E Heidegger tinha razão.

Heidegger dizia que um dos maiores perigos do pensamento meditativo, da atividade intelectual mais profunda, seria o avanço da lógica computacional. O filósofo alemão, por certo, nada tinha contra o progresso tecnológico. Receava, na verdade, que o pensamento computacional fosse o único a estruturar as possibilidades de desenvolvimento intelectual nos tempos contemporâneos.

Tais pensamentos foram verbalizados na metade do século passado e surpreende como são adequados, verdadeiros e atuais. De fato, o pensamento computacional tem sido cada vez mais hegemônico em nossos dias, mesmo quando pesquisas variadas nos afirmam a periculosidade de uma entrega sem limites a este mundo digital.

Os avanços tecnológicos, não há quem negue, trouxe descobertas e progressos para as sociedades. Novas ferramentas de trabalho para todas as áreas da economia, do setor produtivo ao financeiro, tudo cada vez mais digitalizado, mecanicizado, facilitado pelas ferramentas digitais. A questão de Heidegger, que aqui também a tomo como minha, é sobre o desmoronamento de outras formas de estruturar o pensamento e o trabalho produtivo que não através de uma estrita lógica computacional. Isso porque, pautado nos pressupostos dos estudos de cognição, acredita-se que os dispositivos que usamos para absorver informações, compartimentá-las e compartilhá-las estruturam nossa forma de ver o mundo na mesma medida, ou ainda mais profundamente, que o fato de serem esses dispositivos estruturados por nós.

Para a Cognição, toda ferramenta que nos auxilia nos trabalhos do pensamento em suas mais variadas formas, seja na de apreensão da realidade ou no processamento de informações, seja no de memória ou mesmo na linguagem, tem o poder de estruturar a própria percepção humana e de modificar as relações intersubjetivas. O ser humano, dessa forma, ao mesmo tempo em que desenvolve ferramentas que os auxilie em suas atividades cognitivas e interativas, deixa-se igualmente estruturar pela lógica de funcionamento desses dispositivos, o que ocasiona mudanças importantes nas lógicas relacionais entre os sujeitos e os objetos, os seres, as coisas e o tempo. E é aqui que reside o grande problema heideggeriano.

Um dos maiores ativos da atividade intelectual meditativa é, como o próprio termo aponta, justamente o tempo e o foco para otimização da produção intelectual. E é neste quesito, e em vários aspectos, que a lógica computacional carrega alguns perigos para a prática intelectual. Se por um lado ela trouxe a possibilidade de acesso a uma variada rede de informações, como a internet, por exemplo, por outro, trouxe dois dos principais vilões que impedem um desenvolvimento saudável e sólido do intelecto: as distrações e os imediatismos urgenciais.

Primeiramente, as tão insistentes distrações. Sabemos que para que aprendamos algo e solidifiquemos o conhecimento na memória de médio-longo prazo, precisamos prestar exclusiva atenção no objeto estudado. O foco, muitos irão falar, é a grande condicionante para o aprendizado. O pensamento computacional, no entanto, nos dificulta a atenção e a preparação para uma atividade focada num único, ou em poucos, objeto(s) de estudo(s). Não é incomum que tenhamos vários arquivos abertos no computador de uma só vez. Dois arquivos no Word, um para a tese que escrevo, outro para um artigo sendo iniciado. Cinco livros em PDF’s que fazem parte das leituras atuais para a escrita, tanto da tese quanto do artigo, outros três livros físicos em cima da minha mesa de trabalho. É também muito comum, em nosso navegador, enquanto abrimos uma aba com um jornal diário de notícias, abrimos outra com outro noticiário, outra com o e-mail, outra com um artigo importante que precisamos ler, outra num site interessante e que nos direciona, através de hiperlinks, para diversos outros sites importantes, outra no Facebook etc. Alternamos, consequentemente, a atenção de aba em aba. Segmentamos o foco. Eu mesmo já me peguei um dia com vinte abas abertas, todas com conteúdos importantíssimos e que, a meu ver na época, eram necessárias que estivessem abertas ali para o fácil manuseio. Acontece que a existência de muitas informações no mesmo espaço de trabalho nos retira a possibilidade de foco no que precisa ser feito, vez por vez, etapa por etapa. Foco exige um objeto. Vários objetos dispersam o foco. A lógica parece ser simples.

