O dinossauro que sobreviveu.
Eu segui aqueles que queimavam, que eram loucos, que brilhavam do lado errado da estrada, que se extasiavam em adrenalina, que não podiam ficar sem um bar, que bebiam mais rápido que o maluco da esquina que piscava para o nada. Talvez fosse uma mensagem. Nunca descobri. E enquanto isso alguém me empurrava diretamente para a lama e ela era azul. Limbo. Aquele viajante solitário que estava na madrugada em casas de numeração 402 compondo ideias em linhas tortas que não faziam alusão a Jesus Cristo estava finalmente ludibriado em uma falsa adaptação do que chamamos de dia-a-dia.
A luz do sol não queima tanto quanto a lua, ela apenas mostra outro horizonte de possibilidades onde pessoas novas aparecem e correm mais rápido que carros 4x4 em uma corrida partidária. Essas pessoas são novas e os caminhos também, e por isso, tento atravessar ruas mas me encontro perdido nas escolhas que deveriam me levar para o que é certo e assim aqueles velhos loucos que com suas mãos limpavam aquelas tosses asmáticas estavam desaparecendo como poeiras… Seria loucura pensar que a tosse parou. Portais invisiveis.
Talvez tais pensamentos não signifiquem nada, mas para aquele caderno que custou 64 golpes em um verão não tão distante onde o conto da vez era a Rainha e o Vampiro, significa tudo.
Anos se passaram e o hiato continuou, as histórias não eram mais as mesmas e o conto agora era outro. "Alguém salve o Brasil do Brazil e depois volte para me resgatar de mim mesmo". Já não me lembro do dia que os lambes foram colados. Já não me lembro de muita coisa que considerava relevante. Mas lembro da minha animação para com as novas palavras descobertas e com isso o devaneio "Lost Boy" e com isso o devaneio "a capital que não deu certo" e com isso minha consciencia berrando em meus ouvidos: "EU QUERO VER VOCÊ VOAR". Significados vazios e cheios, olhos que condenam e não estão tão cegos assim.
De fato voei, de fato cai, de fato me levantei, de fato trabalhei, de fato não me olhei mais no espelho, de fato criei novos rituais, de fato parei de escrever e voltei em falsas tentativas, de fato "faz quem quer" é uma frase totalmente clichê que só funciona em uma ótica distante da minha, de fato Raffa Moreira tem meu respeito, de fato eu nunca mais me apaixonei, de fato eu chorei, de fato eu lutei, de fato Jack Kerouac não estava tão certo assim, de fato o calor chegou e de fato eu não escrevi aquele livro e a profecia de morte é falsa e assim o corpo se levanta procurando um equilibrio em uma estrada que nem linhas tortas conseguem ajeitar. Jesus is King. De fato sobrevivi mas há danos e com os danos um velho louco aparece na outra calçada soltando através de seus dentes brancos como pó que um adolescente cheirou em uma festa de tecno a fumaça mais densa do bairro me indicando que o metrô está passando e com ele o fim do texto e do beat asmático que toca logo ali.