Você entrega valor… para você?

No futuro você não vai lembrar de uma grande reunião ou apresentação de Power Point que fez. Qual é mesmo o seu propósito de vida?*

No ano de 2004, eu estava escrevendo o livro Como Fazer uma Empresa Dar Certo em um País Incerto para o Instituto Empreender Endeavor, depois de entrevistar 50 homens de negócios. E apenas uma mulher de negócios. Naquele momento, vivia um período de transição. Entendia o capitalismo como um grande gerador de riqueza, mas já estava em busca de referências de negócios que buscassem contemplar outras coisas além apenas de resultados financeiros. Na época, eu trabalhava no Banco Real. Era responsável por criar a narrativa sobre a prática da sustentabilidade nos negócios, um item que acabou diferenciando largamente o Real em relação à concorrência, quando poucos sequer falavam nesses tema.

Trabalhar com toda a equipe de sustentabilidade no Banco Real foi um laboratório de grandes aprendizados e de autoconhecimento. Sentia um conforto ao olhar para os colegas e enxergar pessoas, mais do que homens ou mulheres de negócios. Isso contrastava com o mundo de empreendedorismo que se descortinava nas entrevistas. Os temas se concentravam em itens como tag along, drag along (termos técnicos de cláusulas de compra e venda de empresas), sociedade, retorno para o acionista, bônus etc. Eu já estava em busca de questões mais essenciais. Por isso, ao final das entrevistas, eu costumava perguntar do que os empreendedores mais se orgulhavam e também do que mais se arrependiam. Quase todos, raríssimas as exceções, se orgulhavam enormemente da empresa que haviam construído. E quase todos — também com poucas exceções — com uma voz bastante grave lamentavam não terem visto os filhos crescerem ou terem passado pouco tempo com a família.

Enquanto escrevia o livro, na mesa da sala da minha casa, e repassava as entrevistas, eu olhava para o meu filho que estava começando a engatinhar e tentava ganhar consciência sobre aquelas palavras. Queria não repetir o erro que tantos líderes respeitados e renomados haviam cometido em busca de fortuna e glória. Irreparáveis, já que o tempo não volta. Infelizmente, essa lição ficou só para mim, pois não cabia em um livro que queria apenas ensinar empreendedores a fazer mais negócios.

Os anos passaram. Até que a mesma mensagem do final das entrevistas apareceu novamente para mim. Dessa vez, de outra forma, nas palavras do querido Sidnei Basile, meu chefe nos tempos de redação na Editora Abril. Um dia nos encontramos e começamos a conversar sobre a vida, em uma caminhada num intervalo de um evento no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Ele contava empolgado das férias que havia passado com a família na Europa. Ao final da conversa, me disse: “No final das contas, é disso que você lembra no final da vida. Você não lembra de uma grande reunião que liderou ou de uma excelente apresentação que fez em Power Point.” Bingo.

Voltando ao Banco Real, aprendi coisas absolutamente relevantes para minha vida empreendedora que seguiu. Participamos de cursos de desenvolvimento que ensinavam muito mais do que assuntos do mercado financeiro ou mesmo de sustentabilidade. Eles traziam componentes de tomada de consciência e de autoconhecimento. Pensávamos sobre o que estávamos fazendo com nossas vidas e como isso se conectava com o legado que queríamos deixar. Isso era, para mim, um oásis no mundo corporativo.

Em 2011, quando saí do banco (que já tinha virado Santander), percorri alguns caminhos até, de fato, empreender e abrir uma agência de comunicação. Resolvi seguir na mesma linha e trabalhar com empresas que buscam colaborar para a evolução da sociedade e das relações. Virou um propósito de vida. Tenho orgulho de trabalhar com clientes que honram algo maior do que apenas lucrar. São pessoas (empresas são feitas de pessoas) conscientes sobre o jeito de fazer negócios, lidando com sustentabilidade, inovação, diversidade, impacto positivo e, muitas vezes, ativismo. Por isso, alguns deles são personagens do novo livro que estou escrevendo, chamado Human@s de Negócios. Mulheres e homens que fazem parte do mundo corporativo carregando consigo valores de humanidade e consciência. E, claro, que encontram tempo para acompanhar suas famílias e amigos, para verem seus filhos crescerem. Não poderia ser diferente. Precisamos colocar luz em líderes do mundo que queremos construir, pessoas que sabem que o que deixamos de verdade em nossa efêmera passagem neste planeta são novas gerações de pessoas — e não de acionistas. Afinal, para quem você está entregando valor: para suas relações próximas ou para o acionista — que provavelmente você nem sabe quem é. Percebe?

(publicado originalmente no especial Líderes de Amanhã, na edição 346 da revista Amanhã.)