Jornaleiro

Foto original — Folha de S.P.

A porta de enrolar abriu lentamente, como se cada revista estivesse abrindo os olhos e acordando para um novo dia. Ele era cuidadoso e não queria interromper tão abruptamente o sono daquelas que ali viviam. Colocou os pacotes de jornal para dentro e ascendeu a luz. Sua pequena caverna estava aberta.

Deu uma olhada nas manchetes, abriu aquele sorriso de canto, de quem não se surpreende mais com o que lê. E logo entrou o primeiro cliente:

- Tem recarga da Tim?
- Bota R$15, por favor.
- É quarenta e um, nove um oito dois, dois zero zero zero.
- Valeu.

Saiu.

Ele então começou a organizar a banca: pendura o jornal do dia, recolhe os antigos, abastece a geladeira, ascende um cigarro, mais uma recarga. Alguém entrou pedindo uma coca zero, olhou para as estantes mais altas e não reconheceu a garota na capa:

- Essas meninas da tv estão musculosas demais, daqui a pouco colocam o Hulk de peruca e ninguém vai notar.

Saiu.

Ligou o rádio para se distrair. Já era quase meio dia. A essa altura, muita água já havia passado debaixo da ponte daquelas manchetes. Os presos já poderiam estar soltos. Os soltos dificilmente estariam presos. Ele olhava para as prateleiras e sabia que aqueles rostos e bundas não estavam amarelando por acaso.

Pronto, hora de almoçar.

Sozinho, não podia fechar a banca. Pediu ao amigo guarda-carros que pegasse ali na padaria um x-qualquer coisa. Bem na hora que ele voltou com o rango, o rádio anunciava que vinha chuva por aí. Agradeceu o amigo, abriu a sacola e almoçou.

Os pingos já caíam mais forte quando entrou o primeiro. Um pouco molhado, disse oi e ficou na porta, como se a chuva já fosse passar. Depois dele outros entraram. Todos fugindo da água. Nenhum querendo papel. Mas, como olhar é de graça, só se falava no assunto das revistas:

- E ainda tem gente que defende um cara desses. É por isso que os militares tem que voltar. Nem que seja para terminar o que começaram com aquela outra.

- Tamo na merda mesmo. Não tem um que salva.
- Só o Bolsonaro.

Ele ouvia, mas não se metia. Ah, se as pessoas lessem mais antes de falar, ele pensou, “ajudariam a mim e à elas”.

Sonhava em ver aquelas revistas ganhando a rua. Todas elas. A tinta de cada letra sentindo o que é a luz natural, cada rosto, de cada foto, sendo visto por outros olhos. Até nos anúncios do Boston Medical Group ele pensava. Tanta coisa pra todo mundo descobrir. Era um pecado que estivesse tudo ali. “Imagina o que deve pensar o dono da livraria, da locadora e o da loja de cds?”, dizia para si, enquanto descia a porta de enrolar.

O mundo mudou muito. Mais do que ele poderia imaginar quando abriu aquela banca. Mas uma coisa não arredava o pé dali: a esperança.