher um só, é possível ser religioso e não querer censurar uma exposição de arte, por exemplo. Mas o discurso nas redes sociais tem de ser sempre o mais baixo e desqualificado possível, pois é imediatista: é mais fácil chamar os artistas de criminosos e até zoófilos. Como se a pintura em questão, “Cena de Interior II” (de 1994), fosse alguma espécie de convite ao que quer que seja. Como se, voltando muitas casas na história da arte, a arte tivesse a real necessidade de ser bela.

“Cena de Interior II” (1994) Adriana Varejão

Não pretendo, em absoluto, desqualificar artistas novos, menos consagrados. Meu ponto é que ao criticar e mostrar total desconhecimento sobre uma artista tão estabelecida, a massa demonstrou não ter o mínimo interesse no assunto arte. Entretanto, de repente, se vestiram de grandes conhecedores — cometendo o grave e cafona equívoco de, mais uma vez, em mais um século, só louvar aquilo que é clássico. Mal sabem que há séculos artistas criam obras para, justamente, dar um passo além. Levar a arte ao limite mas também cutucar e incomodar aqueles de mente fechada. Exemplo de um trabalho mais recente e também bastante criticado foram as pinturas de Bia Leite, a partir de um Tumblr criado com fotos de crianças em poses, caretas, roupas e penteados não heteronormativos. São fotos antigas de pessoas que cresceram acostumadas a ouvir insultos por conta de seus trejeitos. É nebuloso para mim enxergar como e por que alguém conseguiu ver tamanha sexualização na imagem das crianças — hoje, em geral, adultos, pois são fotos antigas delas próprias. Talvez quem se incomodou com as pinturas sejam justamente quem pratica o bullying e os comentários infelizes.

Tão vazio é o discurso pelo qual a exposição foi censurada, que os próprios artistas, claro, trataram de dar um passo além. Também alvo de polêmica, por conta da interessantíssima obra “Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva” de 1996 (ou seja, outra criada há mais de 20 anos), o porto alegrense Fernando Baril respondeu em entrevista ao jornal Zero Hora: “Certa vez, Matisse fez uma exposição em Paris e, na mostra, tinha uma pintura de uma mulher completamente verde. Uma dama da sociedade parisiense disse ‘desculpe, senhor Matisse, mas nunca vi uma mulher verde’, ao que Matisse respondeu que aquilo não era uma mulher verde, mas uma pintura. Aquilo não é Jesus, é uma pintura. É a minha cabeça, ponto. Me sinto bem à vontade para pintar o que quiser”.

Mais do que simplesmente chocar, pensar a arte seria raciocinar, por exemplo, sobre se, de fato, uma imagem realmente é a própria entidade ou se não é apenas uma representação, uma convenção. Criticar o fanatismo religioso é de uma emergência que passa longe de zombar fiéis (afinal, é só uma representação), e logicamente, muito mais longe do suposto convite à zoofilia. Esta que seria, sem sombra de dúvidas, uma interpretação errada sobre a obra.

Enquanto isso, Adriana Varejão tem uma exposição na Gagosian Gallery de Los Angeles até outubro. Obras da exposição de Porto Alegre são projetadas no Whitney Museum em Nova York. A londrina revista de arte Dazed, considerou quem protestou contra as obras como “extremistas de direita”. O que, mais uma vez, coloca a arte como algo inacessível, apenas para mentes e países evoluídos. Não poderia e não deveria ser assim. Especialmente a contemporânea, que costuma ser democrática e por vezes até interativa, tal postura é uma incoerência. Infelizmente, impulsionados e cegados por um movimento político desonesto, ainda há quem não esteja disposto a sair de sua intransigência para conhecer o novo.

Rodrigo Rosa

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Mestrando em Estética e História da Arte pela USP.