Idealismos estão fadados ao fracasso

“A crueldade é um dos prazeres mais antigos da espécie humana”, F. Nietzsche.
Semana passada eu escrevi um texto curto, que denominei por “A plateia bestializada” e nele, tentei indicar do que realmente trata a política: poder. E isso é uma possível prole de uma visão pouco romantizada da realidade e um ceticismo político muito provavelmente advindo de algum niilismo de minhas leituras.
No entanto, é uma obviedade que o poder não é a única coisa que importa para as relações humanas, muito embora seja a principal. Há outros componentes como o dinheiro e a glória, por exemplo. A qualquer modo, no presente texto eu gostaria de estender um pouco mais a análise social que eu supostamente iniciei anteriormente.
Alguns podem discordar do título, outros podem concordar. De qualquer maneira, idealismos fracassam por que somos eternamente habitantes de Sodoma ou de Gomorra. Pode-se até dizer que não, nós não somos Sodomitas. Não praticamos os seus pecados. Ou até mesmo alguns leitores podem não entender o porquê da referência. Mas garanto que Sodoma e Gomorra são bons exemplos de humanidade. Assim como Hitler, Stalin ou Nero o são. E agora, certamente a discordância será ainda maior.
Isso se dá por conta do próprio conceito de humanidade. Muitos falam “humanidade” como sinônimo de moralidade ou de “coisa certa a se fazer”. Entretanto, se o mundo real me ensinou algo, é que humanidade não é sinônimo de coisa boa, mas o oposto. Pode-se afirmar que Hitler não é, nem de longe, sinônimo para moralidade — embora isso seja um conceito bastante ambíguo -, mas posso sim afirmar que ele é um grande exemplo de ser humano. Afinal, o que seria humanidade a não ser desejos, busca por poder, glória, sobrevivência e maldade? Se a humanidade fosse realmente boa, não haveria de se ter um sistema legal para regular e punir; Karl Marx não falaria sobre luta de classes; Rousseau não afirmaria que a sociedade corrompe o homem; não haveria guerras e Bolsonaro provavelmente não seria nem deputado (não resisti à alfinetada).
Aos bobinhos que acham que o mundo é algo romântico e que a esperança é a cura para o mal estar de nosso tempo, peço que parem e pensem se podem prosseguir aqui e entender o que quero dizer. O mundo é por si só, pessimista e ruim. O mundo não consegue melhorar — “melhora” também é um conceito bem difícil de definir, mas isso é uma discussão ainda mais profunda. O mundo foi, é e será ruim.
“Ora, a realidade não é poesia”, Joaquim Nabuco.
Todas as concepções de que o mundo guarda um mal consigo e que basta eliminar esse mal que o mundo se torna algo melhor estão corretas. Talvez se pudéssemos destruir o a concentração de poder pelo Estado ou pelo alto escalão financeiro, se pudéssemos acabar com a influência do dinheiro em nossas vidas, se pudéssemos acabar com a ganância, muito provavelmente os problemas da humanidade iriam desaparecer. Há, entretanto, um erro no raciocínio: não há como, não existe tal cura. A única cura existente é acabar com os instintos naturais do Homem — e aqui eu não quero simplificar os seres humanos a meros animais, desconsiderando a influência do meio social em que vive. Aliás, Nietzsche muito bem afirma em “O Crepúsculo dos ídolos” que o moralista quer castrar o Homem, tirando de si, suas próprias vontades. O utopista nada mais é do que um moralista “visionário” e como todo moralista, quer castrar os desejos naturais, quer modelar as vontades humanas à sua moral, “unicamente válida”.
Talvez o principal problema das utopias modernas seja o buscar uma cura para a patologia humana. É exatamente por isso que elas são utopias. A maior parte das utopias tenta idealizar o Bem num passado utópico, diferente. E infelizmente, quanto mais viajo ao passado em busca desse Bem eu apenas observo que o Suma-mal, nasceu e se desenvolveu junto ao próprio conceito de humanidade. Quando avista o Suma-mal no passado então idealizado, o utopista o ignora e então parte para um futuro benigno, um futuro onde a paz, a liberdade e a sabedoria podem reinar. Mal sabe ele que “Guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força”[1].
“A realidade da existência eterna do mal deve estar sempre junta na busca pelo bem.”
Infelizmente, a patologia da humanidade se encontra em si mesma, no próprio conceito de humanidade. Não há como acabar com o poder, não há como acabar com o dinheiro, não há como acabar com a busca da glória, não há como findar a desigualdade, não há como acabar com a ganância. Buscar um mundo melhor está fadado ao fracasso, ao menos se o mundo melhor, mesmo que inconscientemente, seja aquele onde não há o Suma-mal. É sim desejável que tenhamos indivíduos melhores, independentes, livres e conscientes do mal que podem causar; creio que todos nós desejamos que a pobreza diminua, que as pessoas possam empreender e que não sejam escravas de governos ou de mercados. Buscar um mundo onde se tenha menos pessoas ruins e menos atrocidades é uma forma consciente de se desejar o mundo. No entanto, a visão de que o mundo é um lugar mal e que as pessoas tendem para o mal quando lhes dão a oportunidade deve estar além de qualquer idealismo, de qualquer utopia. A realidade da existência eterna do mal deve estar sempre junta na busca pelo bem.
Quantas vezes a busca por uma sociedade melhor nos trouxe outras atrocidades? E aqui, não quero negar a importância de um desejo de melhorias sociais. Este tem tanto importância para o desenvolvimento do mundo como um conservadorismo o tem. O que busco aqui é simplesmente esclarecer que seremos eternamente Sodoma e Gomorra; seremos eternamente maus. Não se faz sentido melhorar a natureza humana, se esta, por si só, despenca para o mal quando o vento sopra favorável.
Afinal, em escala realmente importante, ou seja, ignorando a insignificante civilização humana, para que isso faria sentido? Em 7,5 bilhões de anos o sol morre e, a não ser que busquemos abrigo em outro lugar distante, estaremos fadados ao fim — se o fim não chegar antes. Até lá? Iniquidade, crueldade e sofrimento, eis que o resumo do mundo real está entregue.
Notas:
[1] Lema do Partido, presente na obra distópica de George Orwell, 1984.
