Porque o podcast ainda é o patinho feio das mídias online?

Igor Rodrigues
Jul 25, 2017 · 5 min read

Muito ainda se discute sobre a falta de popularidade dos podcasts. Mesmo nos EUA, onde se vive a tal “Era de ouro” dos podcasts (do qual eu discordo), em comparação com outras mídias o alcance do áudio de longa duração é pífio.

Em 2015 esimava-se existir 180 mil podcasts ativos no mundo. Parece muito, mas para efeitos de comparação existem 1.3 bilhões de usuário do youtube. Só de canais com mais de 100k visualizações por mês, são 300 mil. Em termos de receita, uma projeção otimista que animou podcasters pelo mundo é a de que, em 2017, a receita publicitária em podcasts pode chegar a US$220 milhões. Parece um excelente número até compararmos com o vídeo, onde isolando somente canais com 100 mil views/mês temos uma receita de aproximadamente US$750 milhões, somente com o AdWords.

Concluo que o podcast, em qualquer país ainda está engatinhando em termos de se tornar uma mídia de massa. E com isso vem a pergunta inevitável: qual a razão de tal discrepância?

O Anticast #294 abordou o tema sob a ótica da cena nacional, apontadando a falta de profissionalização, falta de foco comercial e baixa variabilidade de temas e formatos na mídia verde-e-amarela. Mas a grande conclusão parece ser que falta a entrada de um grande player nesse cenário, capaz de trazer uma infraestrutura profissional. Faltaria uma Globo entrar na festa, assim como as rádios americanas lideraram (e ainda lideram) a cena podcastal gringa.

Mas, de acordo com a história das mídias digitais, nada disso é fator determinante.

As mídias igitais se popularizaram à medida que as bareiras de entrada foram removidas. Tais barreiras são:

  • Disponibilidade de equipamentos de produção
  • Infraestrutura de rede
  • Plataformas de consumo e distribuição de fácil acesso

A mídia escrita teve seu boom pelo fim dos anos 90. Computadores se tornaram populares (equipamento de produção)e a internet discada já era suficiente para suportar bem o texto. Mas o divisor de águas foi a criação das plataformas de blog auto-hospedadas. Antes era necessário entender de HTML e FTP (no mínimo) para criar um site, um problema que os blogs resolveram. Uma enxurrada de usuários passaram a produzir conteúdo, evoluindo desde o diário tosco até verdadeiros portais jornalísicos especializados.

Com o vídeo o caminho foi o mesmo, com a diferença que a barreira de entrada também incluía o equipamento para filmagem e sotfwares de edição. Mas o que popularizou a coisa foi a introdução do youtube em 2005, que tornou fácil e prática a tarefa de hospedar e assistir vídeos online, além de centralizar a distribuição e descoberta de novos conteúdos. O barateamento das câmeras digitais e dos smartphones se encarregaram de melhorar a qualidade dos vídeos que os criadores amadores podiam produzir. O resultado é o constante surgimento de novos conteúdos de qualidade variável e uma sofisticação de formatos e possibilidades. Foi só abrir a caixa de areia.

Quando observamos a evolução de outras formas de conteúdo (imagem, texto e vídeo), identificamos um padrão em como tais conteúdos chegaram a atingir sua massa crítica. Todos tiveram suas barreiras de entrada removidas, abrindo espaço para que o público se encarregasse do resto.

Em nenhum dos casos foi necessário uma grande empresa criar seu conteúdo para chamar a atenção para a mídia. Não à toa, dos maiores youtubers do mundo TODOS são canais independentes, produções amadoras com apenas uma pessoa ou equipes de no máximo 5 indivíduos.

E as barreiras de entrada do podcast? Continuam altas.

  • Equipamentos de produção — Microfones e softwares de edição são acessíveis, desde o mais simples fone com headset até o gravadores mais sofisticados e profissionais.
  • Infraestrutura de rede — Se a rede aguenta o consumo de vídeo, aguenta o de áudio, dezenas de vezes menos exigente. Resolvido.
  • Plataformas de distribuição e consumo — É aqui que a porca torce o rabo.

Ainda é preciso ter seu domínio, contratar a hospedagem, entender como gerar um player, fazer o site, subir o episódio via FTP (como os homens das cavernas faziam) e fazer seu feed (??), inscrever-se no iTunes. Além de complicado, o produtor de conteúdo precisa pagar para brincar de áudio. E pode ainda ser vítima do próprio sucesso. Um podcast que alcance um sucesso mediano, digamos 15k downloads/episódio, estará consumindo tanta banda que será obrigado a pagar um servidor dedicado, algo em torno de R$450/mês. Que garoto de 12 anos, interessado em criar conteúdo, pode sustentar essa brincadeira?

Mas essa é só metade do problema, o consumo de podcasts tem seus próprios impedimentos.

Para escutar um podcast é preciso de um aplicativo específico, sendo que existem várias opções, variantes em funcionalidades. A descoberta de episódios individuais nesses aplicativos costuma ser impossível, somente a busca por programas inteiros, o que limita o potencial de distribuição e viralização. A barreira é tão grande que mesmo quando um podcast tornou-se viral (Serial), pouco fez em expandir drasticamente a mídia. A descentralização do conteúdo só prejudica sua compreensão e adoção por parte do público geral.

As plataformas que mais chegam perto de cumprir essa exigências são o Soundcloud (mal das pernas), Acast e Megaphone. Todas plataformas pagas ou restritas a programas com um número mínimo de ouvintes (Acast 1k/semana, Megaphone 20k/episódio).

Enquanto as barreiras da criação e distribuição não caírem, não adianta esperar que o podcast se torne mais do que ele é hoje. Vez ou outra pode surgir um fenômeno como o Serial (produzido por uma rádio) ou um Nerdcast (independente), mas sempre ficaremos restritos a meia dúzia de grandes nomes e pouca variabilidade e número limitado de ouvintes. O falecido Vine criou uma plataforma de vídeos de 6 segundos e os usuários criaram histórias inteiras dentro desse conceito e, sem a ajuda da plataforma, deram um jeito de monetizar seus conteúdos por fora.

É preciso dar as ferramentas nas mãos do usuário comum e facilitar o consumo, para que o mesmo público curioso consuma e produza, tornando o podcast algo tão comum quanto assistir a um vídeo do Youtube. Mesmo a monetização é um tópico secundário, visto que, quando podcats tiverem uma grande audiência nas mãos, oportunidades irão surgir de qualquer forma e outras empresas arregaçarão as mangas para criar meios mais fáceis de faer o dinheiro circular (como o AdSense fez com texto e vídeo). Nada mais que o caminho natural da evolução das mídias online.

    Igor Rodrigues

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    Look mom, I’m on the internet! @rodriguesigor

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