Aaron Swartz, Snowden, Obama e o que chamam de futuro

Outro dia, fez quatro anos que perdemos Aaron Swartz. O “perdemos” não é exagerado porque o plural se justifica pela vida que ele teve. Programador brilhante, ativista da cultura livre, hacker e entusiasta de uma web mais plural e social, Aaron viveu apenas 26 anos, mas se envolveu num conjunto monumental e importante de trabalhos que mudou a vida de muitos usuários da internet, que vão do RSS 1.0 ao Reddit, passando pela Wikipédia e Creative Commons.

Processado e perseguido pelo governo por ter violado direitos autorais ao baixar alguns milhões de artigos científicos de uma base de dados, corria o risco de ter de pagar um milhão de dólares de multa e cumprir 35 anos de cadeia. Não suportou a barra e se matou, deixando apenas a expectativa do que poderíamos esperar de sua inteligência e sensibilidade.

Morreu porque era um cara perigoso. Pensava. E fazia. Morreu porque governos detestam gente assim. O governo Obama em particular, pois em nenhum outro período da história americana uma gestão perseguiu tantos hackers e whistleblowers quanto ele. A lista é longa, mas os primeiros nomes estão na ponta da língua: Snowden, Manning, Assange.

Aaron Swartz também deveria estar ali, mas não houve tempo.

Podemos conhecer um pouco dele no documentário The Internet’s Own Boy (https://youtu.be/gpvcc9C8SbM). Temos acesso ao que ele pensava num livro recém-lançado e que reúne entrevistas e escritos de Aaron desde quando ele tinha apenas 17: The Boy Who Could Change the World.

Na apresentação, Lawrence Lessig – que foi seu professor, amigo e colaborador – diz que Aaron é dessas poucas pessoas que têm a plena liberdade de fazerem apenas o que consideram certo. Não porque os demais façam o errado, mas porque paramos para avaliar e decidir entre certo e errado. Aaron, segundo Lessig, fazia o que considerava certo, e acertava.

Aos 17 anos, numa entrevista, e perguntado sobre o que gostaria de dizer à maioria das pessoas, Aaron respondeu calmamente.

Pensem profundamente sobre as coisas. Considerem os efeitos, as alternativas, mas mais importante de tudo: pensem.

A poucos dias do final de seu mandato, Barack Obama poderia também pensar. Ele está sendo pressionado a perdoar Edward Snowden. Julian Assange prometeu aceitar ser extraditado caso Chelsea Manning também fosse perdoada.

Temos razões suficientes para acreditar que nenhum deles será deixado de lado. Faz parte do nosso presente a ausência do inspirador Aaron, a prisão da corajosa Manning, o exílio de Snowden e o asilo de Assange. O futuro é difícil de prever, mas a se julgar pelo que está aí, teremos mais e mais batalhas a vencer para que o mundo seja mais justo, mais livre e mais honesto.

ATUALIZAÇÃO de 17/01/2017. A Casa Branca acaba de anunciar que Obama comutou — leia-se reduziu — a pena de Manning, que será solta em maio deste ano (https://www.nytimes.com/2017/01/17/us/politics/obama-commutes-bulk-of-chelsea-mannings-sentence.html?hp&action=click&pgtype=Homepage&clickSource=story-heading&module=a-lede-package-region&region=top-news&WT.nav=top-news&_r=0). É uma ótima notícia, e Obama realiza algo digno do poder que detém. Entretanto, seu saldo ainda é bem negativo ainda.