A geração playlist que “ouve de tudo”

Acho curioso como hoje em dia a moda é dizer que você é aquele diferentão do rolê. Aquele conhece todas as bandas do mundo, aquele que assiste os seriados mais alternativos e desconhecidos, mesmo que na verdade nem os conheça direito. Não vou entrar no mérito aqui da veracidade dessas informações, isso sinceramente não me importa nem um pouco. Mas já me perguntei muito de onde veio essa necessidade tão grande de ressaltar o fato de que fulano é uma pessoa que “tem cultura” por assistir muitos filmes e seriados e que ouve desde as bandas indie do momento até Pabllo Vittar.

Na verdade, o que isso realmente quer dizer?

“Mas eu sou livre pra ouvir o que eu quiser!”

E eu acho que essa é uma das poucas verdades absolutas que existe. Isso é a grande magia da arte: a liberdade que ela própria confere ao seu espectador. Você é livre pra ouvir o pop mais clichê que a Lady Gaga ou a Katy Perry já fizeram, e pra amar fazer isso (quem não ama Swish Swish, mesmo que seja só pela Gretchen), ao mesmo tempo que a sua banda favorita pode ser aquela independente da Polinésia Francesa, que você conheceu por acaso, procurando por outra banda ou navegando nos “artistas relacionados” do Spotify e agora tá mostrando pra todo mundo o quão incríveis os caras/as minas que você conheceu são. Isso é diversidade, isso é curiosidade e, principalmente, um amor tão grande à música que não se restringe a nada.

A questão é que criou-se uma cultura que já está absurdamente difundida que confere uma ilusão de superioridade àquele que prefere ouvir algo que não é o que já esteja socialmente difundido, popularizado. A aversão à inegável mediocridade da cultura de massa levou muita gente a desprezar tanto o material comercial que foi atrás de outras coisas pra ouvir, atitude que eu acho extremamente relevante. Mas com isso veio também o “eu sou melhor que você porque ouço bandas diferentonas que você não tem a capacidade intelectual de ouvir”. Pesado, né? O elitismo nosso de cada dia…

E pra quê tudo isso? Superioridade. Mais uma vez as pessoas preferiram jogar nos extremos, simplesmente pra defender ideologias que nem eles compreendem direito, muito menos as vive. Só pra ver o circo pegar fogo. Desocupados…

Pensou que já tava ruim o bastante? Na verdade, isso criou um outro problema, que se encontra quando essa cultura que citei acima é deturpada ao nível de não se encaixar em nenhum dos dois exemplos (da Katy Perry ou da banda da Polinésia Francesa), muito menos de se adptar aos dois, mas criar um terceiro, que são derivados dos finados hipsters (lembra deles? Criadores do famigerado combo “Strokes + Arctic Monkeys são os salvadores da música”?). Surgiu um terceiro viés, que eu chamo de geração playlist. Aquela que ouve “de tudo” porque constituiu-se que é legal ouvir de tudo. Não porque te satisfaz ouvir “de tudo”, muito menos porque aquilo se conecta com você, mas porque é legal ser assim. Criaram uma cultura frágil e maleável. Lembram do Justin Bieber? Primeiro era super vergonhoso ouvir Baby, depois virou super cool ouvir Sorry (que tem uma das letras mais nojentas da década, mas a batida é legal…) simplesmente porque os produtores do garoto mudaram radicalmente a imagem dele. Ele não era mais um adolescente que cantava, mas era o padrão cool que todo mundo queria seguir, nem sempre porque se gosta de fato, mas quase sempre… “porque sim”. Porque é legal (isso tudo sem contar que esse contexto cria toda uma multidão de fãs alucinadamente doentios. Mas isso fica pra outro texto).

sim, isso é um altar pro One Direction… creepy.

A questão é a seguinte…

Se você acha que esse texto todo é uma baboseira de um cara que não tem mais o que fazer e está só enchendo o saco das pessoas pelas músicas que elas ouvem, você está completamente enganado. Primeiramente, porque tenho uma tonelada de coisas pra fazer e problemas pra resolver, mas resolvi tirar um tempo para procrasti… para tentar fazer com que ao menos um leitor entenda o que eu quero dizer. A arte não é entretenimento. A arte, ou melhor, a reação das pessoas à arte é um dos maiores reflexos sociais que nós temos e, sinceramente, isso deveria ser senso comum (ou você realmente acha que todo o fuzuê por causa da performance “La Bête” no MAM de São Paulo só diz respeito à gente desocupada reclamando de um cara pelado num museu?). E considerando o que foi dito, se analisarmos o famoso “eu ouço de tudo”, ele vira uma máxima muito preocupante, ao meu ponto de vista.

Me lembro uma vez que eu aloprei um pouco com o “eu ouço de tudo”. Perguntei pra pessoa, que se dizia amante da música o que ela queria dizer com essa constatação e a resposta que recebi foi “sou eclético. Ouço de funk à bossa nova.” Isso tudo sempre me faz pensar em como se ouve música na geração playlist. Hoje, todo mundo é cinéfilo e ama, vive por música. Pena que também parece que todo mundo é hipócrita o suficiente para se auto-intitular dos mais diversos “atributos culturais”, mas não se dá ao prazer de conhecer de verdade o que diz tanto amar. Assistir muitos filmes não quer dizer que você seja cinéfilo, assim como ouvir muita música não significa que você ame aquilo ao ponto de aquilo ser algo importante o bastante pra você. Afinal, de nada adianta, pro cinéfilo e pro amante de música, assistir por assistir e ouvir por ouvir. Quer ser cinéfilo? Estude e compreenda as bases da sétima arte, oras! Quer bancar o entendido da música? Ouça mais músicas e procure saber ao menos o mínimo de como a música funciona! Isso deveria ser ao menos o óbvio, e extremamente prazeroso.

Não me entenda mal, eu sou super contra o elitismo da música, como já falei lá em cima. Ninguém é melhor ou pior do que ninguém pela música que ouve ou deixa de ouvir. Mas tenha um pouco de respeito com o que você diz, ainda mais quando é sobre você mesmo!

Acho que o que falta pra nossa geração são os ouvintes ativos. Que reconhecem que ouvir um artista ou uma banda apenas pela sua coletânea de Greatest Hits, ou pela playlist This is Fulano, do Spotify, é, de certa forma, insultar a sua capacidade crítica e deixar a gravadora/o Spotify escolher pra você o que deve ou não conhecer de tal artista ou banda, com uma apresentação rasa e puramente comercial, na maioria dos casos, do que é considerado “o melhor” de tal artista ou banda. Somos uma geração que grita (e grita bem alto!) por liberdade e conscientização, mas que não consegue exercer esses atributos nem no seu momento de entretenimento, simplesmente por preguiça e descaso! É por isso que eu falo que isso tudo não é mimimi nem baboseira, mas sim uma característica da nossa geração que tem muito à dizer e poucos ouvintes. É a prova que essa é uma geração que grita muito e faz pouco. Que mesmo apresentando mudanças de pensamento significativas, caso comparada às passadas, se prende demais a ideologias e megafones. E ainda querem mudar a política…

um meme sempre fala mais que as palavras.

Por isso eu falo, a arte diz muita coisa. Ouve quem quer. Quanto mais banalizada for a forma que o indivíduo lida com a arte, mais desrespeitado e ignorado será todo o resto. Não existe receita pra nada quando se fala de gostos, só seja sincero com você mesmo e reconheça o que de fato te representa. Tanto na arte como em qualquer outra área da sua vida. Querem uma revolução? Vivam a revolução!