Todavia, complicamos as coisas porque somos influenciados pelas lógicas computacional e da internet, que prezam pelas ações aceleradas e múltiplas. A ideia que temos é que, como o tempo é curto e muito tem a ser feito, a “multiatividade” nos adiantará o labor intelectual. No entanto, engana-se quem pensa que isso é uma verdade indiscutível. Pode até ser que algumas pessoas consigam produzir mais a partir dessa organização, contudo, na maioria das vezes, isso apenas sobrecarrega o cérebro de informações e enfraquece o nível de absorção de cada uma das informações múltiplas ali disponíveis.

Outro terror das distrações são as redes sociais. Essas são ainda mais maléficas que as diversas abas abertas. Facebook e Instagram, sobretudo, além de serem amostras da natureza cada vez mais superficial e virtual das relações humanas (ou da falta delas), tornam igualmente superficiais a atividade intelectual. Isso porque, tentados a acompanhar as atualizações frequentes nessas redes, dispersamos o foco do que é de fato importante e escapamos para um território que nada (ou muito pouco) tem a nos acrescentar intelectualmente. Dessa forma, as redes sociais contribuem, e muito, para a procrastinação e para o desânimo intelecto-produtivo, uma vez que, enquanto você não consegue desenvolver o seu trabalho e o seu pensamento, pessoas estão cada vez mais felizes e expondo seus sorrisos e comidas diferentes nas redes. A vida parece sempre muito mais fácil no lado de lá.

O segundo ponto é o sentimento de imediatismo que a lógica computacional, e sobretudo a lógica atual das redes de internet, nos impõem. E aqui não há pleonasmo ao nomear o fenômeno como imediatismos urgenciais. Sabemos que urgências aparecem, vez ou outra, e fazem parte da impossibilidade de prevermos todos os eventos em nossa vida. No entanto, as urgências se tornam maléficas quando nos lançam em uma prática de imediatismo, como se não pudéssemos esperar o fim do dia para que as novas demandas fossem analisadas. Temos a tendência, por exemplo, de ver os e-mails assim que eles chegam, e corremos o risco de estar em frequente reclassificação de prioridades toda vez que novas demandas nos chegam pelas redes de e-mail ou mesmo pelas redes sociais. Dispersamos mais uma vez porque “fulano me pediu para fazer isso para ele”, ou porque “minha universidade me demandou de escrever tal artigo”. Tais ações merecem ser analisadas e possivelmente atendidas, obviamente, mas não há necessidade na maioria das vezes de mudar a rotina ou de mudar o foco daquele seu dia de produção intelectual devido a essas demandas novas. Uma leitura matinal no e-mail e nas redes e uma leitura noturna, após um dia produtivo e focado, já resolvem as possíveis implicações e necessidades de reorganização das prioridades no decorrer da sua semana de produção sem que haja dispersão contínua do objeto foco de estudo ou produção intelectual dia a dia, hora a hora.

Podemos perceber, a partir dos dois problemas apresentados, que as lógicas computacional e da internet nos fazem pensar e perceber o mundo e o tempo sempre como uma corrida intensa, o que nos leva a agir quase sempre em múltiplas frentes. Precisamos publicar, precisamos marcar território em determinado assunto debatido, precisamos melhorar o lattes etc. O que Heidegger se referia, ao falar do prejuízo ao pensamento meditativo, é que a atividade intelectual não pode prescindir da paciência e da atenção. O velho adágio se aplica aqui: “a pressa é inimiga da perfeição”. Isso é especialmente verdade quando falamos de trabalho intelectual, porquanto ele é fruto de esmero, tal como um escultor, atento a cada fase de seu trabalho com perícia, a cada golpe de espátula com cuidado. A meditação intelectual é para os que entendem que essa atividade é uma dádiva divina e que nos é pedido, enquanto recebedores desse dom e essa vocação, apenas a observação. E todo bom observador é ótimo em esperar. Em ter calma. Em ter foco. Em ter autocontrole e disposição para fugir das configurações virtuais do pensamento acelerado, disperso e fugaz. Parece mesmo que Heidegger tinha razão: o pensador meditativo é mesmo um artista em extinção.