Protesto em Homs em 2012

A revolução curda e a luta pela democracia na Síria

Os comitês de solidariedade, até agora, se restringiram à discussão da questão curda, em parte por falta de acúmulo sobre a situação na Síria. Mas é impossível ter uma linha consistente sobre a revolução de Rojava sem uma análise da guerra civil síria, que é o contexto da revolução.

Em primeiro lugar, o posicionamento sobre a questão Síria não é “neutro”. Existe um discurso, que é o dominante na esquerda, que coloca todos os fatos como se estivesse acontecendo uma luta entre um governo nacionalista e “terroristas” ligados aos EUA. Essa é justamente a versão do governo sírio e do imperialismo russo, que a esquerda comprou por falso “antiimperialismo” (na verdade, antiamericanismo, porque só reconhecem como imperialismo o americano). Por sua vez, essa versão é copiada do discurso de “guerra contra o terror”, formulado pela primeira vez por Putin durante a intervenção imperialista na Chechênia em 2000, e depois imortalizada por George W. Bush na guerra do Afeganistão em 2001.

A Síria é um pequeno país no Oriente Médio, com território de 185.000 km² e uma população (antes da guerra) de 20 milhões de pessoas. A grande maioria da população é muçulmana sunita (mais de 80%), com importantes minorias xiitas, alauítas e drusas (dissidências do xiismo) e cristãs. Os curdos são 9% da população. A guerra já matou cerca de 500 mil pessoas e fez 3 milhões se refugiarem, principalmente no Líbano e na Turquia, mas com uma parte indo para a Europa.

Qualquer consulta nos principais meios de comunicação que não estejam diretamente alinhados com o governo russo (caso da RT, SputnikNews etc) mostra os protestos pacíficos de massas contra uma ditadura que está no poder desde 1970 (com o nacionalista burguês Hafez Al-Assad, pai do Bashar), e que deu o seu giro neoliberal em 2000, quando Bashar Al-Assad assumiu a presidência. Esses protestos levaram à criação de comitês locais de coordenação, que assumiram as funções de governo em várias cidades, ou seja, dualidade de poderes e ao começo de uma revolução popular contra a ditadura, comparável com a revolução na Tunísia em 2010–2011 ou à derrubada do Xá do Irã em 1979. Nesses comitês, existe uma oposição secular, juntamente com setores islamistas moderados (conservadores, mas que defendem um regime secular). São os comitês as principais organizações pacíficas no conflito.

Como a família Assad é da minoria alauíta, o conflito pegou uma perigosa conotação religiosa, e parte da população vê como se fosse uma guerra contra os sunitas. Por sua vez, a maioria dos cristãos, alauítas e drusos são contra a derrubada do regime, não porque sejam a favor de Assad, mas porque têm medo de uma ditadura sunita contra eles. Ao mesmo tempo, o Irã se coloca como defensor dos xiitas e dos alauítas, e com isso consegue o apoio dos xiitas libaneses e da sua principal organização, o Hizbullah, além de voluntários xiitas iraquianos e, em menor escala, de todo o mundo islâmico.

Ao mesmo tempo, a necessidade de armamento fez com que vários países do Oriente Médio começassem a intervir na guerra, apoiando vários setores. Por isso, hoje, na Síria está acontecendo uma “miniguerra mundial”, com a Rússia e o Irã apoiando Assad, e a Arábia Saudita, o Qatar e a Turquia apoiando setores da oposição armada, todos disputando a influência política na região.

A política da Rússia é apoiar Assad e, na verdade, sem a intervenção da força aérea da Rússia, que começou em outubro de 2015, o governo já teria entrado em colapso. O Irã intervém através das suas Guardas Revolucionárias e do Hizbullah. Os Estados Unidos, diferente de várias teorias da conspiração que pessoas de esquerda estão seguindo, nem apoia o ISIS nem defende a derrubada de Assad. Os EUA têm apoiado setores que lutam contra o ISIS, e tem defendido acima de tudo a estabilidade na região, independente da permanência ou não de Assad, mesmo que dê um apoio limitado à Coalizão Nacional Síria, principal oposição política síria, e que prefira a saída negociada de Assad, uma solução semelhante ao que aconteceu no Iêmen, quando o ditador saiu, mantendo a estrutura da ditadura.

