Arrependimentos

Você está sentado, esperando algo acontecer, numa noite de sexta feira. Esperando as batidas na porta, a meia calça preta com um pequeno rasgado na altura das coxas, o batom vermelho marcando seus lábios. O sorriso. Esperando ela aparecer com uma pizza mista e um engradado com 6 latas de cerveja, dizendo: “sim, você não vai me ajudar aqui, não?”, então você ri, e vai ajuda-la, e ela diz com aquele tom debochado na voz: “finalmente, né!”.

Mas você sabe que ela não voltará, e, pelos diabos, você está sozinho numa sexta feira a noite! Sabendo que se você morrer agora, ninguém vai chorar, pois ela era a única que se importava com você, quer dizer, sua mãe também, só que seu cadáver enterrado à mais de 15 anos não pode te tirar esse sentimento indizível de quem sabe que não serve mesmo pro amor.

É nesse momento que você quebra as promessas da juventude, aquelas mesmas, de nunca ter arrependimentos. Naquele tempo você vivia acelerado o tempo todo, travado, os vícios da cidade todos em ti, te enlouquecendo, mas ela te ajudou e fez você largar a cocaína e uma porção de outras drogas. Levou 2 anos, mas ela aguentou todas as suas recaídas e excessos. Você estava caindo em queda livre num precipício infindo, e ela apareceu, e ela também estava caindo, mas, olhou em seu rosto destruído, e por algum motivo, decidiu segurar em sua mão, como quem diz: “nós estamos caindo, mas que caiamos juntos”.

Você percebe que deveria ter ouvido o que ela dizia, mas, por algum motivo, você preferiu ignorar todas aqueles conselhos preocupados. Você tinha a certeza que ela estava destinada a ficar com você, e que nada os separaria, que ela estava presa a você, de alguma forma. Só que você não quis enxergar, então continuou fazendo suas merdas e ela até aguentou por um tempo. Só que já estava demais, você só aparecia bêbado e fedido e a tratava da pior forma possível. E chegou àquele ponto, o maldito episódio, torpe, desprezível: você chegou uma noite, ela estava acordada, lendo um livro qualquer. Nesse tempo, ela já tinha alimentado um sentimento de nojo muito grande por você, ao ponto de não querer te olhar no rosto, muito menos ter qualquer tipo de relação física com você. Então você chegou naquela noite, e foi até ela. “Sai daqui, seu bêbado fedido!”, ela exclama. Você diz, “Não faz assim, amor. Estou com saudade de você”. Ela te ignora e continua com os olhos vidrados naquelas inertes palavras. Você não aceita, começa a apalpa-la. Ela tira sua mão, não sem deixar bem claro o sentimento de desprezo e escárnio que sentia por você. Você continua, continua, continua. Ela grita, diz: “Para com isso, filho da puta!”. Você, calado, com um olhar de fato, nojento. Pega, violentamente, na cintura dela e a vira de costas, ela se debate, mas você é forte e ela muito fraca, seus gritos não são ouvidos e os socos e pontapés desferidos não adiantam de nada. Você aperta a garganta dela, ela diz, já chorando: “Para, por favor!”. Mas o fato já tinha se consumado, você havia violentado a mulher que por muito tempo amou, e ainda ama. Depois, foi tudo choro e lágrimas e ódio. Você estava fora de si, não pensava em nada. Caiu na cama e fechou os olhos, exausto.

Acordou, desorientado, por volta do meio dia. Não havia ninguém na casa, chamou o nome dela. Mas ela já havia ido embora há muito tempo, tinha juntado suas roupas, pegado todo o dinheiro, e comprado uma passagem de ônibus, voltaria para casa de seus pais.

Você não acreditou. Sentiu um sentimento algo estranho, de não-habitar, de cordão umbilical cortado. De gêmeos separados no dia do nascimento. Não se lembrava de nada da noite passada e não acreditava que ela tinha feito aquilo. Como poderia?

A noite veio, e você lá sentado, esperando ela voltar. É, meu amigo, a lua foi brilhar pra outro lugar. Passaram-se semanas, você não tinha tido mais noticias dela. Um sentimento de culpa se apoderou de você, mas uma culpa sem causa — você imaginava, sabendo que tinha feito uma coisa muito errada naquela noite.

Você desiste, ela não vem. Você sabe. Liga o radinho de pilha, uma música muito chorosa e verdadeira toca. Era Nem Assim, do Sérgio Sampaio. Você sente que aquela é a música de toda a sua existência, de todos os seus erros e escolhas erradas e vícios inconsequentes. Você sabe que nada apagará seus erros. Você tem medo. Você escuta a música, e, involuntariamente, dá risada de si mesmo. Pega outra cerveja, sabe que não há outro jeito. Sergio Sampaio cantando numa sexta feira a noite vazia é uma imagem um tanto melancólica, você pensa. Nada acontece. Silêncio. Sabe que o corpo padece mas, o coração ferido, só caleja-se cada vez mais e não cresce. Então, nesse momento, você solta uma longa risada. Deus errou, você pensa. Deus errou. Manda tudo pra puta que o pariu, você sabe que está sozinho e que ela te deixou e que se ela te deixou, você estará sempre sozinho. Cantarola baixinho um verso da música e fecha os olhos, tentando imaginar as coxas, os olhos, a boca, tudo aquilo. Mas não consegue.

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