MillenniuM — Show visionário completa 20 anos

E ganha documentário independente

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25 de Outubro de 1996. 17 milhões de espectadores assistiam na FOX a estreia de uma nova série produzida por Chris Carter, showrunner da então grande série da emissora no horário de pico, domingo a noite, Arquivo X. MillenniuM era um presente da Fox para Carter, uma série no (péssimo) horário de sexta à noite com um grande grau de liberdade criativa concedida.

Misturando temas como o fim do mundo (na chegada do ano 2000), profecias bíblicas, astrologia, serial killers e a ideia do mal no mundo, o incrivelmente violento (e intensamente promovido) piloto, apesar de seus números excelentes, não criou o hit, com MillenniuM sendo cancelado 3 anos depois, antes mesmo de chegar ao ano 2000 — embora, no episódio final crossover com Arquivo X, tenha enfim atingido a sua data tema.

Os 7–5 milhões que audiência flutuou nesses anos, em um mundo pós-streaming, seriam bons números; nos anos 90 simplesmente não eram o bastante, mas MillenniuM deixou um legado com uma sólida fanbase — que produziu o documentário, Millennium After Millennium, que estreará em 2017 — e uma influência enorme em shows que viriam na virada do Milênio.

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Sejam séries modernas da TV a Cabo como True Detective e Hannibal ou séries criminais mainstream como Criminal Minds e Law & Order SVU, odebate sobre a origem maldade humana, pelos crimes de natureza sexual, por profecias e a paranoia de virada de século, da violência de um mundo exterior penetrando em cada lar de tantas séries Pós-11 de Setembro tem em MillenniuM seu grande precursor. True Detective, que parece ter sido feito na mesma palheta cinematográfica, chega a ponto de passar grande parte da sua história no meio dos anos 90, onde MillenniuM era ambientado.

Contando a história de Frank Black, detetive feito pelo impecável ator de sci-fi/horror Lance Henriksen (“Bishop” em Aliens), tentando equilibrar sua vida familiar, com sua esposa e sua filha em uma tradicional casa amarela suburbana (um dos muitos simbolismos usados pela série) com os horrores vistos por Frank no trabalho, a 1ª temporada de MillenniuM foca em histórias de serial killer, um por semana, e nos dilemas: são eles feitos pela sociedade ou nasceram assim?

A esposa de Frank, Catherine, é uma assistente social e ele se vê entre ela e os colegas policiais com uma lógica menos antropológica de encarar o crime, oferecendo uma complexidade muito raramente encontrada em geralmente conservadores shows policias (Frank não usa uma arma uma vez sequer na série). O melhor mesmo são episódios onde o mal no mundo tem origem sobrenatural; demônios bíblicos que mudam de forma e a degradação da humanidade na proximidade do seu fim dão um tom niilista ainda mais distintivo para MillenniuM, que tenta ser um thriller e uma série apocalíptica ao mesmo tempo.

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O grande tesouro perdido de MillenniuM (e uma das peças mais injustiçadas da TV dos 90) é mesmo a 2ª temporada, onde produtores Glenn Morgan/James Wong (que trabalhavam em Arquivo X e viriam fazer a série de filmes Premonição) assumem a produção da série enquanto Chris Carter vai se dedicar ao filme de Arquivo X. Nela a excentricidade sci-fi (mesmo falando de profecias bíblicas) do show é admitida abertamente a série começa a fazer episódios excêntrico abordando diversos temas de formas completamente diferentes — a violência, que chegou a ser alvo de protestos, foi diminuída também.

Seja o melancólico “Goodbye Charlie”, sobre um anjo enfermeiro que realizava eutanásias; o thriller sobre tecnologia e comunicação, antecipando “Black Mirror” em 20 anos, “The Mikado”; histórias arty sobre fantasmas do Halloween e do Natal (“Curse of Frank Black”, “Midnight of the Century”), horas de comédia (“Somehow, Satan Got Behind Me” mostra demônios discutindo numa mesa de café como corromper humanos), tudo culminando no finale “The Time Is Now”, um episódio duplo e cinematográfico onde o apocalipse efetivamente acontece.

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O consenso é que deveria ser o fim, mas MillenniuM, mesmo com a história encerrada, foi renovado por mais uma temporada. E a fraca, caótica e carregada num retcon agressivo 3ª temporada (que voltou a Carter), mesmo com ocasionais momentos, falha pelos mesmos motivos que a 2ª sucede: MillenniuM nunca teve um propósito concreto, sendo um show que deixava seus temas flutuando sem nenhuma destinação final narrativa. Quando sua falta de foco era admitida para realizar suas grandes, diversas ambições, a série era capaz de grandes momentos na 2ª temporada; quando ela tentou ser usada de forma mais tradicional, culminou no fracasso da 3ª.

A série ainda morreu dignamente em um crossover com Arquivo X; no aniversário de 20 anos, foi anunciado o documentário independente com participações de atores, diretores e roteiristas envolvidos na série. O site This is Who We Are foi apenas um dos fóruns da fanbase ativa até hoje da série; que escreveu temporadas seguintes em versão texto/fanfic, criou podcasts entrevistando criadores e atores, e até fez campanhas para a série (que não foi remasterizada, mas foi lançada em DVD) entrar no Netflix.

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Arquivo X, apesar de uma série pessimista por si só, era carregado de mantras new age dos anos 90 (“I want to believe”), de incertezas metafísicas e o sentimento de uma era de ouro da cultura pré-globalizada se fechando nos EUA. MillenniuM era diretamente sobre o medo do futuro, com seu próprio slogan ansioso (“The time is now”), errando o zeitgeist por se antecipar em alguns anos; apesar de estritamente 90s (como a ideia de ano 2000 sempre será), suas histórias sobre violência e extremismo religioso receberiam muito mais atenção no meio da década seguinte.

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