A partir de 2014, uma ruptura da Al-Nusra (antigo nome de Fatah Al-Sham) se declarou como o Estado Islâmico (ISIS, como ficou conhecido internacionalmente), exigindo a fidelidade de todos os muçulmanos do mundo. O ISIS defende uma forma ainda mais extrema de fundamentalismo islâmico, e é contra não só Assad, mas também todas as forças da oposição síria. É o Califado criado pelo ISIS que organizou o genocídio yazidi e que está instituindo a sharia (lei islâmica) no norte da Síria.

Atualmente, a maior parte da violência ainda é cometida pela ditadura, com o apoio da aviação russa, inclusive em cercos para vencer cidades rebeldes através da fome, como aconteceu em Daraya e está acontecendo em Aleppo, além do uso de armas químicas. O que restou da oposição democrática, na forma dos comitês locais de coordenação e das iniciativas civis isoladas, precisa lutar tanto contra o governo como se desvencilhar da hegemonia fundamentalista na oposição armada. Ao mesmo tempo, os setores armados do Exército Livre Sírio estão fragmentados e precisam colaborar com as organizações fundamentalistas por uma simples questão de sobrevivência perante o regime.

Não existe uma decisão política entre as grandes potências sobre como resolver a guerra civil, porque elas ainda não conseguiram estabelecer as suas áreas de influência. Portanto, o povo sírio está abandonado à própria sorte no jogo das potências, assim como o povo curdo. A perspectiva mais imediata seria a luta internacionalista contra todos os agressores militares, para que a população possa respirar e reconstituir o movimento pela democracia.

A questão curda e a estratégia do PKK

Dentro disso, temos que avançar na caracterização do PKK e da revolução curda, porque acredito que são as ilusões em torno do PKK que têm dificultado a compreensão da situação.

Com dois anos acompanhando diariamente a guerra, acho que fica claro que a política do PKK não é internacionalista, e sim nacionalista. O grande objetivo do PKK é a autonomia democrática curda, mas o partido está disposto a fazer qualquer tipo de aliança para alcançar esse objetivo, mesmo que isso sacrifique outros setores em luta.

Entre 2012 e 2014, o PKK/PYD teve uma política de neutralidade em relação à revolução síria. A partir de 2014, se aliou aos EUA na luta contra o ISIS. Em 2015, por um curto período, tentou se aproximar da Rússia, para voltar a se aproximar dos EUA novamente. O custo desses ziguezagues foi nunca ter acontecido uma política consistente de solidariedade com a luta do povo sírio, apesar de uma colaboração limitada com o Exército Livre da Síria em 2014.

Tragicamente, a política do PKK foi tentar conseguir um território contínuo, anexando áreas de maioria árabe no norte da Síria, no momento em que essas áreas estavam sendo atacadas brutalmente pela ditadura, o que criou conflitos com o Exército Livre da Síria e deu margem a eles agora colaborarem com a invasão turca, que tem como objetivo isolar Rojava.

Em vez de tentar a unidade com movimentos democráticos da síria, o PKK confia exclusivamente em construir as Forças Democráticas Sírias, que têm seus componentes árabes e cristãos assírios subordinados ao PKK, num modelo semelhante às Frentes Populares que governavam os países do Leste Europeu no período stalinista.

Esse erro é estratégico e fatal: não existe possibilidade de uma Rojava livre dentro de uma síria ditatorial. Sem a vitória da luta democrática contra Assad, ou a Síria terá um regime brutal controlado pela Rússia ou será repartida em áreas de influência dos países imperialistas. Em qualquer um dos casos, Rojava será aniquilada ou “normalizada” pelo regime. É preciso que exista uma estratégia consciente de solidariedade entre sírios e curdos, que possa inclusive pressionar o PKK a abrir mão da sua estratégia nacionalista.

Nossas tarefas

Nós não temos influência direta nos processos da Síria e do Curdistão. Mas estamos fazendo uma campanha de informação sobre a revolução curda e, na medida do possível, de solidariedade material. O que eu proponho é que a nossa campanha englobe a análise da guerra civil síria, o que implica numa postura mais crítica em relação ao PKK, e estenda também a solidariedade à resistência popular síria.

Além da imprensa burguesa, eu recomendo a leitura dos trotskistas sírios e da Leila Al-Shami, que é anarquista, assim como conhecer a história do Omar Aziz, que é a principal referência do anarquismo sírio.

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