O dono do morro

Não sou o dono do morro
Nem sou filho do dono
Sou apenas mais um na favela
Conheci desde cedo o abandono

Trabalho duro todo o dia
Estudo à noite quando dá
“Amanhã vai ser melhor”
É o que me obrigo a acreditar

Eu ando com medo na viela
Peço licença ao santo e rezo
Sou preto e pobre na favela 
Nas costas, um alvo eu carrego

Não sou o dono do morro
Nem sou filho do dono
Sou apenas mais um na quebrada
Jardim Ângela, Capão Redondo

Eu disse não pra dinheiro na mão
“Eu prefiro ir pro trampo trabalhar”
A grana fácil ilude e engana
E quem ganha não vive pra gastar

Eu ando de cabeça baixa
No peito um Jesus balança inerte
Quando tem guerra da pesada
Eu deito na cama e sonho

E vejo no morro subindo um anjo
Ele sobe com fogo, espada e broquel
Contra ele não tem bala ou granada
E com ele está o exército do céu

Ele olha pro cano da arma
O clique surdo rompe o silêncio
O exército de meninos se ajoelha e se cala
Enquanto armas se tornam em lápis e papel