Microfísica da fila do pão

Estudar história pode ser um processo desgastante e parecer, até certo ponto, sem aplicação prática real. Alguns, em especial aqueles afastados das ciências humanas, podem replicar “nunca usei Revolução Francesa na minha vida”, “mais um dia se passou e não precisei saber a diferença de Jânio e Jango”. Porém, o que sempre me intriga é pensar a história e as ciências sociais como a análise físico-química das estruturas sociais, isto é, átomos se chocando o tempo todo e formando as estruturas sociais do nosso tempo. Tudo isso em um processo contínuo e interrupto e, tal quais as estruturas físicas, operando em nível macro e micro. O átomo e a galáxia. Por um lado, os grandes acontecimentos, as grandes revoluções e, por outro, a vida cotidiana dos indivíduos inseridos nesses contextos. Sempre pensei nos átomos fervilhando, se atraindo e se repelindo, enquanto as galáxias se chocavam e alteravam suas formas. Os dias em que a história dá um cavalo-de-pau e solta na banguela em uma ladeira só pra ver onde vai parar são os momentos ideais para a observação desses fenômenos e a fila do pão, desde a Revolução Francesa, o campo de interação preferencial.

O átomo-ancião solta um comentário padrão visando atrair os outros para formar um microgrupo coeso. O olhar pede por aprovação, “não é mesmo?”. A átomo-senhora concorda com a cabeça, enquanto o átomo-de-meia-idade se exalta além do necessário. O átomo-pré-adolescente se lembra de um meme e adere sem pensar, enquanto a átomo-mãe faz o cálculo racional entre a concordância e o preço da compra. Considerando que nesse microcosmo social os opostos se repelem com força crescente, o átomo-dissidente se vê cercado em meio a uma conjuntura instantânea antes mesmo de seu desjejum. Basta um sorriso, um “é isso mesmo”, uma balançada de cabeça e a situação se normaliza com a integração total dos presentes. Até lá, os olhares ansiosos por uma posição chegam a babar. O átomo-dissidente se afasta e vai buscar os seus. Esse microcosmo se estabiliza e se desfaz, todos saem levando mais certezas do que deveriam. Nesse processo eterno vão se agregando e se repelindo, retroalimentados pelas colisões cósmicas. No entanto, não é possível uma “Lei da Fila do Pão”, ao lado das de Newton, que informe seguramente a sequência dos fatos. Nisso reside a beleza da história: quem é você na fila do pão

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