Os Pecados da Sombra

Eu me vejo na varanda, olhando para a rua silenciosa.

Fumando e esperando.

A noite está bonita, a lua cheia.

Um cachorro late em algum quintal aqui perto.

Estou preocupado.

Sinto muito frio, apesar do casaco.

Quase cinco dias se passaram, e ela ainda não voltou.

Minha sombra ainda não voltou.

Lembro-me ainda de sua primeira fuga.

Minha mãe costumava me advertir de que não era bom brincar com a própria sombra à noite, antes de dormir. Ela nunca me explicou o porquê. Ela também me dizia algo parecido sobre espelhos, algo sobre não olhar para eles depois da meia-noite, até o clarear do novo dia. As palavras de minha mãe me davam arrepios. Meu reflexo nunca fugiu de mim, mas minha sombra, sim. Numa noite em que ficamos sem energia elétrica, eu apontava a lanterna para a parede e acenava para minha sombra. Eu a vi acenar em despedida e caminhar para longe da luz, misturando-se com a escuridão dominante em meu quarto. Corri para sala para contar para meu pai, que riu e me disse, é impressão sua. Talvez fosse. Minha mãe nunca soube, até porque ela morreu deitada sozinha na cama, naquela mesma noite. Infarto. A sombra estava de volta quando acordei de madrugada, com todas as luzes ligadas.

Minha sombra fugiu mais três vezes.

A antepenúltima vez foi na semana passada.

A penúltima foi há seis noites.

A última foi há cinco noites.

Essas duas últimas experiências foram quase iguais, com a diferença de que, com exceção da última vez, minha sombra estava de volta na manhã seguinte.

Ela também me trouxe suvenires de suas excursões noturnas.

Não quero pensar agora nessas coisas.

A fumaça me anestesia, deixa minha mente distante.

Costumo ler na cama, com a luz baixa para pegar no sono. Também fumo o último cigarro do dia. Estou lendo O Homem Duplicado, de Saramago. Bocejei no meio de um parágrafo especialmente longo, mas me sentia envolvido. Eu apenas estava cansado. Captei um movimento com meu olhar periférico. Alguém passou pelo quarto e saiu pela abertura sem porta. Na escuridão do pequeno corredor que dá para o banheiro e a cozinha, dois olhos vermelhos, um tanto diabólicos, me observaram antes de sumirem. Devo ter sonhado, apesar de ter ouvido o girar da chave na porta da frente. Voltei a dormir. Ou eu ainda não tinha dormido? Não sei. Na noite seguinte, eu comecei a acreditar que estava acordado quando vi minha sombra sair outra vez. Na noite seguinte, eu já tinha certeza, mas também deixei acontecer.

Na manhã seguinte à antepenúltima fuga de minha sombra, eu encontrei uma bolsa de mulher, que com toda a certeza não é minha, mas me parece familiar.

Também encontrei minha sombra.

Trabalho o dia inteiro, engolindo sapos de meu chefe.

Estive distraído, pensando.

Um mecânico riu quando me viu tropeçar na frente da oficina, e também da minha cara de pateta de homem perdido nos próprios pensamentos.

Na manhã seguinte, esbarrei num macaco de carro no meio do corredor.

Eu não tenho carro.

Também pisei em minha sombra, que se grudou aos meus pés.

No jornal do fim da tarde, que eu quase não vejo, mas naquele dia vi, o mecânico virou mais uma notícia ruim, entre tantas outras.

Esse apresentador exaltado ainda vai ter um infarto ao vivo.

Lembro-me de onde devo ter visto a bolsa de mulher.

Foi na fila do supermercado, no outro dia.

Ela era insuportável, a dona da bolsa.

Uma pena não ter assistido o jornal na tarde anterior.

O que ela esconde?

Que pecados minha sombra esconde?

Penso saber a resposta, mas queria não saber.

Meu chefe me aporrinhou legal por ainda não ter ligado para fazer a reserva do quarto de hotel.

Para sua viagem de negócios.

De negócios e negócios.

Ele está em outra cidade, com seu segurança particular.

Eles são amantes, todos na empresa sabem disso.

Eu não tenho nada com isso.

Ninguém deveria ter.

Meu chefe gritou comigo, penso eu, não porque é um homem frustrado com a vida por ter de guardar muitas coisas, mas porque nunca soube lidar com as pessoas.

Ele nunca tentou ser simpático, o próprio já me disse isso.

Ele não era simpático nem com o segurança, o único que ainda conseguia domá-lo.

Essa parte ele não me disse, mas eu deduzo ser assim.

Não que eu tenha algo com isso.

Já que eu não tinha competência para fazer minha parte, ele mesmo o faria.

Minha sombra não voltou pela manhã.

Nem na manhã seguinte, nem na outra, nem na outra…

Dia após dia, noite após noite, eu me sentia desorientado.

Não fui trabalhar pelos cinco dias seguintes.

O que meus colegas diriam se notassem meu problema?

O que eu diria, se me enchessem de perguntas?

