Quem tem medo do século XXI?

Atual New York. Imagem meramente ilustrativa.

O mundo atual, desconsiderando certos problemas específicos, me parece fantástico. Um mundo automatizado, de inovações e de uma economia descentralizada. Um mundo onde as pessoas são levadas por uma mão invisível a realizarem, na maior parte das vezes, o “bem maior”, onde a maior parte das pessoas não são totalmente reféns de algemas dos governos ou de castas sociais. Pelo contrário, a maior parte das pessoas têm condições suficientes para que, com um pouco de trabalho duro e certos sacrifícios, possam melhorar suas condições de vida, bem como daqueles que estão ao seu redor. Há, entretanto, um caráter antirracional na maior parte das observações que essas mesmas pessoas fazem do mundo do século XXI. Esse olhar se reflete, principalmente, em observar o mundo de hoje como um mundo pior do que o anterior, onde o mal reina, mesmo que já tenhamos boas informações empíricas para a descrença em tais observações [1]; e também no apoio das pessoas a atrasar a inovação, a partir de proibições pouco justificáveis e sem qualquer nexo.

Existem dois livros que eu particularmente gosto bastante e que, para mim, falam de forma lúcida sobre o mundo em que vivemos. Um deles é intitulado por “Eu, robô” do gênio Isaac Asimov; o outro, “Livre para escolher” do grande Milton Friedman e sua esposa Rose Friedman. Possivelmente o leitor está confuso. Um dos livros é um bastião da ficção científica, o outro, relata a visão de dois economistas, dentre eles, um dos maiores economistas do século XX. O que essas obras tão distintas como são, têm em comum? Já explico. Tudo me veio à mente depois de muito refletir sobre a luta da Uber contra diversos governos do mundo afora — dando ênfase à proibição do serviço na Itália, mesmo que a decisão já tenha sido suspensa [2].

Nas histórias narradas em “Eu, robô” percebem-se os novos avanços da robótica e como as pessoas reagiam a eles. Reações bastante similares àquelas que hoje em dia podemos observar com o Uber. No livro, inclusive, chega-se a mencionar a proibição de robôs pela maior parte dos governos da terra. Toda a obra se passa em um ambiente onde fica clara situação de insegurança para com as máquinas, desde os primeiros autômatos incapazes de falar, até as máquinas mais avançadas, capazes de planejar até mesmo toda a economia. Enquanto isso, no capítulo 7 de “Livre para escolher”, intitulado por “Quem protege o consumidor?”, o casal de economistas estadunidenses vai apresentando alguns exemplos de proibições governamentais ou regulações que tinham como principal objetivo evitar abusos por parte das empresas privadas, mas acabaram retardando o desenvolvimento econômico e criando novos abusos e oligopólios nos mais diversos setores.

Em ambas as obras temos a convergência: as proibições dos governos . E por mais que visassem o bem-estar do maior número de pessoas, nem sempre acabavam fazendo bem e até atrasavam o desenvolvimento tecnológico e econômico. Coincidência o meu paralelo com o Uber? Acho que não. E então, entramos na questão que queria chegar. A proibição de novos serviços, seja por concorrência desleal ou por qualquer motivo que possa ser “justificável”, é realmente a melhor escolha que podemos fazer? Não quero em momento algum defender que todo e qualquer serviço deva ser liberado, o que quero defender aqui é que pensemos duas vezes antes de usarmos as forças do governo para que não retardemos o desenvolvimento tecnológico, econômico e social. O ideal é que quaisquer proibições sejam postas de maneira racional e bem planejada.

Afinal, novos produtos e serviços quase sempre provocam reações adversas e é exatamente disso que quero tratar. A mesma reação que as pessoas e os governos tiveram em “Eu, robô” são as mesmas reações que Friedman deixa claro em sua argumentação e que vemos a todo instante hoje em dia. Há, no entanto, um grave problema com essas reações: elas normalmente são a desculpa esperada para que retardemos o desenvolvimento e deixemos o mercado fechado para uma dúzia de participantes. Proibimos um novo serviço entrar no mercado — normalmente um serviço mais barato e mais atrativo — e fechamos aquele mercado apenas para aqueles que “podem” ou que têm maior força política, como é o caso dos sindicatos que lutavam contra o avanço da robótica em “Eu, robô” [3] e os sindicatos dos taxistas no mundo real [4].

Normalmente essas proibições pouco justificáveis são apenas medo da modernidade vendido como proteção ao consumidor e aos indivíduos — seja na realidade fictícia de Asimov, seja nos EUA descritos por Friedman ou até mesmo no mundo atual com Uber, Bitcoin, Buser e afins. Da mesma forma ocorria com os nobres feudais e o clero católico, que temiam as melhorias advindas com o capitalismo ascendente e dos regimes democráticos por acabarem com seus privilégios. Não nego que a discussão seja mais profunda que isso, na realidade, considere esse breve texto como uma introdução e não conclusão de pensamento. Aliás, é perfeitamente correto o fato de que tais tecnologias trarão problemas futuros. A tecnologia traz debates profundos, eu sei. Seria justo, como acaba ocorrendo em “Eu, robô”, robôs competirem com humanos pelos mesmos cargos em empresas aumentando a produtividade, mesmo que a preço de um possível desemprego? Eis uma das questões que teríamos que lidar, dentre muitas outras.

A luz de todas essas observações, eu me pergunto se não estaríamos voltando a um debate superado há dois séculos, após o movimento ludista [5]. A questão seria: essas transformações são ou não inevitáveis? É mais sensato atrapalhá-las ou nos adaptarmos a elas? Será que proibições governamentais justificadas por esses motivos que não são aprovados após uma análise rápida, são realmente a melhor solução? Como proferido certa vez pelo próprio Asimov: “Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los”. Então, caros, vamos realmente brincar de quebra às máquinas em pleno século XXI?

Notas:

[1] http://super.abril.com.br/sociedade/o-mundo-e-bao-sebastiao/

[2] http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/tribunal-de-roma-suspende-proibicao-do-uber-na-italia.ghtml

[3] “Naturalmente, os sindicatos se opuseram à competição de robôs por empregos humanos, e vários segmentos de viés religioso tinham suas objeções supersticiosas. Tudo isso era bastante ridículo e inútil. E, no entanto, aconteceu. ”, p. 15–16. Editora Aleph, 2ª reimpressão.

[4] http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/taxistas-protestam-contra-o-uber/385004

[5] http://www.suapesquisa.com/industrial/ludismo.htm