Com o passar dos últimos dias, o frio tomou conta de mim, como se eu estivesse nu em pleno inverno.

Ninguém poderia me ver neste estado.

Desisto.

Ela não volta hoje.

Uma nova manhã está nascendo.

Vejo meu corpo tremer.

O cachorro parou de latir.

Deve ter ido dormir, assim como eu também irei.

Ainda fumando, eu me vejo entrando em casa.

Eu me vejo fechando a porta.

A fumaça vai embora, assim como meus pensamentos.

Não me lembro de quando consegui dormir, mas aqui estou eu, enrolado no lençol e olhando para umas manchas vermelhas.

Desesperado, procuro por feridas em meu corpo, mas não as encontro, apesar do sangue que também mancha minhas mãos.

No corredor, eu esbarro numa maleta de executivo, coisa fina, com uma faca manchada de sangue seco a atravessando.

A maleta eu conheço, por vê-la todos os dias.

O segurança já tinha me assustado com a faca, sempre com suas brincadeiras de mau gosto, que só ele achava divertidas.

Ele gostava de falar em castração.

Temo encontrar os corpos na cozinha.

Temo ouvir o som de sirenes a qualquer momento.

Passo um café forte e bebo enquanto penso, com minhas mãos tremendo.

Nem notei que minha sombra esteve me seguindo por todos os cantos do meu apartamento, ao longo do dia.

Também não notei que o frio foi embora.

No jornal da tarde, nenhuma menção ao meu chefe e seu segurança.

Por enquanto, pelo menos.

Ligar para a empresa e perguntar se eles têm notícias do chefe não me parece uma boa ideia.

Tenho medo da resposta.

Tenho ficado estressado ultimamente, pensando besteira atrás de besteira.

Tenho desconfiado de minha própria sombra.

Tenho culpado minha própria sombra de coisas que talvez nem sejam como estou pensando.

Mas nem tudo é besteira, considerando que as coisas que tenho encontrado no corredor são bem reais.

Eu ainda estou lendo, ou finjo que estou lendo O Homem Duplicado. Minha atenção, na verdade, está na saída do quarto. É agora ou nunca. É tudo ou nada. Devo fingir para que ela não saiba, mas, e se ela souber de meus pensamentos por ser uma parte de mim? Eu não produzo minha sombra, nem ela é parte de mim, não mais. Minha sombra tem um pensamento próprio, uma vida secreta. Noturna. Lá vai ela, se afastando, indo na direção da saída. Fugindo. Levanto-me da cama e corro em sua direção, a fim de detê-la, mas como parar algo não sólido? E uma sombra não poderia, em teoria, machucar as pessoas. Mas ela me machuca ao lutar comigo, sombra golpeando homem, sendo mais forte que eu. Minha mãe teria algo a dizer sobre isso. Talvez ela tenha falado demais. A sombra me golpeia no estômago e no rosto. Perco o fôlego e fico atordoado. A sombra me empurra para fora do quarto. Para o corredor. Bato a cabeça com força na parede. Apago.

Quando abro os olhos, estou em pé no corredor.

Entrando no banheiro.

As luzes estão acesas, mas não me lembro de tê-las acendido.

Ainda é noite, ou madrugada, talvez quase manhã, eu não sei, mas sei que ainda está escuro lá fora.

Contrariando as expectativas, a sombra está aqui.

Mas está diferente.

Esta sombra tem na cabeça um chapéu enorme feito de sombra.

Não faz sentido.

Eu estive em casa todos esses dias, sem ter quem me aborrecesse.

É mesmo?

Tenho assim tanta certeza?

Esta sombra não é minha.

Talvez a minha tenha trocado de lugar com a de outro.

Uma conspiração das sombras.

Eu preciso lavar meu rosto e clarear minhas ideias.

Olho no espelho acima da pia e vejo algo que eu não queria ver.

Sim, é uma conspiração.

Não apenas das sombras, mas também do meu reflexo.

Tudo isso é uma tentativa de confundir o homem, a fim de que ele tenha dúvida de sua própria identidade.

Uma tentativa do espelho de me impedir de culpar minha sombra.

De me responsabilizar por meus pensamentos, que também fazem parte da conspiração.

Uma tentativa de me responsabilizar por coisas pelas quais não me sinto nem um pouco responsável.

De me impedir de negar…

Não pode ser.

Eu sei o que tenho visto nos últimos dias.

Não me lembro de um único detalhe que me prove o contrário.

Estive em casa esse tempo todo, acompanhando tudo de longe.

Estive mesmo?

Eu não posso ter ficado louco.

É uma grande conspiração.

Nada disso faz o menor sentido.

Foi tudo armado.

Em meu rosto há um sangue que não é meu, manchando minhas bochechas e meus lábios.

Na minha cabeça, um chapéu enorme, mas leve, e que também não me pertence.

Nem sei de quem é, mas me cai bem.

Pelo visto, um homem não pode confiar nem no próprio reflexo.